Arte & Cultura

Uma história de amor e imigração.

As histórias de imigração costumam impressionar e, no caso da jornalista Luciana Rangel, contada no livro "Está (quase) tudo bem", vai além do drama de estar dividida entre Brasil e Alemanha. O enredo vem acompanhado de uma aventura pelas riquezas e pobrezas brasileiras, ao lado de uma equipe de televisão alemã.
Versão brasileira de “Está (quase) tudo bemhttps://www.editorafolhasderelva.com.br/esta-quase-tudo-bem

Se você quer conhecer um pouco mais sobre Brasil e Alemanha, divertindo-se com um humor sincero, “Está (quase) tudo bem“, é para você. Publicado pela editora Folhas de Relva, é o primeiro livro da jornalista brasileira e alemã, Luciana Rangel. A cada página, confirmo a delícia de leitura que eu imaginava me esperar.

“Desço e rezo para não encontrar qualquer pessoa no café da manhã. Estão todos lá. Detesto café da manhã com equipe. Café da manha é um ritual para mim. Alguns meditam, outros fazem ioga. Tomo meu café da manhã.”

A Luciana é a protagonista da história, real, que conta uma experiência de imigração entre Brasil e Alemanha. Eu conheço a Lu e ela adora conversar. Ficamos horas ao telefone. Mas eu fiquei impressionado com o poder de síntese que ela tem para dizer tanta coisa, com poucas palavras. Quem consegue escrever a autobiografia em sete palavras?

“Ela nasceu, bebeu café com o pai e morreu.”

Luciana nos apresenta a Amazônia, no Pará, a São Paulo, de olhos puxados, o Rio de Janeiro, da beleza fatal, e um pouco de Pernambuco e Bahia e, claro, a Alemanha, oposto do Brasil. Eu digo que é uma viagem, ainda mais longa, pela essência do ser humano. Um pai que ensina sobre viver e morrer livre. Um garçom que devolve parte da gorjeta, porque achou que era muito.

O roteiro tem humor, drama e aventura. Depois de nove anos morando na capital alemã, Luciana retorna ao Brasil e assume a produção de um documentário para uma emissora de televisão da Alemanha, sobre a cultura brasileira. Junto com os jornalistas estrangeiros, ela descobriu mais alguns pedaços do Brasil que, assim como sua cidade natal, Rio de Janeiro, conseguem ser lindos e feios.

Documentário: Brasil, Terra da Saudade – de Pessoas, Sonhos e Tradições. (ZDF)

Está (quase) tudo bem, revela choques culturais, do Brasil para brasileiros, como neste relato que a jornalista ouviu de uma enfermeira, na tribo indígena Xikrins, no Pará:

“Na manhã do dia seguinte, Bela está na cozinha conosco. Seu dia de folga. Conto para ela sobre o bebê, sobre o branco no nariz e na boca. Ela me fala de maneira conformada que são vermes. Aquele bebê vai morrer. As mulheres indígenas não querem dar remédios, e ela, como enfermeira da tribo, não pode fazer nada. É da cultura deles.”

E da Alemanha para o Brasil:

“Esqueço que brasileiro tem problema com roupas usadas e ofereço aos amigos conterrâneos. Apenas o mais descolado aceita. Os demais me olham com olhar torto. Lamento ter ofendido aos que queria agradar.”

Muitas histórias de vida dariam um livro, quem sabe todas, a depender da mão que conta. Esse intercâmbio cultural enriquece a obra, mas tem algo simples que transforma palavra em ouro. O estilo da Luciana me fez lembrar da guerra que travei comigo mesmo para me tornar um leitor assíduo. E foi nesse embate que encontrei o ” O Xangô de Baker Street”, romance de Jô Soares. Era 1998, e eu comemorei a leitura, faminta, ter durado quatro dias. A leveza do humor maduro da Lu, me fez lembrar do Jô. Frases como, “O futuro é como uma bola de sabão, divertida e delicada.” e “Estou de luto. Meu pai passa bem, obrigada.”, me prenderam numa leitura que acabou em algumas horas.

Está (quase) tudo bem” é inspiração, para ser livre, como um pássaro, e para tomar um café da manhã, sozinho, ou, apenas, com quem mais se ama.

Luciana e o pai, Rubem, em Berlim.
Publicação, alemã, de “Está (quase) tudo bem. https://hagebutte-verlag.de/fast-alles-in-ordnung
Ambas as edições, brasileira e alemã, trazem em um único livro, as versões em alemão e português.

Luciana Rangel é jornalista e escritora carioca. Mora na Alemanha desde 2005. Em sua trajetória, soma experiência na imprensa internacional e nacional. Suas produções sobre história, política e cultura foram premiadas pela União Europeia e TV Globo. Recebeu também o Prêmio Petrobrás pelo documentário Brasil: País da saudade. Como autora, participou da antologia bilíngue Saudade é uma palavra estragada (Bübül Verlag), de Escrever Berlim (Nós) e do Salão de Outono do Teatro Maxim-Gorki de Berlim. É doutoranda do Instituto Latino-Americano da Universidade de Bielefeld.

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