
Filme de Kleber Mendonça Filho chega à premiação após quase cinco anos de produção e uma intensa trajetória internacional iniciada no Festival de Cannes. Durante cerca de dez meses, o diretor percorreu diversos países apresentando o longa — incluindo duas passagens pela Alemanha, para a pré-estreia em Berlim e durante a Berlinale.
No dia em que o cinema mundial volta os olhos para a cerimônia do Oscar, o portal Mais Berlim publica uma entrevista com o diretor brasileiro Kleber Mendonça Filho, responsável por O Agente Secreto, filme escolhido para representar o Brasil na disputa pela premiação.

A conversa aconteceu durante a passagem do cineasta por Berlim para a pré-estreia do longa na cidade.
Conhecido por obras como Bacurau e Aquarius, o diretor pernambucano falou sobre o longo processo de criação do filme, ambientado em 1977, período em que o Brasil ainda vivia sob a ditadura militar.
Um filme que levou anos para ficar pronto
Segundo Kleber Mendonça Filho, a produção levou anos até chegar às telas.
“O Agente Secreto durou dois anos de roteiro, um ano de preparação, sete meses de montagem e mais alguns meses de pós-produção”, contou o diretor ao Mais Berlim.
“O sentimento é real, mas não é uma história real. É uma história totalmente fictícia.”
Apesar do forte realismo da narrativa, o cineasta explica que a história não é baseada em um caso específico.
Para ele, a força da narrativa está justamente na conexão com a história e a cultura do país.
“Eu acho que os melhores filmes, livros e músicas têm a lógica da cultura que produziu aquilo. E sendo um filme brasileiro, O Agente Secreto olha muito para a história do Brasil e para os brasileiros.”
O roteiro dialoga com o presente

© Port au Prince Pictures
Durante a entrevista, Kleber também comentou que o roteiro ganhou novas camadas ao dialogar com acontecimentos políticos recentes no país.
Segundo ele, o período de polarização e o crescimento de discursos autoritários no Brasil ajudaram a dar forma à narrativa.
“Esse momento político pelo qual nós passamos também fez com que o roteiro do filme tomasse corpo”, disse.
Embora ambientado na década de 1970, o diretor afirma que a história desperta reações contemporâneas em diferentes países.
“Eu tenho viajado com o filme e é muito interessante ver como plateias de outros países fazem associações com os momentos políticos que estão vivendo”, explicou.
A diversidade do Brasil no cinema

© Port au Prince Pictures
Kleber Mendonça Filho também destacou a importância de representar no cinema a diversidade real do Brasil. Para o diretor, mostrar diferentes regiões, sotaques e histórias do país sempre foi uma preocupação em seus filmes.
“Eu acho que meus filmes têm esse desejo de mostrar a variedade de caras que nós temos no Brasil”, disse ao Mais Berlim.
Na entrevista, o cineasta citou inclusive a diversidade do elenco de O Agente Secreto. “Você tem o Wagner Moura da Bahia, a Maria Fernanda Cândido do Paraná, o Buda Lira da Paraíba, a Tânia Maria do Rio Grande do Norte, a Fabiana Pirro do Recife. Isso é Brasil também”, afirmou.
Segundo ele, durante muitos anos o audiovisual brasileiro concentrou grande parte de suas produções no Sudeste, o que acabou criando representações pouco fiéis de outras regiões do país.
“Na televisão, quando aparece um personagem nordestino, muitas vezes é um personagem estilizado, com um sotaque muito estranho, que não é exatamente como as pessoas falam”, disse.
Para o diretor, filmes como O Agente Secreto ajudam a mostrar a pluralidade do país e a riqueza cultural que existe em diferentes partes do Brasil.
Um thriller político sobre o Brasil da ditadura

© Port au Prince Pictures
O Agente Secreto é um thriller político ambientado no Brasil de 1977, em pleno período da ditadura militar.
A história acompanha Marcelo, personagem interpretado por Wagner Moura, um especialista em tecnologia que retorna a Recife, sua cidade natal, tentando escapar de um passado perigoso e se reconectar com o filho.
O que parecia ser um refúgio, no entanto, rapidamente se transforma em um cenário de tensão e perseguições em meio ao clima de repressão política da época. Misturando elementos de suspense, drama político e investigação, o filme constrói um retrato da sociedade brasileira durante os anos mais duros do regime militar.
O longa reúne um elenco de destaque do cinema brasileiro, com nomes como Wagner Moura, Maria Fernanda Cândido, Tânia Maria, Gabriel Leone, Alice Carvalho e Thomás Aquino. O filme também conta com a participação do ator alemão Udo Kier, conhecido por sua longa carreira no cinema internacional.
A produção é uma coprodução internacional entre Brasil, França, Alemanha e Países Baixos, refletindo o caráter global do projeto e o crescente diálogo do cinema brasileiro com o mercado internacional. Parte da pós-produção do filme, incluindo trabalhos de imagem, foi realizada na Alemanha.
O longa teve estreia mundial no Festival de Cannes, onde competiu pela Palma de Ouro. No festival, Kleber Mendonça Filho recebeu o prêmio de Melhor Diretor, enquanto Wagner Moura foi premiado como Melhor Ator.
Depois da trajetória em festivais e exibições internacionais, o filme chegou aos cinemas em 6 de novembro, com lançamento simultâneo no Brasil, Alemanha e Portugal.
Na disputa por quatro estatuetas
O Agente Secreto concorre ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Elenco e Melhor Ator, para Wagner Moura.
A cerimônia do Oscar acontece neste domingo no Dolby Theatre, em Los Angeles, nos Estados Unidos. Na Alemanha, a premiação começa à 1h da madrugada de segunda-feira, no horário local.
A perda do ator alemão Udo Kier
Durante a trajetória internacional do filme, a equipe também enfrentou uma perda importante. O ator alemão Udo Kier, que participa de O Agente Secreto e já havia trabalhado com Kleber Mendonça Filho em Bacurau, faleceu recentemente. Conhecido por sua longa carreira no cinema europeu e em produções internacionais, Kier teve participação marcante nas duas produções do diretor brasileiro.
Ficha técnica – O Agente Secreto
Direção e roteiro: Kleber Mendonça Filho
Elenco: Wagner Moura, Maria Fernanda Cândido, Tânia Maria, Gabriel Leone, Alice Carvalho, Thomás Aquino, Udo Kier
Gênero: thriller político / drama
Ambientação: Brasil, 1977, durante a ditadura militar
Produção: CinemaScópio, MK Productions, One Two Films, Lemming Film
Coprodução: Brasil, França, Alemanha e Países Baixos
Duração: 158 minutos
Idioma: português
Estreia mundial: Festival de Cannes
Lançamento nos cinemas: 6 de novembro (Brasil, Alemanha e Portugal)
Veja também
O Agente Secreto” vence dois Globos de Ouro e avança na corrida pelo Oscar 2026
Augusto Medeiros é jornalista há 25 anos, formado pela Universidade Federal da Paraíba, atuou no Brasil como repórter de rede, na TV Globo, por 15 anos, com reportagens para Jornal Nacional, Fantástico, Jornal Hoje, Bom Dia Brasil, Jornal da Globo e Globo News. Na Alemanha, passou a atuar como correspondente internacional para o Fantástico, em coberturas como a Guerra da Ucrânia e a Crise Energética. É fundador e editor-chefe do portal Mais Berlim.

