Arquivo de Política - https://maisberlim.com/category/politica/ Notícias e serviços para brasileiros em Berlim e na Alemanha Thu, 22 Oct 2026 07:25:58 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1.3 https://maisberlim.com/wp-content/uploads/2026/06/cropped-logo-3-32x32.png Arquivo de Política - https://maisberlim.com/category/politica/ 32 32 Idosos passam fome e vivem abandonados na Alemanha, alerta assistente social teuto-brasileira https://maisberlim.com/idosos-pobreza-assistencia-social-alemanha/ Thu, 22 Oct 2026 06:50:51 +0000 https://maisberlim.com/?p=1775 Em entrevista ao Mais Berlim, a assistente social Lalá apresenta um panorama da vulnerabilidade social na Alemanha, com relatos sobre idosos que passam fome, aposentadorias insuficientes, trabalhadores que precisam complementar a renda e imigrantes europeus em situação de rua.

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Imagem: Jorge Lopes

Em entrevista ao jornalista Augusto Medeiros, no Mais Berlim, Lalá relatou casos de idosos em situação de vulnerabilidade e destacou que muitos desconhecem seus direitos. Ela também contestou a ideia de que beneficiários da assistência social não trabalham: segundo sua experiência e informações recebidas de uma dirigente do Jobcenter, grande parte recebe auxílio para complementar salários baixos.

A Alemanha é uma das maiores potências econômicas do mundo e possui um amplo sistema de proteção social. Mas, por trás dessa estrutura, existem histórias de pobreza, abandono, dificuldades financeiras e desconhecimento de direitos que nem sempre aparecem no debate público.

Lalá – @assistentesocialnaalemanha (perfil no Instagram) – Imagem acervo privado

Na quarta-feira, 21 de outubro, a assistente social conhecida nas redes sociais como Lalá, do perfil Assistente Social na Alemanha, participou de uma entrevista ao vivo concedida ao jornalista Augusto Medeiros, no Instagram do Mais Berlim. Durante a conversa, ela apresentou um panorama da assistência social no país a partir de sua experiência profissional, abordando benefícios para famílias, trabalhadores, estudantes, pessoas com deficiência, refugiados e idosos.

Um dos momentos mais marcantes da entrevista foi quando Lalá descreveu a realidade de pessoas idosas que, mesmo vivendo em um país com mecanismos de proteção social, enfrentam situações extremas de vulnerabilidade.

“Tem muito idoso aqui abandonado, sem família, sem ninguém. E se não é uma alma boa de um vizinho … ligando pra algum lugar, não acontece nada.”

A assistente social também chamou a atenção para o desconhecimento de benefícios destinados a complementar aposentadorias insuficientes.

Idosos com fome, abandono e aposentadorias de 120 euros

Imagem ilustrativa

Com nove anos de atuação profissional na Alemanha, Lalá contou que já acompanhou casos de idosos que não conseguiam garantir necessidades básicas, mesmo quando existiam mecanismos de assistência disponíveis.

Em uma das situações, ela foi procurada por um vizinho preocupado com um idoso que vivia sozinho.

“Já teve vizinho me ligando e eu fui até a casa da pessoa, visita domiciliar, porque era um idoso, ele estava simplesmente sem comida. Esse nível. Tem gente que acha que não, mas tem caso assim de idoso.”

Nesse episódio, segundo seu relato, o problema não era exatamente a falta de recursos financeiros. O homem tinha dinheiro na conta bancária, mas não conseguia sair de casa nem administrar sua própria situação.

“Ele estava comendo, assim, sopa que o vizinho dava pra ele de vez em quando, mesmo tendo uma conta com dinheiro.”

Lalá explicou que precisou buscar apoio judicial para garantir a esse idoso um gesetzlicher Betreuer, uma pessoa legalmente designada para auxiliá-lo na administração de questões pessoais e burocráticas. Também mencionou a possibilidade de atendimento domiciliar por meio do seguro de saúde.

Outro caso relatado envolveu um idoso que estava sendo explorado financeiramente por uma pessoa mais jovem, supostamente responsável por ajudá-lo.

“Ele mal comia e uma pessoa maldosa, entendeu? É, um idoso dessa finura, magrinho, não comia quase nada.”

Segundo Lalá, a pessoa apresentava comprovantes de compras em supermercados que ultrapassavam 200 euros por semana, embora os produtos não fossem destinados ao idoso.

Para ela, essas experiências revelam uma realidade pouco discutida.

“Tem muito idoso que não sabe, tem muito idoso que tá em situação de vulnerabilidade.”

O benefício que muitos aposentados desconhecem

Imagem ilustrativa

Entre os direitos mencionados na entrevista está o Grundsicherung im Alter, destinado a pessoas idosas com renda insuficiente.

“Existe algo chamado Grundsicherung im Alter, que é como se fosse o benefício para a pessoa idosa que recebe pouca aposentadoria. Tem gente que recebe aposentadoria de trezentos euros e não sabe que pode pedir esse auxílio pra viver um pouquinho melhor.”

Lalá destacou especialmente a situação de mulheres que passaram parte da vida dedicadas aos cuidados dos filhos e, por isso, tiveram uma participação menor no mercado de trabalho.

