
No dia 17 janeiro, em Lisboa, o árbitro levantou o braço de Lucas Laet Mattos no European Jiu-Jitsu Championship, organizado pela IBJJF – International Brazilian Jiu-Jitsu Federation. O carioca de 32 celebrou o título de campeão europeu, na categoria Faixa-preta, Master 1, Peso Médio. No ano passado, a faixa foi a de Mister Brasil, título de homem mais bonito do país.

As vitórias de Lucas começaram num quarto silencioso, diante de uma folha em branco. Foi o que o Mais Berlim descobriu durante uma entrevista exclusiva, nessa quinta-feira, 12, durante sua passagem por Berlim.
E como será que um diário transformou a vida de um adolescente hiperativo. É o que vamos te contar agora.
“O papel aceita tudo”

Lucas tinha pouco mais de 20 anos quando uma lesão o tirou do tatame. O corpo parou. A mente não.
Foi ali que a escrita deixou de ser impulso e virou método.
“O papel aceita tudo. Ele aceita sonho, aceita valor milionário, aceita qualquer coisa. Ele tá ali em branco e cabe a gente preencher.”
Sem treinar, ele começou a organizar pensamentos, metas, frustrações, medos, planos.
O que parecia desabafo virou estratégia de alta performance.
Hoje, Lucas não começa um ciclo de preparação sem escrever.
O diário como treinador

No caderno que carrega na mochila, Lucas registra:
- objetivos divididos em ciclos
- metas semanais
- pequenas vitórias diárias
- erros técnicos
- dificuldades emocionais
- ajustes de rotina
- padrões de comportamento
Ele não escreve apenas quando vence.
Escreve quando falha.
“Eu anoto o que eu quero melhorar, o que eu melhorei, o que não consegui.”
“É uma conversa comigo.”
“Se tentar construir a Muralha da China de um dia pro outro, não vai conseguir. Mas se colocar um tijolo por dia…”
O campeão europeu foi construído assim: um tijolo por dia.
A criança que precisava aprender a respirar

Antes do campeão, havia um menino inquieto.
Lucas fala sem romantizar: era briguento, indisciplinado. Hoje reconhece traços claros de hiperatividade — algo que, na época, ninguém sabia diagnosticar.
Foi o jiu-jitsu que trouxe ordem.
“O jiu-jitsu trouxe disciplina pra mim. Você aprende respeito, hierarquia, controle emocional.”
“Aprende a respirar sob pressão — literalmente.”
Respirar quando alguém mais pesado tenta te imobilizar.
Respirar quando o caos quer tomar conta.
O tatame ensinou controle do corpo.
O diário ensinou controle da mente.
Lisboa foi consequência
O Europeu da IBJJF é um dos torneios mais exigentes do calendário internacional.
O título europeu na categoria europeu, na categoria Faixa-preta, Master 1, Peso Médio, veio depois de meses de preparação física — e mental.
Cada ajuste estava anotado.
Cada treino dividido em ciclos.
Cada falha analisada.
Ele não fala em sorte.
Fala em processo.
“Eu tô feliz com o processo. Eu me ganhei durante o camp.”
Roma: defender o que já escreveu

Nesta sexta-feira 13, pela manhã, Lucas deixou Berlim rumo à Itália para disputar novamente o Abu Dhabi Grand Slam Rome, organizado pela Abu Dhabi Jiu Jitsu Pro, no Centro Olimpico Matteo Pellicone.
Ele foi campeão da sua categoria no ano passado. Agora retorna para defender o título. Mas Roma não é sobre provar algo ao mundo. O topo do ranking já fala por si. Roma é continuidade. É manter o padrão que foi escrito antes mesmo da viagem.
A faixa e a responsabilidade

Em 2025, Lucas venceu o Mister Brasil.
O tema que apresentou foi direto:
“O esporte como ferramenta de transformação.”
Lucas conta que não planejava disputar concursos de beleza. O convite veio durante a pandemia, quando estava no Brasil e foi abordado por uma agência. Ele aceitou o desafio com a mesma disciplina que aplica ao esporte.
“Eu não estava esperando. Foi por acaso. Mas quando eu entro em algo, eu entro para dar o meu melhor”, afirma.
Em cinco dias de provas, em Balneário Camboriú, superou outros 38 candidatos e conquistou o título de Mister Brasil 2025 levando como tema “o esporte como ferramenta de transformação”.
E se tem provas e desafios, o diário está sempre lá, como ferramenta de treinamento mental.
Lucas passará oficialmente a faixa quando retornar ao Brasil para a cerimônia de transição do título.
Mas o que ele faz com a visibilidade importa mais do que a faixa.
Onde o diário vira ponte

Instituto DHS Brasil do Amanhã
Lucas é embaixador do Instituto DHS Brasil do Amanhã, que atua entre as comunidades da Babilônia e Chapéu Mangueira, no Leme, Rio de Janeiro.
Ali, o esporte é ferramenta de acesso.
De autoestima.
De oportunidade.
Lucas usa seus títulos para captar:
- kimonos
- equipamentos
- apoio educacional
- aulas de inglês
- chances internacionais para jovens atletas
“Quero trazer esperança pra vida dessa galera.”
“A beleza é pessoal. O que você faz com ela é o que importa.”
Diário de um roteirista

Além dos títulos no tatame e nas passarelas, Lucas também levou sua história para o streaming. Ele participou do desenvolvimento da série Viajando de Kimono, produzida pela Caravana Filmes que será exibida no Globoplay e no Canal Combate.
A ideia nasceu anos atrás, durante um período de recuperação de lesão, quando começou a escrever o projeto no mesmo diário que usa até hoje.
“Eu já tinha esse esboço guardado. O jiu-jitsu não é só competição, é transformação, é identidade. Eu queria mostrar isso para o mundo”, explica.
E no mundo das telas, teve ainda uma passagem pela novela Vale Tudo, contracenando com o ator Cauã Reinold.
O que Berlim viu
Esse tour pela Europa incluiu seis países, por onde Lucas realizou workshops para atletas de jiu-jitsu. Aqui em Berlim, Alemanha, o foco inicial da matéria do Mais Berlim era falar sobre a curiosidade da visita de um Mister Brasil, mas Lucas tinha muito mais a mostrar.
Ele nos ensina, com o exemplo, que a vitória vem com propósito, que uma história se escreve a cada linha, e a correção dos erros pode mudar o rumo do roteiro, na próxima página.
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Augusto Medeiros é jornalista há 25 anos, formado pela Universidade Federal da Paraíba, atuou no Brasil como repórter de rede, na TV Globo, por 15 anos, com reportagens para Jornal Nacional, Fantástico, Jornal Hoje, Bom Dia Brasil, Jornal da Globo e Globo News. Na Alemanha, passou a atuar como correspondente internacional para o Fantástico, em coberturas como a Guerra da Ucrânia e a Crise Energética. É fundador e editor-chefe do portal Mais Berlim.

