Após um encontro inesperado na floresta de Wuhlheide, reportagem do Mais Berlim investiga crescimento populacional, política de abate e os desafios da convivência urbana com javalis
A madrugada do último dia 28 de fevereiro terminou de forma inesperada. Eu voltava de uma festa e precisei caminhar por cerca de 30 minutos entre a estação de trem de Karlshorst e minha casa. Seguia pela calçada da avenida que divide duas partes da floresta de Wuhlheide quando, de repente, dei de frente com um javali que parecia prestes a atravessar a via.
O animal parou e ficou me encarando. O susto foi imediato. Por alguns segundos, temi que ele pudesse avançar. Não corri. Afastei-me lentamente e peguei o celular para registrar o momento. Instantes depois, ele atravessou correndo a avenida. Em seguida, outro javali surgiu e também cruzou a pista. Além do medo inicial, veio a preocupação com o risco de atropelamento. Só depois de vê-los desaparecerem entre as árvores segui caminho, aliviado.
O episódio reacendeu uma pergunta recorrente entre moradores da capital alemã: afinal, quantos javalis existem em Berlim e por que eles estão tão presentes na cidade?
Quantos javalis existem na Alemanha e em Berlim?

Na Alemanha, o principal indicador oficial é o número anual de animais abatidos, divulgado pelo Deutscher Jagdverband (DJV). Em temporadas recentes, o país registrou mais de 800 mil javalis abatidos em um único ano, um recorde histórico.
Pesquisadores da Universität Bonn explicam que o número de abates não corresponde ao total da população, mas serve como indicador de tendência. Estimativas científicas apontam que a Alemanha pode ter entre 1,5 e 2 milhões de javalis, dependendo das condições climáticas e ambientais.
Em Berlim, estudos citados pelo Leibniz-Institut für Zoo- und Wildtierforschung (IZW) estimam que haja entre 3.000 e 5.000 javalis vivendo dentro dos limites urbanos.
O IZW conduz um projeto comparativo entre Berlim e Barcelona, analisando geneticamente cerca de 400 animais em cada cidade. Os resultados indicam que existem subpopulações urbanas estáveis, geneticamente estruturadas, o que demonstra adaptação real ao ambiente urbano — não se trata apenas de animais que entram ocasionalmente na cidade.
Por que a população cresce?

Segundo pesquisas da Universität Bonn:
- fêmeas podem se reproduzir já no primeiro ano de vida
- as taxas de sobrevivência aumentaram com invernos mais amenos
- a expansão agrícola amplia a oferta de alimento
- a dieta onívora permite ocupação de diferentes habitats
- a espécie possui enorme plasticidade ecológica
O javali (Sus scrofa) é um porco selvagem nativo da Europa. Não é invasor. A espécie sempre existiu na Alemanha — o que mudou foi sua capacidade de prosperar em paisagens agrícolas e ambientes urbanos.
Estudos genéticos mostram ainda taxas de paternidade múltipla entre 23% e 30% em algumas populações, fator que também contribui para o crescimento acelerado.
Por que o abate é adotado como política pública?

Apesar da intensificação da caça, os pesquisadores indicam que as altas taxas reprodutivas compensam parte significativa da pressão exercida pelo abate.
Ainda assim, o controle é considerado necessário por autoridades devido a:
- danos extensivos à agricultura
- aumento de colisões com veículos
- risco de disseminação de doenças zoonóticas
Entre as doenças associadas ao javali, a Peste Suína Africana representa ameaça significativa à suinocultura europeia.
Pesquisadores alertam que dados de abate tendem a subestimar o tamanho real das populações, mas continuam sendo a principal ferramenta de monitoramento disponível.
Evolução do abate de javalis na Alemanha (Jagdstrecke)
- Anos 1980: entre 150.000 e 250.000 javalis abatidos por temporada
- 2000/2001: cerca de 300.000 animais
- 2010/2011: aproximadamente 550.000
- 2016/2017: 589.417
- 2017/2018: cerca de 820.000 (recorde histórico até então)
- 2019/2020: cerca de 690.000
- 2020/2021: 687.581
- 2022/2023: aproximadamente 550.000
- 2023/2024: cerca de 550.600 (dados preliminares consolidados pelo BMEL)
Fonte: Estatísticas oficiais de caça do Deutscher Jagdverband (DJV) e Bundesministerium für Ernährung und Landwirtschaft (BMEL).
Evolução do abate de javalis em Berlim (Land Berlin)
- 2000/2001: cerca de 1.200 javalis abatidos
- 2010/2011: aproximadamente 2.500
- 2015/2016: cerca de 3.400
- 2017/2018: aproximadamente 3.700
- 2019/2020: cerca de 2.800
- 2020/2021: aproximadamente 1.900 (queda associada a restrições da pandemia)
- 2022/2023: cerca de 2.200
- 2023/2024: aproximadamente 2.000 (dados mais recentes consolidados)
Fonte: Estatísticas oficiais de caça do estado de Berlim (Jagdstatistik Land Berlin).
Ataques registrados em Berlim
Embora incidentes sejam raros, há casos documentados.

