
Texto original Mais Berlim, por Augusto Medeiros
Abrir uma empresa na Alemanha envolve registros, taxas, prazos e comunicações com diferentes órgãos públicos. Foi justamente nesse momento de vulnerabilidade — logo após a abertura da minha firma — Mais Berlim, que eu quase me tornei vítima de um golpe conhecido pelas autoridades alemãs, mas ainda extremamente eficaz.
Pouco tempo depois do registro da empresa, recebi pelo correio uma carta com aparência oficial cobrando 999,52 euros. O documento dava a entender que se tratava de uma taxa ligada ao tribunal e ao processo de registro empresarial.
Em nenhum momento eu desconfiei. Achei que fosse uma cobrança normal do processo de abertura da empresa.
A carta estipulava um prazo curto: três dias para pagamento. Durante dias, fiquei preocupado, nervoso, fazendo contas. Não era um valor fácil de pagar, mas eu estava disposto a pagar — por medo de ter problemas legais na Alemanha.
“Isso é claramente um golpe”, diz advogada

Por coincidência — e muita sorte — no mesmo dia eu tinha uma reunião com a advogada Glória Hermsdorf, que me assessora juridicamente na abertura e regularização da empresa. Mostrei a carta de forma espontânea.
A resposta foi imediata:
“Augusto, isso é claramente um golpe.”
Segundo a advogada, os golpistas se aproveitam do fato de que, ao registrar uma empresa, dados passam a ser públicos.
“Quando você registra a empresa, o cartório comunica o Handelsregister. De alguma forma, essas pessoas identificam esse registro e enviam uma carta de cobrança falsa.”
Ela explica que o valor cobrado já era um forte indício de fraude:
“O registro de empresa na Alemanha custa em média cerca de 300 euros. Cobranças próximas de mil euros estão totalmente fora do padrão.”
Os 7 erros que entregam o golpe

1. Tribunal genérico
A carta menciona apenas “Amtsgericht”, sem indicar a cidade.
Comunicações reais sempre trazem o nome completo, como Amtsgericht Berlin.
2. Endereço incompatível
A cobrança parte de uma “central de pagamentos” localizada em outra cidade.
Tribunais não utilizam endereços genéricos para cobrança.
3. IBAN estrangeiro
A conta bancária indicada começa com ES (Espanha), e não com DE (Alemanha).
“Toda conta oficial da Alemanha começa com DE. Se o IBAN não começa com DE, é preciso desconfiar imediatamente.”
4. Valor fora do padrão
O custo real do registro empresarial gira em torno de 300 euros.
A carta cobrava quase 1.000 euros.
5. Prazo irreal para pagamento
O documento exige pagamento em apenas três dias.
“Autoridades públicas na Alemanha dão, no mínimo, 14 dias, muitas vezes até 30.”
6. Nome de juiz inexistente
A carta cita um juiz que não existe, segundo verificação profissional.
7. Juiz atuando em duas cidades
O mesmo nome aparece em cartas enviadas para Berlim e Munique.
“Um juiz não pode atuar em dois tribunais diferentes ao mesmo tempo.”
Outros casos reais acompanhados por advogados

Segundo Glória, esse tipo de golpe é recorrente.
“Uma cliente minha em Munique recebeu uma carta praticamente idêntica. Ela queria pagar, mas me enviou antes para conferir.”
Dias depois, veio a confirmação:
“Ela recebeu a cobrança verdadeira, no valor correto de cerca de 300 euros. A carta falsa cobrava mais de mil.”
O impacto emocional do golpe
Mesmo sem ter feito o pagamento, o impacto psicológico foi grande.
Passei dias sob estresse, acreditando que tinha uma dívida oficial e um prazo curto para resolver.
A sensação de perceber que eu estava prestes a transferir um valor alto para criminosos foi de choque — e também de alívio por ter sido alertado a tempo. Passei o dia sem conseguir acreditar o que havia acontecido e, ao mesmo tempo, meu corpo todo começou a doer. Senti como se eu estivesse perdido, e nem coseguia comemorar por ter escapado do golpe.
O que dizem as autoridades alemãs
Casos como este são reconhecidos oficialmente pelas autoridades.
O Bundeskriminalamt classifica esse tipo de prática como fraude, estelionato e falsificação de documentos, frequentemente associada ao uso de contas bancárias no exterior para dificultar investigações.
A orientação oficial é clara: não pagar cobranças suspeitas e registrar ocorrência.
Em Berlim, o boletim de ocorrência (Anzeige) pode ser feito junto à Polizei Berlin, inclusive por meios digitais, dependendo do caso.
A Verbraucherzentrale também alerta que:
- nenhuma cobrança oficial surge sem base legal verificável;
- tribunais não utilizam IBAN estrangeiro;
- prazos extremamente curtos são indício clássico de fraude.
Outros golpes por carta na Alemanha
Especialistas alertam que golpes semelhantes também ocorrem com falsas contas de luz, internet e telefonia, usando nomes de empresas conhecidas.
O padrão é sempre o mesmo: aparência oficial, urgência e erro técnico escondido.
Alerta final
A carta analisada nesta reportagem reúne todos os elementos clássicos de um golpe já conhecido na Alemanha.
No meu caso, o pagamento só não foi feito porque houve orientação jurídica a tempo. Em muitos outros, vítimas pagam e, na maioria das vezes, não conseguem recuperar o dinheiro.
Na dúvida, não pague.
Verifique. Pergunte. Procure orientação.
Carta no correio não é sinônimo de cobrança legítima.
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Augusto Medeiros é jornalista brasileiro radicado em Berlim, editor-chefe e fundador do Portal Mais Berlim. Atua na cobertura de cultura, sociedade, diversidade, empreendedorismo e cotidiano na Alemanha, com foco na experiência de brasileiros e comunidades internacionais no país. Produz reportagens autorais, entrevistas e conteúdos multilíngues que conectam Brasil e Alemanha com informação, contexto e sensibilidade.

