
Em “Antropobsceno”, artista argentino Seudo recupera conhecimentos agrícolas dos Andes para pensar o futuro da alimentação; brasileiro parte da Prachtsaal alerta para concentração de riqueza com novas tecnologias
Uma praia tomada por plástico ocupa parte de uma galeria em Berlim. A imagem criada pelo artista argentino Seudo é irônica e incômoda, mas a intenção não é apenas denunciar os impactos da ação humana sobre o planeta. Em “Antropobsceno”, o artista procura também apresentar uma proposta: recuperar conhecimentos agrícolas ancestrais e colocá-los em diálogo com tecnologias contemporâneas, como a inteligência artificial.
A instalação está na Prachtsaal, espaço artístico em Neukölln, que tem o brasileiro Stephan Vankuyk, como um dos gestores da galeria e curador da exposição.
A finissage está marcada para está terça-feira, 25, das 17 as 22 horas.
Em entrevista ao Mais Berlim, Seudo explicou que a ideia surgiu justamente da vontade de ultrapassar a crítica.

“Em vez de gerar uma crítica de que o mundo está indo para um lugar que não beneficia nenhum de nós, me parece que a nenhum de nós, [quis] gerar uma proposta”, afirma.
Essa proposta passa por olhar para o passado para discutir um dos maiores desafios do presente: como produzir alimentos para uma população crescente sem aumentar a degradação dos solos e dos recursos naturais.
O que significa “Antropobsceno”?

“Antropobsceno” é a quarta parte de um projeto dividido em cinco trabalhos e parte do conceito de Antropoceno.
Questionado pelo Mais Berlim sobre o nome, Seudo confirmou: “É um jogo de palavras ligado a esta era geológica que alguns cientistas chamam de Antropoceno.”
O termo ganhou espaço nas últimas décadas para discutir a dimensão das transformações provocadas pela humanidade sobre os sistemas terrestres. Apesar de seu amplo uso no debate científico e ambiental, o Antropoceno não foi formalmente reconhecido como uma nova época na escala geológica internacional.
Na obra de Seudo, essa interferência humana ganha uma representação bastante concreta: plástico.
Uma praia onde o plástico ocupa o lugar da natureza

Uma das instalações transforma o espaço da galeria em uma espécie de praia coberta por resíduos plásticos.
Para Seudo, o exagero e o desconforto fazem parte da linguagem da obra.
“É um pouco também de ironia, de acidez. Gosto de jogar com essas coisas, me parece que impacta muito mais”, disse ao Mais Berlim.
A praia funciona como uma provocação sobre a enorme produção de plástico e sua presença cada vez maior no ambiente.
Mas é quando o visitante encontra o contraponto à praia que a proposta de “Antropobsceno” ganha outra dimensão.
Se de um lado está um dos materiais que simbolizam a sociedade industrial contemporânea, do outro aparecem conhecimentos desenvolvidos muito antes das tecnologias atuais.
Os terraços agrícolas dos Andes

Foto: Seudo
Seudo direciona o olhar para as terrazas de cultivo, conhecidas no Peru como andenes: sistemas de terraços construídos nas encostas das montanhas para possibilitar a agricultura em terrenos inclinados e auxiliar no manejo da água e do solo.
Embora sejam frequentemente associados aos incas, esses conhecimentos agrícolas são mais antigos que o próprio Império Inca e foram desenvolvidos por diferentes sociedades andinas ao longo de milhares de anos.
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) destaca que os sistemas agrícolas andinos são resultado de mais de 5 mil anos de adaptação ao ambiente. Terraços, sistemas de irrigação e o cultivo de diferentes espécies em diferentes altitudes permitiram às populações produzir alimentos em uma geografia particularmente desafiadora.
Essas técnicas não desapareceram com as civilizações que as desenvolveram.
Comunidades andinas ainda mantêm sistemas tradicionais de agricultura. No Peru, iniciativas governamentais procuram inclusive recuperar andenes por seu potencial para conservação do solo, aproveitamento da água e produção agrícola.
Estudos do Instituto Geofísico do Peru também apontam benefícios contra a erosão. Pesquisa realizada em áreas agrícolas encontrou redução de cerca de 33% na erosão do solo em terrenos com terraços em comparação com áreas sem essas estruturas.
É esse conhecimento que Seudo quer trazer para uma discussão contemporânea.
O encontro entre conhecimento ancestral e inteligência artificial

“Resgatar conhecimentos ancestrais, como são as terrazas de cultivos incaicas, que têm dois mil anos de história e subsistem até hoje, e uni-las às novas tecnologias, como pode ser a IA”, explicou Seudo.
A intenção, segundo ele, seria “gerar alimentos sem danificar tanto o solo, as terras” e buscar caminhos para enfrentar o desafio de alimentar a população mundial.
A referência aos dois mil anos corresponde à explicação do próprio artista. Historicamente, porém, a tradição agrícola andina é ainda mais antiga e envolve diferentes povos anteriores aos incas.
Na exposição, portanto, a IA não é apresentada como uma solução científica pronta para as mudanças climáticas. Ela aparece dentro de uma proposição artística: imaginar o que poderia acontecer se ferramentas tecnológicas atuais fossem combinadas com conhecimentos acumulados e testados por populações durante gerações.
Mas dentro da própria mostra existe uma visão mais crítica sobre essa promessa tecnológica.
“Vão servir para acumular grandes fortunas no bolso de poucos”