“Tem caso de muitas mulheres, por exemplo, que cuidaram dos filhos, não podiam trabalhar, né? Principalmente antigamente, que era pior, a mulher não tinha essa inserção no mercado de trabalho como temos hoje em dia.”

Ela contou que já atendeu pessoas com aposentadorias extremamente baixas.

“Eu já tive gente que a aposentadoria é cento e vinte euros, sabe?”

De acordo com a assistente social, pessoas nessas condições podem buscar o Sozialamt de sua cidade para verificar o acesso ao complemento de renda.

Entretanto, ela ressalta que o próprio benefício não elimina necessariamente as dificuldades financeiras dos idosos.

“Esse benefício pros idosos … também, como eu falei, não é suficiente pros idosos viverem, por isso eles ficam catando garrafinha na rua. É uma vergonha, né, pra Alemanha.”

Durante a entrevista, Augusto Medeiros demonstrou preocupação com os relatos e sugeriu que o Mais Berlim desenvolva um material informativo para ajudar idosos a conhecer seus direitos e saber onde buscar atendimento. Lalá se dispôs a colaborar com a iniciativa.

A assistente social também ressaltou a importância da solidariedade entre vizinhos.

“Porque pode ter um vizinho idoso passando fome no teu lado e você não sabe.”

A maioria dos beneficiários não seria de pessoas sem trabalho, afirma Lalá

Imagem ilustrativa

Outro ponto central da entrevista foi a crítica à imagem de que as pessoas que recebem assistência social na Alemanha vivem sem trabalhar por escolha própria.

Lalá afirmou que essa percepção não corresponde à realidade que encontra em seus atendimentos. Ela também relatou uma reunião com a chefe de um Jobcenter de grande porte, na cidade onde trabalha, na qual foram apresentados dados sobre o perfil dos beneficiários.

“Uma das mentiras é dizer que a maioria das pessoas que recebem o benefício do Jobcenter são pessoas encostadas, né? Tem muita gente que acha isso.”

Segundo a profissional, uma parcela importante das pessoas atendidas recebe o chamado Aufstockung, complemento financeiro destinado a quem trabalha, mas não consegue obter renda suficiente para suas necessidades.

“Aufstockung é quando você trabalha, mas ganha pouco. Então aí já desmente muita coisa, né? Não só na minha cidade, mas em várias cidades, que a maioria das pessoas são trabalhadoras, pobres.”

Lalá citou especialmente famílias estrangeiras que trabalham na área de cuidados, conhecida na Alemanha como Pflege.

“Eu, no meu atendimento, eu vejo muitas famílias que são pessoas estrangeiras que trabalham na área da Pflege, ganham pouco, mesmo trabalhando em Vollzeit.”

Vollzeit significa trabalho em tempo integral.

Segundo ela, algumas dessas famílias precisam recorrer ao Jobcenter porque, mesmo trabalhando, não conseguem sustentar a casa e os filhos apenas com os salários.

A assistente social disse que a dirigente do Jobcenter também havia mencionado situação semelhante em outras cidades alemãs.

“A minoria são pessoas que estão em casa sem, sem estar trabalhando.”

A entrevista não apresentou números absolutos ou percentuais dessas estatísticas. As afirmações foram feitas por Lalá com base em sua experiência profissional e nas informações que disse ter recebido da dirigente do Jobcenter.

Depressão, desemprego e o julgamento de quem recebe assistência

Casos de depressão entre beneficiários – imagem ilustrativa

Lalá também questionou o tratamento dado às pessoas que não estão inseridas no mercado de trabalho.

Segundo ela, muitos beneficiários enfrentam problemas de saúde mental, situações familiares complexas ou dificuldades para conseguir um novo emprego.

“Eu acho muito absurdo as pessoas quererem julgar sem saber a dor do outro, né?”

A profissional mencionou casos de depressão e de trabalhadores com mais de 50 anos que perderam o emprego e não conseguiram retornar ao mercado.

“O que eu vejo na prática são pessoas doentes que estão em casa, realmente com depressão e histórias muito, muito tristes.”

Na avaliação de Lalá, a desinformação sobre os benefícios também contribui para discursos de hostilidade contra estrangeiros.

Ela criticou particularmente a AfD, partido de extrema direita alemão, por utilizar a imigração como tema de mobilização política.

“A extrema-direita, né, tá ganhando força, porque as pessoas, assim, elas veem muitos imigrantes chegando e acham que é culpa deles, né, que estamos nessa situação.”

Para a assistente social, a realidade de quem procura ajuda precisa ser conhecida antes que se façam julgamentos sobre o recebimento de benefícios.

Um país capitalista com um Estado social forte

Alemanha- capitalismo e programas sociais – imagem Cláudio Mota

Questionada por Augusto Medeiros sobre como uma potência econômica capitalista pode manter tantos programas sociais, Lalá destacou o papel do Estado e da arrecadação de impostos.

Ela mostrou durante a transmissão um livro de referência com legislações utilizadas por profissionais da assistência social, explicando que os direitos estão distribuídos por diferentes áreas.

