Alessandra Pontes completou dez Maratonas de Berlim, inspirou a família a correr e quer celebrar os 50 anos com 50 maratonas pelo mundo.

Pernambucana de 49 anos encontrou na corrida saúde, amizades e uma paixão que contagiou toda a família. Na décima prova em Berlim, a ajuda de uma desconhecida tornou a chegada ainda mais especial.

Aos 49 anos, a professora de música de Frankfurt soma 47 maratonas e celebra as amizades que o esporte trouxe. Pernambucana corre sem se preocupar com performance.


A prova em Berlim trouxa a certeza de que ainda há pessoas dispostas a ajudar.

Alessandra Pontes voltou de sua décima Maratona de Berlim com uma medalha e uma nova amiga. A medalha foi conquistada depois de 42,195 quilômetros. A amizade nasceu quando continuar parecia difícil — e uma brasileira que ela não conhecia parou para ajudá-la.

Na edição de 2026, por volta do quilômetro 30, a pernambucana de 49 anos teve um sangramento menstrual intenso, que associa à fase de transição para a menopausa. Assustada, chamou uma corredora que passava pelo percurso.

“Ei, fala comigo aqui, me ajuda aqui que eu tô desesperada.”

Nos quatro quilômetros finais, as duas seguiram caminhando juntas. A outra brasileira também tinha uma história de dificuldade e superação para contar. Enquanto avançavam, a conversa e a companhia ajudaram Alessandra a concluir a prova.

“Ganhei mais outra amiga brasileira e ela me entendeu.”

O jubileu de dez maratonas na capital alemã ganhou, assim, uma lembrança que não cabe no resultado oficial. Alessandra chegou ao fim amparada por alguém que, até pouco antes, era uma desconhecida. Para quem corre pelos encontros tanto quanto pela distância, aquela ajuda tornou a chegada ainda mais especial.


Dez medalhas de Berlim, dez histórias: Alessandra reuniu as lembranças de suas participações na prova. Foto cedida por Alessandra Pontes.

O primeiro passo abriu caminho para a família

Antes das maratonas, vieram a natação, o balé, o frevo e as danças populares do Recife. Alessandra gostava de se movimentar, mas correr longas distâncias nunca tinha feito parte de seus planos.

Depois de se mudar para a Alemanha, foi o marido quem a inscreveu em uma corrida de cinco quilômetros. Ela gostou. Vieram os dez quilômetros, a meia maratona e a curiosidade de descobrir se conseguiria completar uma prova inteira.

Em 2014, quando morava em Seul, na Coreia do Sul, decidiu tentar. Sua primeira maratona seria um desafio pessoal, sem anúncio nem expectativa de um grande resultado.

“Vou me inscrever numa prova de 42, só pra ver se eu consigo terminar. Não vou dizer nem a ninguém, porque é um teste pra mim mesma.”

Conseguiu. A segunda maratona foi em Berlim. Desde então, segundo conta ao Mais Berlim, completou 47 provas pelo mundo.

Alessandra Pontes em Seul, cidade onde correu sua primeira maratona em 2014
Seul, 2014: o início de uma trajetória que Alessandra não imaginava percorrer. Foto cedida por Alessandra Pontes.
Medalha da Maratona Internacional de Seul de 16 de março de 2014
A medalha da primeira maratona, disputada em Seul em 16 de março de 2014. Foto cedida por Alessandra Pontes.

A paixão atravessou também a porta de casa. Inspirados por ela, o marido e os filhos passaram a correr. Hoje, o esporte faz parte da rotina da família, e o marido já completou oito Maratonas de Berlim com Alessandra.

Cada um segue no seu ritmo. O encontro fica para o final, quando a chegada vira festa.

“Nunca pensei que a corrida fosse me trazer tanta alegria, tanta coisa boa. E hoje minha família, todo mundo corre, meus filhos, meu marido.”

Para ela, a mudança aparece nos pequenos hábitos: levantar cedo, sair de casa, respirar, cuidar da saúde e encontrar um tempo para si.

“Não é só o esporte também, é uma higiene mental.”

O relógio não conta tudo

Moradora de Frankfurt, Alessandra organiza parte de suas viagens em torno das maratonas. Mas o tempo na chegada nunca foi sua prioridade. O que deseja levar de cada prova é outra coisa.

“Eu tenho a ambição de ser feliz com isso, de fazer amigos, de conhecer gente nova.”

Já correu em destinos como Londres, Roma e Tromsø, na região do Ártico, e participou da festiva Maratona do Médoc, na França. Em Atenas, Copenhague, Genebra e Budapeste, conheceu pessoas que continuam fazendo parte de sua vida. Uma prova puxa outra; um encontro dá origem ao próximo.

Alessandra Pontes e duas amigas mostram suas medalhas da Maratona de Frankfurt
Medalhas e companhia: Alessandra, ao centro, celebra com amigas depois da Maratona de Frankfurt. Foto cedida por Alessandra Pontes.

Berlim se tornou um desses lugares de reencontro. Amigos feitos em outras cidades voltam a se reunir ali. Até a prova que já conhece pode surpreendê-la: mudam o clima, as conversas, a disposição. Muda também quem ela é a cada ano.

Na alegria das ruas, Alessandra reconhece algo das festas que marcaram sua vida em Pernambuco.

“Pra mim, corrida é um momento de meditação, de alegria, é uma festa, é o carnaval que eu não tenho mais do Recife, é o São João que eu não tenho mais em Caruaru.”

O esporte se tornou uma maneira de cuidar do corpo e de cultivar companhia. Entre seus amigos estão corredores mais velhos, alguns com mais de 70 anos, cujas histórias alimentam sua vontade de continuar. A distância percorrida importa, mas é a vida compartilhada em torno dela que Alessandra mais gosta de contar.

Grupo de corredores da Acorja reunido no Marco Zero do Recife
Corredores da Acorja no Marco Zero do Recife: as amizades e as raízes pernambucanas também fazem parte dessa história. Foto cedida por Alessandra Pontes.

50 anos, 50 maratonas

Alegria o ano todo, celebrada com criatividade no Natal. Foto acervo particular.

Aos 49 anos, Alessandra ainda tem duas maratonas previstas para o restante de 2026. Para o ano seguinte, prepara uma celebração que reúne a idade que vai completar e a paixão que encontrou depois de adulta.

Entre a primeira chegada em Seul e a décima em Berlim, a corrida passou a fazer parte das viagens, das amizades e da vida de toda a família. Na última prova na capital alemã, também ganhou o rosto de uma brasileira que ouviu seu pedido de ajuda e seguiu com ela.

Agora, Alessandra quer acrescentar novas histórias à coleção. E já sabe como deseja comemorar meio século de vida:

“Ano que vem quero completar meus 50 anos com 50 maratonas.”

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Augusto Medeiros é jornalista há 25 anos, formado pela Universidade Federal da Paraíba, atuou no Brasil como repórter de rede, na TV Globo, por 15 anos, com reportagens para Jornal Nacional, Fantástico, Jornal Hoje, Bom Dia Brasil, Jornal da Globo e Globo News. Na Alemanha, passou a atuar como correspondente internacional para o Fantástico, em coberturas como a Guerra da Ucrânia e a Crise Energética. É fundador e editor-chefe do portal Mais Berlim.