Fogos ilegais em Berlim:“A gente ia de carro até a Polônia”: diz jovem

Fogos ilegais em Berlim por trás de acidentes no Réveillon. Em entrevista exclusiva, jovem relata como comprava esses artefatos na Polônia.

Entrevista exclusiva – estudante de 18 anos, morador de Berlim (identidade preservada).

Foto: Douglas Pingituro/ Ação policial no dia 31 de dezembro de 2025

O Mais Berlim conversou com um estudante, que se envolveu com uso de fogos ilegais em Berlim. O jovem se diz arrependido e contou que não pratica mais esse tipo de “diversão”.

Quando você começou a soltar fogos ilegais em Berlim e o que exatamente fazia?

“Eu comecei com 14, 15 anos. A gente comprava Böller na Polônia e ficava soltando em vários lugares. No Ano-Novo, saía com os amigos, acendia e fazia barulho. Era só diversão.”

Por que vocês iam para a Polônia?

“Aqui em mercados isso é proibido. O que a gente comprava eram os Polenböller mesmo.”

Como vocês transportavam?

“A gente foi de carro. Eu e um amigo. Depois, no Réveillon, estava com mais gente.”

Quanto vocês gastaram?

“Mais ou menos 100 euros no total.”

Foto de Ali Atyabi / imagem ilustrativa
Que tipo de fogos eram esses?

“Eu não sei o nome técnico. Eram os Polenböller, os mais fortes, os mais barulhentos. Esses aqui são proibidos.”

Você considerava isso perigoso na época?

“Depende de como usa. Perigoso é, claro, mas a gente achava normal. Não pensava muito.”

Você mencionou fogos ainda mais perigosos. Quais?

“As Kugelbomben. Isso já não é mais Böller, isso é bomba. Coloca num tubo, sobe e explode muito forte. Disso a gente sempre se distanciou.”

Você já se machucou ou viu alguém se machucar?

“Eu não, e na minha frente, não vi. Mas meu primo acendeu um Böller que falhou, tentou de novo e explodiu na mão. A mão inchou toda e tivemos que ir ao hospital.”

Você via notícias sobre violência com fogos ilegais em Berlim?

“Sim, muito. Görlitzer Bahnhof, Kotti, Alexanderplatz, Hermannplatz. Grupos jogando fogos uns nos outros. É perigoso.”

Você ainda solta fogos hoje?

“Não. Faz dois anos que eu não faço mais nada no Réveillon. Hoje fico tranquilo.”

O que você pensa hoje sobre quem continua fazendo isso?

“Acho loucura. Não é bom. Gasta dinheiro, machuca pessoas e ainda prejudica o meio ambiente.”

Que fogos são esses citados pelo jovem

Os fogos descritos pelo entrevistado são conhecidos popularmente como “Polenböller” — artefatos comprados fora da Alemanha, sem certificação de segurança alemã e com carga explosiva superior à permitida.

Segundo autoridades, esse tipo de fogos:

  • explode de forma menos previsível
  • tem maior poder de impacto
  • aumenta o risco de ferimentos graves nas mãos e no rosto

São exatamente esses artefatos que aparecem com mais frequência em acidentes registrados durante o Réveillon.

Quando o fogos atingem prédios e varandas

A polícia e os bombeiros alertam que fogos de alta potência, ao desviarem de trajetória, podem entrar em varandas, janelas abertas ou atingir fachadas, provocando incêndios em apartamentos e danos materiais.

Esse tipo de ocorrência é recorrente em áreas densamente povoadas, como Berlim.

Fogos usados como arma

Outro ponto destacado pelas autoridades é o uso de fogos contra pessoas.

Na virada do ano, policiais e equipes de emergência relataram ter sido alvos diretos de rojões e Böller enquanto atendiam ocorrências. Nesses casos, o uso deixa de ser festivo e passa a configurar agressão.

Balanço final da polícia – Berlim (2025 → 2026)

Segundo o balanço final divulgado pela Polizei Berlin:

  • 2.340 ocorrências atendidas durante a virada do ano
  • Cerca de 800 investigações iniciadas
  • 430 detenções relacionadas a uso ilegal de fogos, violência e resistência à polícia
  • 35 policiais feridos, sendo 22 atingidos diretamente por fogos de artifício
  • 2 policiais gravemente feridos, com necessidade de internação

A polícia reforça que fogos ilegais e de alta potência seguem sendo o principal fator de risco durante o Réveillon.

E os civis feridos? O que dizem os dados confiáveis

A polícia alemã não divulga um número consolidado de civis feridos, já que esses casos são registrados principalmente por hospitais.

De 2024 para 2025:

  • Pelo menos cinco pessoas morreram na Alemanha em acidentes com fogos
  • Centenas de civis ficaram feridos, muitos com queimaduras, lesões nas mãos, olhos e rosto
  • Berlim aparece de forma recorrente como um dos principais focos de atendimentos médicos ligados a fogos de artifício

Esses dados são usados por autoridades para justificar zonas de proibição e campanhas de conscientização.

Conclusão

O relato do jovem mostra como o uso de fogos ilegais começa cedo, em grupo e muitas vezes tratado como brincadeira. Mas são exatamente esses artefatos — mais potentes, imprevisíveis e comprados fora da Alemanha — que aparecem nos balanços finais da polícia e nos dados hospitalares como responsáveis por ferimentos, incêndios e confrontos todos os anos.


Texto original produzido por Mais Berlim. Fonte: Polícia de Berlim.

Veja nossa matéria sobre o balanço dos acidentes com fogos no Réveillon de Berlim 2025/2026. Clique aqui.

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Augusto Medeiros é jornalista brasileiro radicado em Berlim, editor-chefe e fundador do Portal Mais Berlim. Atua na cobertura de cultura, sociedade, diversidade, empreendedorismo e cotidiano na Alemanha, com foco na experiência de brasileiros e comunidades internacionais no país. Produz reportagens autorais, entrevistas e conteúdos multilíngues que conectam Brasil e Alemanha com informação, contexto e sensibilidade.

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