“Um país capitalista, mas com um Estado forte social para que as pessoas não fiquem desamparadas. E a gente paga muito imposto aqui na Alemanha, exatamente pra isso.”

Na avaliação da assistente social, os benefícios não devem ser compreendidos apenas como ajuda financeira para pessoas pobres, mas como mecanismos de proteção e de reconstrução de trajetórias.

“Os benefícios tão aí não pra pessoa pobre coitada, e sim pra reerguer uma pessoa que tá numa situação de vulnerabilidade.”

Ela também lembrou que ninguém está permanentemente livre de precisar da assistência do Estado.

“Eu acho assim que a gente tem sempre que lembrar que nós podemos ser os próximos, então também ter a empatia. Eu acho que falta muito a solidariedade na sociedade.”

Famílias e crianças: Kindergeld, Elterngeld e proteção à maternidade

Benefícios para a família – imagem ilustrativa

Ao longo da entrevista, Lalá apresentou alguns dos benefícios sociais voltados às famílias.

O Kindergeld foi um dos exemplos. Segundo ela, o benefício é concedido por criança, independentemente de a família ter uma renda alta ou baixa, desde que atendidas as condições aplicáveis.

Na entrevista, Lalá mencionou o valor de 259 euros mensais por criança em 2026 e explicou que o pagamento pode continuar após a maioridade em determinadas situações, como durante os estudos ou em casos relacionados à deficiência.

A profissional também falou sobre o Elterngeld, benefício destinado a pais e mães após o nascimento dos filhos, que pode ser compartilhado entre os responsáveis.

Ela usou sua própria experiência familiar como exemplo.

“Quando a minha segunda filha nasceu, nós dividimos. Meu marido ficou realmente, eu fiquei só seis meses fora … do trabalho e depois ele ficou um ano.”

Lalá explicou que o valor recebido está relacionado à renda anterior e à modalidade escolhida, mencionando percentuais aproximados de 65% a 67% da renda líquida em uma das modalidades.

Também abordou o Mutterschutz, período de proteção à maternidade, o Mutterschaftsgeld e a possibilidade de afastamento do trabalho durante a gravidez em situações que envolvam riscos à saúde.

A assistente social destacou que esses mecanismos também fazem parte da proteção social, inclusive quando utilizados por famílias que não se consideram economicamente vulneráveis.

“Tem pessoas que nem sabem que estão usufruindo de benefícios, né, quando você recebe o Elterngeld.”

Educação: apoio financeiro para estudar

Benefícios para estudantes – imagem ilustrativa

Outro benefício apresentado foi o BAföG, destinado ao apoio financeiro de estudantes que atendam aos requisitos.

Lalá diferenciou o Schüler-BAföG, voltado a determinadas situações de educação escolar, do benefício concedido a estudantes universitários.

Segundo ela, o primeiro não precisa ser devolvido, enquanto o segundo pode exigir restituição parcial após a conclusão dos estudos.

A assistente social contou que recebeu BAföG durante seu mestrado na Alemanha.

“Eu mesma recebi no meu mestrado, sou filha de trabalhador, né? No meu mestrado eu recebi, eu tinha uma filha pequena e não era casada.”

Ela mencionou a possibilidade de prolongamento do período de apoio em situações como a maternidade e explicou, com base em sua experiência, que o valor a ser devolvido pode ser limitado e parcelado.

A conversa também abordou as universidades públicas alemãs e as contribuições semestrais pagas pelos estudantes, que, segundo Lalá, incluem serviços como transporte público e atividades de representação estudantil.

Para ela, o investimento em educação está diretamente relacionado ao desenvolvimento da sociedade.

“É pra sociedade funcionar.”

Pessoas com deficiência e a continuidade do acompanhamento

Benefícios para pessoas com deficiência – imagem ilustrativa

Lalá também explicou que a legislação social alemã prevê diferentes formas de apoio às pessoas com deficiência, incluindo crianças, adolescentes e adultos.

Ela mencionou o Livro VIII da legislação social, relacionado à proteção de crianças e jovens, e o Livro IX, que trata de direitos e mecanismos de apoio às pessoas com deficiência.

Entre os instrumentos citados está a Eingliederungshilfe, destinada a favorecer a participação social de pessoas com deficiência.

A profissional relatou que, em sua trajetória, teve contato com pessoas que precisavam de acompanhamento prolongado.

“Eu sei que o amparo é, assim, eterno se a pessoa precisar, o que é muito legal, né?”

Ela também ressaltou a existência de oportunidades de trabalho e de participação social para pessoas com deficiência.

“Pra pessoa não ficar, é, pra ela estar inserida na sociedade de verdade, né? Mesmo com toda a dificuldade.”

Moradia e situação de rua: nem todos conseguem acessar os benefícios

Situação de rua – Imagem Timur Weber

Ao tratar da população em situação de rua, Lalá explicou que a existência de benefícios sociais não significa que todas as pessoas tenham acesso automático a eles.

Ela chamou a atenção para cidadãos de outros países europeus que chegam à Alemanha em busca de emprego, conseguem contratos temporários e depois enfrentam dificuldades para manter a moradia.