Charlottenburg, 2012
Em outubro de 2012, um javali de aproximadamente 120 quilos atacou quatro pessoas no bairro de Charlottenburg, incluindo dois idosos, uma jovem e um policial que tentou intervir. O animal foi abatido pelas autoridades. O caso teve repercussão internacional e foi noticiado pelo The Guardian.
Friedrichshagen, 2025
Em abril de 2025, uma mulher ficou ferida após um incidente envolvendo javalis em um parque em Friedrichshagen. Equipes de emergência, incluindo helicóptero de resgate, foram acionadas. O caso foi reportado pelo The Berliner.
Especialistas reforçam que ataques geralmente são defensivos, sobretudo quando há filhotes ou quando o animal se sente encurralado.
O episódio que viralizou: o javali e o laptop
Em 2020, um episódio inusitado ocorrido no Teufelssee ganhou repercussão mundial.
Um javali saiu da mata e levou uma sacola que continha um laptop. O dono da bolsa, que tomava sol em uma área de nudismo, saiu correndo atrás do animal. A cena foi fotografada por uma frequentadora do lago, Adele Landauer, tornando-se símbolo da convivência peculiar entre humanos e fauna urbana em Berlim.
Quando Berlim caçou uma “leoa” que virou javali

Em julho de 2023, moradores do sul de Berlim e da região de Brandemburgo viveram dias de tensão após a divulgação de um vídeo que supostamente mostrava uma leoa solta na área de Kleinmachnow.
A polícia mobilizou helicópteros, drones, veterinários e caçadores. Moradores foram orientados a permanecer em casa, e a busca ganhou repercussão internacional.
Dois dias depois, após análise técnica das imagens e consultas a especialistas em fauna, as autoridades concluíram que o animal filmado provavelmente era um javali — espécie comum na região.
O caso virou manchete em veículos como a BBC e o Der Spiegel, e entrou para a lista de episódios curiosos envolvendo javalis na capital alemã.
A ocorrência reforçou como a silhueta e o porte de um javali em baixa luminosidade podem gerar interpretações equivocadas — especialmente em uma cidade onde a fauna selvagem já faz parte do cotidiano urbano.
Convivência exige informação
O encontro na Wuhlheide terminou sem incidentes. A recomendação das autoridades permanece clara: manter distância, não correr, não alimentar e manter cães na guia.
Berlim é uma das capitais mais verdes da Europa, com florestas interligadas como a Wuhlheide e o Grunewald, criando corredores naturais que favorecem a circulação da fauna.
O desafio das autoridades é equilibrar segurança, conservação ambiental e controle populacional em uma cidade onde a natureza insiste em permanecer presente.
Texto original produzido por Mais Berlim
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Augusto Medeiros é jornalista brasileiro radicado em Berlim, editor-chefe e fundador do Portal Mais Berlim. Atua na cobertura de cultura, sociedade, diversidade, empreendedorismo e cotidiano na Alemanha, com foco na experiência de brasileiros e comunidades internacionais no país. Produz reportagens autorais, entrevistas e conteúdos multilíngues que conectam Brasil e Alemanha com informação, contexto e sensibilidade.

