
Evento realizado nesta quarta-feira (ontem), durante a Berlinale, reuniu cineastas brasileiros e reforçou o papel das embaixadas no apoio à cultura
Texto original criado por Mais Berlim
Na noite desta quarta-feira (ontem), a Embaixada do Brasil em Berlim voltou a se transformar em um verdadeiro ponto de encontro do cinema brasileiro durante a Berlinale. O evento deu continuidade a uma agenda que já havia começado no domingo anterior, quando artistas e produções brasileiras foram recebidos em uma primeira celebração oficial.
Mais do que um encontro protocolar, o momento revelou algo maior: um movimento de reaproximação entre o cinema brasileiro e a diplomacia do país — agora com portas abertas e presença ativa.
Um novo momento para o cinema brasileiro

O diretor Kléber Mendonça Filho, que concorre ao Oscar com quatro indicações pelo filme O Agente Secreto, foi direto ao ponto ao comentar essa mudança de cenário. Em tom crítico, mas também assertivo, ele destacou que a diferença não está na recepção internacional (referindo-se a outros países)— que, segundo ele, sempre existiu —, mas sim dentro da própria estrutura brasileira.
“A diferença entre ter um governo democrático e um governo que não respeita a arte brasileira. É só isso.”
Para o diretor, o problema vivido nos governos anteriores foi interno: a ausência de apoio institucional ao artista brasileiro por parte da própria diplomacia.
“Um país deve apoiar os seus artistas. Um país que não apoia seus artistas não é um país.”
Ele reforça que, mesmo durante períodos de negligência institucional, os filmes brasileiros continuaram sendo bem recebidos no exterior — o que evidencia ainda mais a importância do suporte oficial:
“Internacionalmente, os filmes continuaram sendo bem recebidos. Estou falando da diplomacia brasileira no período Temer/Bolsonaro era de ignorar o artista brasileiro. Isso tá errado e precisa ser lembrado.”
Berlim como símbolo desse acolhimento

A produtora Sara Silveira, uma das figuras mais respeitadas do cinema nacional, reforça que Berlim tem um papel histórico nesse processo.
Com mais de 20 anos de presença na Berlinale, ela aponta que a capital alemã sempre foi um ponto fora da curva no apoio institucional:
“Berlim é especial, porque foi sempre a Embaixada que abriu as portas para o cinema brasileiro — das únicas no mundo inteiro.”
Sara destaca ainda que o reconhecimento atual — incluindo as recentes presenças brasileiras no Oscar — é resultado de uma construção coletiva:
“Só se chega ao Oscar com grandes filmes, mas também com toda a base do cinema brasileiro.”
E completa, com entusiasmo:
“A embaixada de Berlim é o coração, é a que recebe o cinema brasileiro há anos.”
Recepções da Embaixada na Berlinale
Segundo apuração do Mais Berlim, a Embaixada do Brasil em Berlim não realizou recepções aos artistas nos anos 2019, 2020, 2021 e 2022. A partir do ano 2023, houve recepções anualmente.
Os artistas e produtores brasileiros que vêm participar do Festival de Cinema de Berlim são convidados para um coquetel, no salão de eventos da Embaixada, momento em que há oportunidade para trocas de experiências e contatos.
O impacto direto nos artistas

A produtora de O Agente Secreto, Emilie Lesclaux, também percebe claramente essa mudança — inclusive no plano pessoal e profissional.
“A gente teve anos muito difíceis […] , de não acolher os filmes e os artistas, como se fosse uma orientação, na época do governo anterior.”
Hoje, segundo ela, o cenário é outro:
“É muito bom poder contar com o Itamaraty, com o apoio de todas as Embaixadas. […] A gente se sente realmente em casa.[…] E bom sentir que voltamos ao que sempre foi.”
Vivendo um momento de grande reconhecimento internacional — com dezenas de prêmios acumulados — Emilie resume a fase atual como uma experiência intensa e positiva:
“A gente está aproveitando cada momento. Não tem um dia que não seja interessante.”
O papel da diplomacia cultural

O embaixador brasileiro em Berlim, Rodrigo Baena Soares, reforçou que esse movimento não é casual, mas parte de uma estratégia clara.
Segundo ele, cabe às representações diplomáticas promover o cinema brasileiro como ferramenta de conexão internacional:
“O Itamaraty tem que fazer todo o possível para que o público de cada país tenha o privilégio de assistir às nossas produções. […] O Itamaraty, como o braço do Estado brasileiro no exterior, tem que procurar apoiar sempre essas produções. ”
Ele também relembrou os dois momentos recentes organizados pela Embaixada durante a Berlinale — o encontro de domingo e a homenagem realizada nesta quarta-feira (ontem) — destacando a presença de diversas produções brasileiras no festival.
Para além do cinema, ele aponta o papel estratégico da cultura:
“A cultura é um dos melhores instrumentos da nossa política exterior — é o cimento das relações entre os países. […] Nós podemos mostrar o nosso país de uma forma até lúdica, suave. Então, nós temos essa capacidade, isso o Itamaraty tem que estimular e tem que promover. ”
Mais do que eventos: um momento de aproximação
O encontro na Embaixada do Brasil em Berlim reforça o papel das representações diplomáticas no apoio à cultura brasileira no exterior.
As falas de diretores, produtores e representantes do governo indicam um momento de maior proximidade entre o cinema brasileiro e a diplomacia do país, especialmente em espaços estratégicos como a Berlinale.
Nesse contexto, Berlim segue como um dos principais pontos de encontro entre o Brasil e o cenário internacional do cinema, reunindo artistas, produções e instituições em torno da promoção da cultura brasileira.
Continue lendo:
Brasileira faz história como primeira maestra a assumir orquestra da Alemanha que foi fundada há 130 anos.
Augusto Medeiros é jornalista brasileiro radicado em Berlim, editor-chefe e fundador do Portal Mais Berlim. Atua na cobertura de cultura, sociedade, diversidade, empreendedorismo e cotidiano na Alemanha, com foco na experiência de brasileiros e comunidades internacionais no país. Produz reportagens autorais, entrevistas e conteúdos multilíngues que conectam Brasil e Alemanha com informação, contexto e sensibilidade.