“A pessoa que é da União Europeia, ela não vai ter direito automático aos benefícios sociais, igual o alemão. Então as pessoas caem em situação de rua.”

A assistente social também explicou a distinção que utiliza em sua atuação entre wohnungslos e obdachlos.

O primeiro termo abrange situações em que uma pessoa não dispõe de moradia própria ou estável, mesmo quando permanece temporariamente na casa de amigos ou em outras condições precárias. O segundo se refere à situação de quem efetivamente não possui abrigo.

“Se você mora … na casa de um amigo, de favor, você é wohnungslos.”

Lalá explicou que trabalhou na Wohnungslosenhilfe, área de assistência a pessoas sem moradia estável ou em situação de rua, e mencionou os artigos 67 e 68 do Livro XII da legislação social alemã.

Ela também relatou dificuldades no atendimento a pessoas com transtornos psiquiátricos graves, criticando a demora de intervenções em determinadas situações que acompanhou profissionalmente.

Refugiados e a importância do acolhimento

Refugiados – Imagem Ahmed Akacha

Com experiência em projetos voltados a refugiados e à população queer, Lalá compartilhou histórias de pessoas que chegaram à Alemanha após trajetórias marcadas pela violência.

Uma delas foi a de um adolescente afegão que, segundo seu relato, precisou atravessar diferentes países antes de chegar ao território alemão.

Ela contou que a família do jovem o vestia como menina para evitar que fosse levado pelo Talibã e transformado em soldado.

Após chegar à Alemanha, ele recebeu acompanhamento social e começou a estudar.

“Depois com seis meses o menino tava falando alemão maravilhosamente, tava na escola super bem, e o Estado social forte ele vem pra isso, né? Pra amparar as pessoas que estão precisando.”

A assistente social também lembrou a história de uma amiga de infância, refugiada da Somália, que conseguiu se formar em Direito após sua família receber apoio na Alemanha.

Para Lalá, esses exemplos demonstram o potencial dos benefícios sociais para transformar trajetórias individuais.

A trajetória de Lalá entre o Brasil e a Alemanha

Teuto-brasileira, Lalá contou que foi criada por uma mãe historiadora brasileira e um pai antropólogo alemão. Estudou Serviço Social na PUC-Rio, onde foi bolsista, e realizou estágios em instituições do Rio de Janeiro.

Entre elas, destacou a São Martinho, que desenvolve projetos voltados a crianças e jovens em situação de vulnerabilidade, além de experiências no Tribunal de Justiça e em uma instituição de atendimento a pessoas com deficiência.

Ela relatou que deixou o Brasil após sofrer uma tentativa de sequestro no Rio de Janeiro, em 2016.

“Foi por essa tentativa de sequestro que eu sofri, que foi uma coisa horrorosa, né, que eu saí machucada e tudo mais, que eu saí.”

Em 2017, retornou à Alemanha e iniciou sua trajetória profissional no país, inicialmente em projetos relacionados ao atendimento de refugiados.

Posteriormente, realizou uma formação complementar em Berlim para obter o reconhecimento profissional de sua graduação em Serviço Social.

Trabalhou em projetos voltados a famílias queer, famílias afro-alemãs e pessoas em situação de vulnerabilidade habitacional. Também concluiu um mestrado em Estudos Interdisciplinares da América Latina na Freie Universität Berlin, com pesquisa sobre a criminalização da pobreza no Brasil.

Atualmente, trabalha com aconselhamento social geral, atendendo pessoas com diferentes necessidades.

“Aí eu pego da pessoa com dezoito anos que não sabe o que fazer da vida, né? Casal que se separou, até pessoas idosas em situação de vulnerabilidade. Então vem todo mundo pra minha mesa.”

Informação, solidariedade e acesso aos direitos

Ao longo da conversa, Augusto Medeiros destacou que conhecer os direitos sociais é fundamental para que as pessoas consigam acessar os benefícios existentes.

Os relatos sobre idosos em situação de abandono motivaram a proposta de produzir um material informativo voltado especialmente a essa população.

Lalá ressaltou que o trabalho da assistência social também depende do comprometimento dos profissionais.

“Eu fiz da minha profissão a minha missão de vida.”

E explicou como costuma agir quando identifica uma pessoa com direito a algum benefício.

“Quando eu vejo que a pessoa tem direito a esse benefício, não vou ficar de palhaçada porque eu vou correr atrás pra pessoa.”

Para ela, o debate sobre assistência social precisa superar a ideia de que receber apoio do Estado é sinal de fracasso ou falta de esforço individual.

As histórias compartilhadas na entrevista mostram, a partir de sua experiência, situações em que a vulnerabilidade está relacionada a salários insuficientes, problemas de saúde, maternidade, deficiência, deslocamento forçado, isolamento e envelhecimento.

Mais do que apresentar uma relação de benefícios, a conversa trouxe uma reflexão sobre o papel da proteção social em uma sociedade economicamente desenvolvida e sobre as pessoas que, mesmo tendo direitos, continuam enfrentando dificuldades para exercê-los.

“Eu acho que a gente tem que ser um pouco menos egoísta e olhar sempre o nosso umbigo.”