O brasileiro Stephan Vankuyk, um dos responsáveis pela Prachtsaal e curador da exposição, acompanha o trabalho de Seudo há cerca de 20 anos.
Para Stephan, referências às culturas pré-colombianas não surgiram agora na produção do artista.
“A proposta nova dele trata muito sobre as realidades climáticas que a gente está vivendo, mas reinterpretando as inspirações incas, maias e astecas que ele sempre teve no trabalho dele. Foi algo que desde as primeiras exposições que a gente fez juntos já dava para ver”, conta.
O que mudou é a maneira como essas referências passaram a dialogar com questões contemporâneas.
“Agora ele está usando isso como uma ferramenta sarcástica para analisar novas tecnologias”, afirma Stephan.
E, enquanto Seudo imagina a possibilidade de aproximar conhecimentos ancestrais e ferramentas como a IA, Stephan introduz uma crítica à maneira como essas tecnologias vêm sendo apresentadas à sociedade.
“Essas novas tecnologias são apresentadas para a gente como a solução para todos os nossos problemas”, diz.
O galerista, entretanto, questiona quem efetivamente será beneficiado por elas.
“Eu acho que, muito mais que solução, a IA, essas novas tecnologias, só vão servir para acumular grandes fortunas no bolso de poucos. História que a gente já conhece e já viu antes.”
As duas perspectivas não precisam produzir uma resposta única. Pelo contrário: ajudam a transformar a exposição em uma discussão sobre qual tecnologia queremos, de onde vem o conhecimento utilizado por ela e quem se beneficia dos resultados.
Uma parceria que começou com dois quadros em Buenos Aires

A presença de Seudo na Prachtsaal também é resultado de uma relação que começou cerca de duas décadas atrás, muito antes da atual exposição em Berlim.
Stephan lembra que estava inaugurando sua primeira galeria em Buenos Aires quando Seudo apareceu.
“O Seudo apareceu no dia da abertura da minha primeira galeria. Apareceu com uma cara de cão sem dono, com dois quadros embaixo do braço, dizendo que leu no Facebook que eu estava abrindo uma galeria e queria saber se podia mostrar os quadros.”
Stephan decidiu abrir espaço para o então desconhecido artista.
“Para mim sempre foi muito importante dar espaço para artistas sub-representados no mundo artístico, artistas que são esquecidos pelo mainstream, pelo mundo das artes.”
Ele conta que gostou do trabalho e permitiu que Seudo ocupasse um espaço na galeria.
“Isso foi há vinte anos e, desde então, a gente vem trabalhando junto, às vezes mais, às vezes menos.”
Duas décadas depois daquele encontro em Buenos Aires, a parceria chegou novamente a Berlim.
“Foi muito satisfatório saber que eu tive um impacto tão grande na carreira desse grande artista”, afirma Stephan.
Para o galerista brasileiro, existe ainda outra dimensão nesse trabalho: ampliar a presença latino-americana no circuito europeu.
“É legal ter uma oportunidade de trazer os artistas latinos e encontrar um espaço para exibi-los na Europa.”
Outros artistas dividem o espaço

A mostra na Prachtsaal não se limita ao trabalho de Seudo.
Dentro do espaço expositivo, uma área reúne também trabalhos de outros artistas, ampliando a proposta da galeria de colocar diferentes produções e trajetórias em contato com o público berlinense.
É nesse ambiente que a praia de plástico de “Antropobsceno” encontra seu lugar.
A instalação começa com uma imagem de degradação, mas termina colocando uma questão que atravessa passado e futuro.
De um lado, uma sociedade que ainda procura uma saída para a quantidade de plástico que produz. Do outro, técnicas agrícolas desenvolvidas por sociedades que aprenderam durante milhares de anos a produzir alimentos em alguns dos terrenos mais difíceis do planeta.
No meio desses dois mundos está uma tecnologia que promete transformar o futuro — e sobre a qual artista e curador levantam perguntas diferentes.
O conhecimento necessário para enfrentar a crise ambiental virá das máquinas, do passado ou da combinação entre os dois? E, se a tecnologia fizer parte da resposta, quem terá acesso aos seus benefícios?
“Antropobsceno” deixa essas perguntas abertas.
Prachtsaal
Jonasstraße 22
12053 Berlin-Neukölln
Fontes
Entrevistas exclusivas de Seudo e Stephan Vankuyk ao Mais Berlim; material da exposição “Antropobsceno”; Prachtsaal; Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO); fontes oficiais do governo peruano e Instituto Geofísico do Peru.
Essa matéria é parte do projeto Mais Art, lançado pelo Mais Berlim para proporcionar oportunidades a artistas independentes.
Augusto Medeiros é jornalista há 25 anos, formado pela Universidade Federal da Paraíba, atuou no Brasil como repórter de rede, na TV Globo, por 15 anos, com reportagens para Jornal Nacional, Fantástico, Jornal Hoje, Bom Dia Brasil, Jornal da Globo e Globo News. Na Alemanha, passou a atuar como correspondente internacional para o Fantástico, em coberturas como a Guerra da Ucrânia e a Crise Energética. É fundador e editor-chefe do portal Mais Berlim.

