
De símbolo da aviação e da Guerra Fria a espaço público e social no coração de Berlim
O Aeroporto de Berlim-Tempelhof foi inaugurado em 1923 e ocupou um papel central na história da cidade ao longo do século XX. Muito além de um terminal aéreo, Tempelhof foi símbolo de modernidade, da divisão da cidade e da resistência de Berlim Ocidental durante a Guerra Fria.
Encerrado em 2008, o aeroporto deixou de operar por uma combinação de decisões políticas, econômicas e urbanísticas. Ainda assim, o local nunca perdeu sua função social. Hoje, abriga o Tempelhofer Feld — um dos maiores parques urbanos do mundo — e também estruturas de acolhimento para refugiados.
A história do Aeroporto de Tempelhof em Berlim

Tempelhof é considerado um dos aeroportos mais antigos do mundo ainda existentes. Desde os anos 1920, o local foi central para a aviação civil europeia. O gigantesco edifício do terminal, construído entre 1936 e 1941, chegou a ser um dos maiores complexos aeroportuários do planeta.
Após a Segunda Guerra Mundial, o aeroporto passou a ser administrado pelas forças americanas e se tornou peça-chave durante a divisão de Berlim. Entre 1948 e 1949, durante o bloqueio soviético, Tempelhof foi um dos principais pontos da Ponte Aérea de Berlim, operação que garantiu o abastecimento da cidade por via aérea e transformou o aeroporto em símbolo internacional de liberdade.
Por que o Aeroporto de Tempelhof foi fechado em 2008

O fechamento de Tempelhof não ocorreu por falta de relevância histórica, mas por razões práticas e estratégicas.
Entre os principais motivos estavam os altos custos de manutenção de uma infraestrutura antiga, o baixo volume de passageiros em comparação com outros aeroportos da cidade e as limitações técnicas das pistas, que não comportavam aeronaves maiores e rotas mais rentáveis.
Além disso, o governo de Berlim decidiu concentrar todo o tráfego aéreo em um único aeroporto moderno, o futuro BER. A localização extremamente central de Tempelhof também gerava conflitos urbanos, como restrições de ruído e de horários.
Em 2008, um referendo tentou impedir o fechamento, mas não teve força legal suficiente para reverter a decisão política. O último voo comercial partiu em 30 de outubro daquele ano.
Do aeroporto ao Tempelhofer Feld

Em 2010, o antigo campo de pouso foi reaberto ao público como o Tempelhofer Feld. Com cerca de 355 hectares, o espaço se tornou um dos maiores parques urbanos do mundo e rapidamente passou a integrar o cotidiano da cidade.
Hoje, o local é usado para caminhadas, corridas, ciclismo, piqueniques, esportes e atividades culturais, mantendo a característica de espaço aberto e livre. Em 2014, um novo referendo garantiu que a área permaneceria sem construções permanentes, reforçando seu papel como bem público.
Tempelhof e a chegada dos refugiados a partir de 2015

A partir de 2015, durante a crise de refugiados na Europa, Tempelhof assumiu mais uma função social. Hangares e estruturas do antigo aeroporto passaram a ser usados como abrigo de emergência para refugiados vindos principalmente da Síria, do Afeganistão e de outras regiões afetadas por guerras e conflitos.
Em 2016, ao circular pelo local, já era possível ver famílias vivendo em estruturas provisórias montadas dentro do antigo complexo aeroportuário. Com o tempo, também foram instaladas moradias temporárias no entorno do campo, ampliando a capacidade de acolhimento.
O uso de Tempelhof como abrigo gerou debates intensos na cidade sobre condições de moradia, integração e o futuro do espaço, mas reforçou um traço constante da história do local: a adaptação às necessidades do seu tempo.
Um espaço que nunca deixou de servir

Hoje, Tempelhof é ao mesmo tempo parque, memorial histórico e espaço social ativo. Aeronaves expostas relembram o passado da aviação, o campo aberto simboliza liberdade urbana e as estruturas de acolhimento mostram que o local continua cumprindo uma função essencial.
Mais do que um antigo aeroporto, Tempelhof é um retrato das transformações de Berlim — uma cidade que reaproveita seu passado para responder aos desafios do presente.
Texto original Mais Berlim.
Fonte de pesquisa, no local e site oficial do Tempelhofer Feld
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Augusto Medeiros é jornalista brasileiro radicado em Berlim, editor-chefe e fundador do Portal Mais Berlim. Atua na cobertura de cultura, sociedade, diversidade, empreendedorismo e cotidiano na Alemanha, com foco na experiência de brasileiros e comunidades internacionais no país. Produz reportagens autorais, entrevistas e conteúdos multilíngues que conectam Brasil e Alemanha com informação, contexto e sensibilidade.