A entrevista foi transmitida ao vivo pelo perfil do Mais Berlim no Instagram, na quarta-feira, 21 de outubro de 2026, com apresentação do jornalista Augusto Medeiros. A conversa abordou ainda outras questões relacionadas à assistência social na Alemanha e abriu a possibilidade de novos encontros para aprofundar temas específicos.

Nota editorial: A matéria foi elaborada exclusivamente a partir da transcrição da entrevista. As declarações, os valores dos benefícios, as referências legais e as avaliações sobre o sistema alemão foram atribuídos à entrevistada, sem verificação externa. As citações foram selecionadas da fala de Lalá, com pequenas supressões de hesitações e repetições quando necessário para a leitura.

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Um cemitério com 7 mil soldados soviéticos em Berlim: curiosidades e a história do memorial que celebra a derrota da Alemanha nazista https://maisberlim.com/memorial-sovietico-berlim-sete-mil-soldados-cemiterio/ Fri, 21 Aug 2026 20:24:02 +0000 https://maisberlim.com/?p=1674 Um cemitério com 7 mil soldados soviéticos em Berlim. Conheça o memorial que conta parte da história da Segunda Guerra Mundial, possui uma estátua de 13 metros e celebra a derrota da Alemanha nazista, de Hitler.

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Homenagem aos soldados soviéticos em Berlim

No meio do Treptower Park, em Berlim, existe um enorme memorial soviético que também é um cemitério de guerra. Mais de 7 mil integrantes do Exército Vermelho estão sepultados no complexo, construído depois da Segunda Guerra Mundial para homenagear os mortos e celebrar a vitória soviética sobre a Alemanha nazista.

A visita ao memorial abre caminho para entender não apenas o monumento, mas acontecimentos que transformaram Berlim, a Alemanha e o mundo.

Neste artigo, entenda:

  • Como mais de 7 mil soldados soviéticos foram parar no Treptower Park.
  • Onde estão os soldados enterrados dentro do memorial.
  • Por que existem cinco grandes campos de gramado.
  • Por que existem 16 sarcófagos monumentais.
  • O que dizem as frases de Josef Stalin gravadas no memorial.
  • Quem foi Stalin.
  • Quem é o soldado da gigantesca estátua e o que ela representa.
  • Qual é o tamanho do memorial em comparação com o Treptower Park.
  • O que foi a Alemanha nazista e quanto tempo ela existiu.
  • Por que aconteceu a Segunda Guerra Mundial e quanto tempo ela durou.
  • Quem lutou contra quem.
  • O que foi a Batalha de Berlim.
  • Quantos soldados soviéticos morreram na tomada de Berlim.
  • Quantos militares soviéticos e alemães morreram durante a guerra.
  • Quantas pessoas morreram na Segunda Guerra Mundial e quantas eram civis.
  • Se o Brasil participou da guerra e como.
  • Como a Alemanha foi dividida depois de 1945.
  • Como surgiu a Alemanha Oriental e por quanto tempo ela existiu.
  • Qual era a relação da Alemanha Oriental com a União Soviética.
  • Por que os estudantes da Alemanha Oriental aprendiam russo.
  • Por que Berlim Ocidental existia no meio da Alemanha Oriental.
  • Como essa divisão acabaria levando ao Muro de Berlim.
  • Por que a Alemanha preserva até hoje um monumento soviético que celebra a derrota da Alemanha nazista.

Como os 7 mil soldados foram parar no Treptower Park se o memorial só foi inaugurado em 1949?

Eles não ficaram quatro anos esperando para ser enterrados.

Depois dos combates de 1945, soldados soviéticos mortos foram sepultados inicialmente em diferentes pontos de Berlim. Durante a criação do grande memorial e cemitério militar de Treptow, restos mortais foram exumados e transferidos de outros locais da cidade.

Em 1947, antes mesmo da inauguração do monumento, milhares já haviam sido sepultados ali.

Hoje, fontes oficiais de Berlim falam em mais de 7 mil sepultamentos no complexo. Uma publicação oficial do distrito de Treptow-Köpenick de 2026 menciona aproximadamente 7.200 sepulturas.

Onde exatamente estão enterrados?

Os mortos estão distribuídos em áreas funerárias dentro do próprio complexo.

Os cinco enormes retângulos de gramado no eixo central são sepulturas coletivas simbólicas. Portanto, não significa que todos os milhares de corpos estejam simplesmente debaixo desses cinco gramados.

Documentos oficiais de Berlim registram sepultamentos coletivos e individuais distribuídos pela área.

O espaço foi projetado para funcionar simultaneamente como cemitério real e representação monumental de um cemitério.

Por que existem cinco grandes campos de gramado?

Os cinco campos retangulares fazem parte da composição arquitetônica do memorial e foram concebidos como sepulturas coletivas simbólicas.

Eles ocupam o grande eixo central e conduzem visualmente o visitante até a estátua monumental do soldado soviético.

Toda a simetria do complexo foi planejada para construir uma narrativa de sofrimento, combate, morte, vitória e memória.

Por que existem 16 sarcófagos?

