Entrevista exclusiva – estudante de 18 anos, morador de Berlim (identidade preservada).

O Mais Berlim conversou com um estudante, que se envolveu com uso de fogos ilegais em Berlim. O jovem se diz arrependido e contou que não pratica mais esse tipo de “diversão”.
Quando você começou a soltar fogos ilegais em Berlim e o que exatamente fazia?
“Eu comecei com 14, 15 anos. A gente comprava Böller na Polônia e ficava soltando em vários lugares. No Ano-Novo, saía com os amigos, acendia e fazia barulho. Era só diversão.”
Por que vocês iam para a Polônia?
“Aqui em mercados isso é proibido. O que a gente comprava eram os Polenböller mesmo.”
Como vocês transportavam?
“A gente foi de carro. Eu e um amigo. Depois, no Réveillon, estava com mais gente.”
Quanto vocês gastaram?
“Mais ou menos 100 euros no total.”

Que tipo de fogos eram esses?
“Eu não sei o nome técnico. Eram os Polenböller, os mais fortes, os mais barulhentos. Esses aqui são proibidos.”
Você considerava isso perigoso na época?
“Depende de como usa. Perigoso é, claro, mas a gente achava normal. Não pensava muito.”
Você mencionou fogos ainda mais perigosos. Quais?
“As Kugelbomben. Isso já não é mais Böller, isso é bomba. Coloca num tubo, sobe e explode muito forte. Disso a gente sempre se distanciou.”
Você já se machucou ou viu alguém se machucar?
“Eu não, e na minha frente, não vi. Mas meu primo acendeu um Böller que falhou, tentou de novo e explodiu na mão. A mão inchou toda e tivemos que ir ao hospital.”
Você via notícias sobre violência com fogos ilegais em Berlim?
“Sim, muito. Görlitzer Bahnhof, Kotti, Alexanderplatz, Hermannplatz. Grupos jogando fogos uns nos outros. É perigoso.”
Você ainda solta fogos hoje?
“Não. Faz dois anos que eu não faço mais nada no Réveillon. Hoje fico tranquilo.”
O que você pensa hoje sobre quem continua fazendo isso?
“Acho loucura. Não é bom. Gasta dinheiro, machuca pessoas e ainda prejudica o meio ambiente.”
Que fogos são esses citados pelo jovem
Os fogos descritos pelo entrevistado são conhecidos popularmente como “Polenböller” — artefatos comprados fora da Alemanha, sem certificação de segurança alemã e com carga explosiva superior à permitida.
Segundo autoridades, esse tipo de fogos:
- explode de forma menos previsível
- tem maior poder de impacto
- aumenta o risco de ferimentos graves nas mãos e no rosto
São exatamente esses artefatos que aparecem com mais frequência em acidentes registrados durante o Réveillon.
Quando o fogos atingem prédios e varandas
A polícia e os bombeiros alertam que fogos de alta potência, ao desviarem de trajetória, podem entrar em varandas, janelas abertas ou atingir fachadas, provocando incêndios em apartamentos e danos materiais.
Esse tipo de ocorrência é recorrente em áreas densamente povoadas, como Berlim.
Fogos usados como arma
Outro ponto destacado pelas autoridades é o uso de fogos contra pessoas.
Na virada do ano, policiais e equipes de emergência relataram ter sido alvos diretos de rojões e Böller enquanto atendiam ocorrências. Nesses casos, o uso deixa de ser festivo e passa a configurar agressão.
Balanço final da polícia – Berlim (2025 → 2026)
Segundo o balanço final divulgado pela Polizei Berlin:
- 2.340 ocorrências atendidas durante a virada do ano
- Cerca de 800 investigações iniciadas
- 430 detenções relacionadas a uso ilegal de fogos, violência e resistência à polícia
- 35 policiais feridos, sendo 22 atingidos diretamente por fogos de artifício
- 2 policiais gravemente feridos, com necessidade de internação
A polícia reforça que fogos ilegais e de alta potência seguem sendo o principal fator de risco durante o Réveillon.
E os civis feridos? O que dizem os dados confiáveis
A polícia alemã não divulga um número consolidado de civis feridos, já que esses casos são registrados principalmente por hospitais.
De 2024 para 2025:
- Pelo menos cinco pessoas morreram na Alemanha em acidentes com fogos
- Centenas de civis ficaram feridos, muitos com queimaduras, lesões nas mãos, olhos e rosto
- Berlim aparece de forma recorrente como um dos principais focos de atendimentos médicos ligados a fogos de artifício
Esses dados são usados por autoridades para justificar zonas de proibição e campanhas de conscientização.
Conclusão
O relato do jovem mostra como o uso de fogos ilegais começa cedo, em grupo e muitas vezes tratado como brincadeira. Mas são exatamente esses artefatos — mais potentes, imprevisíveis e comprados fora da Alemanha — que aparecem nos balanços finais da polícia e nos dados hospitalares como responsáveis por ferimentos, incêndios e confrontos todos os anos.
Texto original produzido por Mais Berlim. Fonte: Polícia de Berlim.
Veja nossa matéria sobre o balanço dos acidentes com fogos no Réveillon de Berlim 2025/2026. Clique aqui.
Augusto Medeiros é jornalista brasileiro radicado em Berlim, editor-chefe e fundador do Portal Mais Berlim. Atua na cobertura de cultura, sociedade, diversidade, empreendedorismo e cotidiano na Alemanha, com foco na experiência de brasileiros e comunidades internacionais no país. Produz reportagens autorais, entrevistas e conteúdos multilíngues que conectam Brasil e Alemanha com informação, contexto e sensibilidade.