São 16 grandes sarcófagos monumentais, oito de cada lado, representando as 16 repúblicas que formavam a União Soviética quando o memorial foi concebido.

Eles não são simplesmente 16 grandes túmulos.

Seus relevos apresentam episódios da guerra segundo a narrativa soviética: a invasão alemã, o sofrimento da população, a resistência, o esforço de guerra, os combates e o luto pelos mortos.

O que dizem as frases de Stalin nos sarcófagos?

Texto atribuído à fala de Stalin:
“O Exército Vermelho possui suas próprias tradições gloriosas. Elas inspiram nossos combatentes e os elevam a feitos heroicos. Elas lhes dão a compreensão de que a guerra patriótica gera entre nós milhares de heróis e heroínas dispostos a enfrentar a morte pela liberdade de sua pátria.”
— Josef Stalin

Os sarcófagos possuem inscrições atribuídas a Josef Stalin, reproduzidas em russo e alemão.

Em uma das inscrições fotografadas pelo Mais Berlim, Stalin exalta a tradição militar do Exército Vermelho e afirma que ela inspira grandes feitos, mencionando milhares de homens e mulheres dispostos a enfrentar a morte pela liberdade de sua pátria.

As frases fazem parte da concepção original do memorial e precisam ser entendidas dentro da linguagem política e propagandística da União Soviética sob Stalin.


“Os invasores de Hitler pretendem transformar em escravos os povos da Ucrânia, Belarus, dos países bálticos, da Moldávia, Crimeia e Cáucaso. Nosso objetivo é claro e nobre: queremos libertar nossa terra soviética.” — Josef Stalin

Quem foi Stalin?

Josef Stalin foi o líder que consolidou o controle da União Soviética no final dos anos 1920 e permaneceu no poder até sua morte, em 1953.

Foi o líder soviético durante a maior parte da Segunda Guerra Mundial e comandava o país quando o Exército Vermelho chegou a Berlim.

Ao mesmo tempo, governou como ditador. Seu regime foi marcado por repressão política, execuções, deportações, expurgos e pelo sistema de campos de trabalhos forçados conhecido como Gulag. Milhões de pessoas morreram durante seu governo.

O memorial foi inaugurado em 1949, quando Stalin ainda estava no poder, o que ajuda a explicar a presença de suas frases.

Quem é o soldado da enorme estátua?

A escultura é conhecida como “O Guerreiro Libertador” e foi criada pelo escultor soviético Yevgeny Vuchetich.

Ela não representa oficialmente uma pessoa específica, mas uma figura simbólica do soldado do Exército Vermelho.

O homem segura uma criança alemã em um braço e uma enorme espada no outro. Sob seus pés aparece uma suástica destruída.

A composição representa a vitória soviética sobre a Alemanha nazista e, dentro da narrativa original do monumento, a libertação do nazismo.

A figura também é associada à história do soldado soviético Nikolai Masalov, que teria resgatado uma criança alemã durante a Batalha de Berlim. Isso não significa, porém, que a estátua seja um retrato dele.

A figura de bronze possui aproximadamente 11,6 metros de altura e pesa cerca de 70 toneladas. Dentro de seu pedestal existe ainda uma sala memorial decorada com mosaicos.

Qual é o tamanho do memorial?

O Memorial Soviético ocupa aproximadamente 93 mil metros quadrados, ou 9,3 hectares.

O Treptower Park possui cerca de 88 hectares.

Isso significa que o complexo soviético ocupa aproximadamente 10% de toda a área do parque.

E existe uma diferença importante de idade: o Treptower Park surgiu no século XIX e já existia décadas antes das guerras mundiais. O memorial soviético só foi construído depois da Segunda Guerra.

O que foi a Alemanha nazista?

Aos pés da estátua a suástica nazista aparece destruída pela espada do soldado soviético. Foto: Mais Berlim

“Alemanha nazista” é o nome usado para a Alemanha durante a ditadura de Adolf Hitler e do Partido Nazista.

Hitler tornou-se chanceler em 30 de janeiro de 1933 e rapidamente destruiu as instituições democráticas da República de Weimar, perseguiu adversários e estabeleceu uma ditadura.

O regime defendia uma ideologia ultranacionalista, racista e antissemita. Judeus foram progressivamente excluídos da sociedade, perseguidos e posteriormente submetidos a um programa sistemático de extermínio.

O regime também perseguiu, aprisionou e assassinou outros grupos e adversários considerados inimigos.

Quanto tempo durou a Alemanha nazista?

A ditadura nazista existiu por aproximadamente 12 anos, de 1933 a 1945.

Hitler chegou ao poder em janeiro de 1933.

O regime terminou com a derrota militar da Alemanha na Segunda Guerra Mundial. Hitler suicidou-se em seu bunker em Berlim em 30 de abril de 1945, poucos dias antes da capitulação alemã.

Por que aconteceu a Segunda Guerra Mundial?

Não existe uma única causa, mas existe um ponto de partida claro para a guerra na Europa.

Em 1º de setembro de 1939, a Alemanha nazista invadiu a Polônia. Dois dias depois, Reino Unido e França declararam guerra à Alemanha.

A invasão fazia parte da política expansionista de Hitler, que pretendia conquistar territórios e obter o chamado Lebensraum, ou “espaço vital”, principalmente no leste europeu.

As consequências da Primeira Guerra Mundial, a instabilidade econômica e política, o crescimento de regimes autoritários e o fracasso das potências europeias em conter a expansão de Hitler também contribuíram para criar as condições que levaram ao conflito.

Quanto tempo durou a Segunda Guerra Mundial?

A Segunda Guerra Mundial durou seis anos, de 1º de setembro de 1939 a 2 de setembro de 1945.

Há uma distinção importante para entender o memorial de Berlim.

Na Europa, a guerra terminou em maio de 1945, com a derrota da Alemanha nazista.

Mas o conflito continuou na Ásia e no Pacífico. O Japão anunciou sua rendição em agosto e assinou formalmente o documento em 2 de setembro de 1945, encerrando a Segunda Guerra Mundial.

Portanto, o memorial de Treptow celebra a vitória soviética sobre a Alemanha nazista e o fim da guerra na Europa.

Quem lutou contra quem?

De maneira simplificada, a guerra reuniu dois grandes grupos.

De um lado estavam as Potências do Eixo, lideradas por:

Alemanha nazista, Itália fascista e Japão.

Do outro estavam os Aliados, entre os quais:

Reino Unido, União Soviética, Estados Unidos, China e França, além de muitos outros países.

A composição mudou ao longo da guerra.

A União Soviética entrou diretamente na guerra contra a Alemanha depois que Hitler rompeu o pacto de não agressão germano-soviético e invadiu o território soviético em 22 de junho de 1941.

Os Estados Unidos entraram no conflito depois do ataque japonês a Pearl Harbor, em dezembro daquele ano.

O que foi a Batalha de Berlim?

Foi a batalha final pela capital da Alemanha nazista.

Em abril de 1945, o Exército Vermelho avançou sobre Berlim enquanto os Aliados ocidentais avançavam pela Alemanha pelo oeste.

As forças soviéticas cercaram a capital e travaram violentos combates pelas ruas da cidade.

Hitler suicidou-se em 30 de abril de 1945. Berlim capitulou em 2 de maio e, poucos dias depois, veio a rendição incondicional das forças armadas alemãs.

A guerra terminava na Europa.

Os 7 mil enterrados em Treptow foram todos os soviéticos mortos na Batalha de Berlim?

Não.

O número foi muito maior.

Estimativas frequentemente citadas apontam para aproximadamente 80 mil militares soviéticos mortos durante a operação de Berlim, que compreendeu uma área maior do que apenas os combates dentro da cidade.

Os sepultados no Treptower Park representam somente uma parcela dessas perdas.

Berlim possui outros grandes cemitérios soviéticos, entre eles os de Tiergarten e Schönholzer Heide.

Quantos militares soviéticos morreram durante a Segunda Guerra Mundial?

As estimativas variam conforme os critérios utilizados.

Uma das cifras mais utilizadas é de aproximadamente 8,7 milhões de militares soviéticos mortos durante a guerra.

Quando civis são incluídos, estimativas amplamente utilizadas colocam as perdas da União Soviética em aproximadamente 26 a 27 milhões de pessoas.

A União Soviética foi um dos países mais atingidos pela Segunda Guerra Mundial.

Quantos militares alemães morreram?

Também existem diferenças entre as estimativas.

Uma cifra frequentemente utilizada é de aproximadamente 5,3 milhões de militares alemães mortos durante a Segunda Guerra Mundial.

Uma parcela muito significativa dessas mortes ocorreu na Frente Oriental, durante os combates contra a União Soviética.

Quantas pessoas morreram na Segunda Guerra Mundial?

Não existe uma contagem mundial definitiva.

As estimativas variam conforme a metodologia e principalmente conforme são contabilizadas as mortes indiretas provocadas por fome, doenças, ocupação e deslocamentos.

O consenso é que dezenas de milhões de pessoas morreram, tornando a Segunda Guerra Mundial o conflito mais mortal da história.

Diferentes instituições trabalham com totais que vão de aproximadamente 55 milhões a mais de 70 milhões de mortos.

Quantos eram civis?

Os civis representaram uma parcela enorme das vítimas.

Não existe um total mundial exato, mas dezenas de milhões de civis morreram em bombardeios, massacres, genocídios, ocupações, fome e doenças provocadas ou agravadas pela guerra.

Entre as vítimas estavam aproximadamente 6 milhões de judeus assassinados no Holocausto pela Alemanha nazista e seus colaboradores.

A dimensão das perdas civis mostra por que a Segunda Guerra Mundial não pode ser compreendida apenas como uma guerra entre exércitos.

O Brasil participou da Segunda Guerra Mundial?

Sim.

Inicialmente, o Brasil permaneceu neutro. A situação mudou principalmente depois de ataques de submarinos do Eixo contra navios brasileiros.

Em 1942, o Brasil declarou guerra à Alemanha e à Itália.

Posteriormente, a Força Expedicionária Brasileira (FEB) foi enviada para lutar na Itália ao lado dos Aliados.

Mais de 25 mil brasileiros foram enviados ao teatro de operações italiano e participaram de combates importantes, entre eles Monte Castello e Montese.

A participação brasileira significa que a guerra lembrada no Memorial Soviético de Berlim também possui uma conexão direta com a história do Brasil.

O que aconteceu com a Alemanha depois da guerra?

Depois da derrota nazista, a Alemanha foi ocupada pelas quatro principais potências vencedoras:

Estados Unidos, Reino Unido, França e União Soviética.

O território foi dividido em quatro zonas de ocupação.

A União Soviética passou a controlar uma grande área no leste da Alemanha, enquanto as outras três potências administravam regiões no oeste.

Essa divisão, inicialmente concebida no contexto da ocupação do pós-guerra, acabaria se transformando em uma divisão política muito mais duradoura com o início da Guerra Fria.

Como surgiu a Alemanha Oriental?

Em 1949, a divisão alemã se consolidou.

As zonas ocidentais deram origem à República Federal da Alemanha (RFA), conhecida como Alemanha Ocidental.

Na zona de ocupação soviética foi criada, em 7 de outubro de 1949, a República Democrática Alemã (RDA), conhecida como Alemanha Oriental ou DDR, em alemão.

A Alemanha Oriental tornou-se um Estado socialista fortemente ligado política, econômica e militarmente à União Soviética.

Por quanto tempo existiu a Alemanha Oriental?

A Alemanha Oriental existiu por quase 41 anos, de 1949 a 1990.

Mas a presença soviética no leste alemão havia começado antes, imediatamente depois da guerra, em 1945.

Se considerarmos o período entre o início da ocupação soviética e a reunificação, o leste da Alemanha passou aproximadamente 45 anos sob ocupação e, posteriormente, forte influência soviética.

A RDA deixou de existir em 3 de outubro de 1990, quando ocorreu a reunificação alemã.

Os alemães orientais aprendiam inglês ou russo?

Na Alemanha Oriental, a principal língua estrangeira ensinada nas escolas era o russo.

A partir dos anos 1950, o ensino de russo tornou-se obrigatório para a maioria dos estudantes, refletindo a forte ligação política e cultural da RDA com a União Soviética.

Isso não significa que ninguém aprendesse inglês. Inglês e outras línguas também podiam ser ensinados, principalmente em determinados níveis e escolas, mas o russo ocupava uma posição privilegiada no sistema educacional.

Enquanto na Alemanha Ocidental o inglês se consolidava como principal língua estrangeira, gerações de estudantes da Alemanha Oriental tiveram o russo como primeira língua estrangeira obrigatória.

Depois da reunificação, o inglês rapidamente assumiu essa posição também no leste.

A divisão alemã, portanto, não existia apenas no mapa: ela chegava às escolas, ao idioma aprendido pelas crianças e à vida cotidiana.

E como Berlim ficou nessa divisão?

Aqui existe uma particularidade fundamental.

Berlim estava geograficamente dentro da zona de ocupação soviética, mas, por ser a antiga capital alemã, a própria cidade também foi dividida entre as quatro potências vencedoras.

O setor soviético tornou-se posteriormente Berlim Oriental, que passou a funcionar como capital da RDA.

Os setores americano, britânico e francês formaram Berlim Ocidental.

Isso criou uma situação extraordinária: uma parte da cidade politicamente ligada ao Ocidente estava cercada pelo território da Alemanha Oriental.

O Muro de Berlim dividia apenas a cidade ao meio?

Não.

Uma parte do Muro realmente separava Berlim Oriental de Berlim Ocidental dentro da cidade.

Mas, como Berlim Ocidental estava cercada pela Alemanha Oriental, o sistema de fronteira precisava também contornar toda Berlim Ocidental.

É por isso que, quando observamos um mapa, o Muro parece formar um enorme perímetro ao redor de uma parte da cidade.

Ele não era simplesmente uma linha reta dividindo Berlim em duas metades.

A construção começou em 13 de agosto de 1961, principalmente para impedir a saída de cidadãos da Alemanha Oriental através de Berlim Ocidental.

O Muro caiu em 9 de novembro de 1989.

Menos de um ano depois, em 3 de outubro de 1990, a Alemanha foi reunificada.

Por que a Alemanha preserva um memorial que celebra sua própria derrota?

Pintura localizada na base da estátua no memorial soviético do Treptower Park

Porque é mais preciso dizer que o monumento celebra a derrota da Alemanha nazista.

O local também é um cemitério militar, com milhares de mortos efetivamente sepultados no complexo.

Além disso, depois da reunificação, a Alemanha assumiu compromissos relacionados à preservação dos memoriais e túmulos soviéticos.

Preservar o conjunto não significa que a Alemanha contemporânea endosse Stalin ou toda a narrativa política soviética presente no monumento.

O Memorial de Treptow reúne várias camadas da história em um mesmo espaço: é cemitério de guerra, monumento à derrota do nazismo, celebração da vitória soviética e uma obra monumental produzida durante a ditadura de Stalin.

Mais de oito décadas depois do fim da guerra, todas essas camadas permanecem preservadas no meio de Berlim — em um parque que já existia muito antes delas.

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