
Após relato da artista brasileira Gissauro Araújo, Mais Berlim reúne depoimentos de vítimas, dados inéditos da Polícia e alertas de especialistas sobre o uso de K.O.-Tropfen na Alemanha
Por Mais Berlim
Reportagem: Augusto Medeiros, Igor Abreu; Edição: Emilene Silva
Uma queda repentina.
Um apagão sem explicação.
Um nariz quebrado.
Um dente destruído.
E uma pergunta que permanece sem resposta.
Foi assim que começou a investigação do Mais Berlim sobre casos suspeitos de “Boa Noite Cinderela”, conhecidos na Alemanha como K.O.-Tropfen.
Nas últimas semanas, a reportagem ouviu vítimas, testemunhas, especialistas, organizadores de eventos, instituições de apoio e a própria Polícia de Berlim. Os relatos vieram de Berlim, Colônia e outras cidades alemãs. Alguns terminaram em roubos, outros levantam suspeitas de crimes mais graves. Em comum, as vítimas descrevem perda repentina de controle, falhas de memória, dificuldade para reunir provas e a sensação de vulnerabilidade diante de algo que muitas vezes desaparece do organismo antes mesmo de ser identificado.
O caso que motivou esta reportagem aconteceu na madrugada de 11 de maio de 2026, em Berlim.
“A noite começou a ficar estranha”
A artista e dançarina brasileira Gissauro Araújo havia passado o sábado inteiro participando de uma batalha de dança.
Depois do evento, seguiu para a casa do amigo Jonathan “Jhow” da Silva, onde ambos se prepararam para sair.
Gissauro conta que eles estavam cansados e quase desistiram.
“Estava aquela preguiça. A gente ficou enrolando para sair. Quando vimos já era uma hora, uma e meia da manhã.”
Mesmo assim decidiram ir para uma festa no Maaya, um clube que pode ser alugado para eventos, numa das regiões mais badaladas da cidade.
Ao chegar ao local encontraram amigos, deixaram seus pertences na recepção e seguiram para a pista.
“Era uma noite muito tranquila. A gente estava ali para dançar”, lembra a artista.
Segundo Gissauro, não havia intenção de beber muito.
“Não era uma noite de encher a cara. Era uma noite de dançar.”
Em determinado momento ela e Jhow dividiram uma caipirinha.
Mais tarde, Gissauro consumiu uma segunda bebida.
Ela contou ao Mais Berlim que bebeu aproximadamente uma caipirinha e meia ao longo de toda a noite.
Pouco depois começaram os sintomas.
Primeiro veio uma forte tontura.
“Eu senti uma tontura muito forte.”
A princípio ela não associou aquilo ao consumo de álcool.
“Eu praticamente não tinha bebido.”
Em seguida surgiu uma forte dor de barriga.
Ela foi ao banheiro.
“Eu fiquei sentada na privada pensando: nossa, que estranho.”
Depois retornou à pista.
Foi então que apareceu outro sintoma.
Frio.
Muito frio.
Ela decidiu sentar em um sofá próximo dos amigos.
Foi nesse momento que algo começou a lhe parecer errado.
“A noite começou a ficar estranha para mim.”
“Eu não sei explicar.”
“Parecia que alguma coisa estava errada.”
A dançarina conta que chegou a pensar que fosse apenas cansaço.
Mas os sintomas continuaram.
Então veio uma forte ânsia de vômito.
Ela se levantou para ir ao banheiro.
Não conseguiu chegar.
“Eu lembro de pensar: não vai dar tempo.”
Essa é a última lembrança clara que tem daquela madrugada.
“Eu acordei cheia de sangue”

A memória seguinte já é depois da queda.
“Eu acordei cheia de sangue.”
Ela estava caída no chão.
Desorientada.
Sem entender o que havia acontecido.
Ao redor estavam amigos e outras pessoas tentando ajudá-la.
“Eu lembro do Jhow falando comigo.”
“Foi isso que me despertou.”
A queda foi violenta.
Ela bateu o rosto diretamente no chão.
O impacto provocou uma fratura no nariz e a quebra de um dente.
“Foi um apagão muito estranho.”
Segundo Gissauro, nunca havia vivido algo semelhante.
“Nunca tive um apagão assim.”
“Nunca tive um desmaio assim.”
“Nem quando eu bebia mais no Brasil.”
O choque emocional foi imediato.
“Eu comecei a tremer.”
A primeira hipótese que lhe veio à cabeça foi justamente aquilo que mais temia.
“Minha mãe sempre falava para tomar cuidado com copo, com bebida, com alguém colocar alguma coisa.”
“E aconteceu justamente aquilo que eu tinha medo.”
Até hoje ela não consegue afirmar o que aconteceu.
Mas diz que jamais conseguiu explicar a perda repentina de consciência.
As testemunhas
Jonathan “Jhow” da Silva estava ao lado de Gissauro naquela noite.
Ele contou que os dois têm um hábito que adotaram justamente por receio desse tipo de situação: dividir bebidas.
“A gente sempre divide bebida.”
Segundo Jhow, essa prática faz parte dos cuidados que costumam ter quando saem.
“A gente tenta dividir justamente porque existe esse medo.”
Ele relata que, depois de algum tempo, começou a perceber mudanças no comportamento da amiga.
“Ela voltou da outra pista e sentou.”
Isso chamou sua atenção.
“Normalmente a gente dança muito.”
“Ela ficou mais quieta.”
Ainda assim acreditou que pudesse ser apenas cansaço.
Jhow conversava com o amigo Cléber Amaral quando ouviu um alerta.
“Cléber falou: ‘Jhow, ela caiu.’”
Quando chegou perto encontrou a amiga desacordada e sangrando.
“Eu coloquei minha mão embaixo da cabeça dela.”
“Fiquei falando o tempo todo: meu bem, estamos aqui.”
Pouco depois ela recuperou a consciência.
Durante a entrevista ao Mais Berlim, Jhow revelou que também passou por uma situação semelhante anos atrás.
Ele havia tomado apenas parte da segunda cerveja da noite quando começou a sentir uma forte náusea e intensa dor de cabeça.
Conseguiu chegar em casa.
Mas sofreu apagões.
“Eu lembro de tentar abrir a porta.”
“Depois lembro de acordar no chão da cozinha.”
Para ele, só não aconteceu algo pior porque conseguiu voltar para casa.
“Se fosse uma amiga sozinha, poderia ter sido muito pior.”
Cléber Amaral também presenciou a queda.
Ele viu quando Gissauro caminhou em direção ao bar e então caiu.
“Ela simplesmente apagou.”
“Havia muito sangue.”
Cléber ajudou nos primeiros socorros, controlou o sangramento, acionou a equipe de segurança e permaneceu ao lado da vítima.
“O correto teria sido chamar a ambulância.”
A equipe do Maaya informou à vítima que iria chamar a ambulância, mas Gissauro conta de recusou o atendimento de emergência.
Seis horas de espera e o exame que não aconteceu

Assim como muitos imigrantes, Gissauro acreditava que uma ambulância poderia resultar em custos elevados.
Por isso decidiu voltar para casa.
Dormiu algumas horas.
E apenas depois procurou atendimento médico.
Hoje acredita que essa decisão pode ter prejudicado a coleta de provas.
Ao chegar ao hospital, informou que suspeitava que sua bebida pudesse ter sido adulterada.
Mesmo assim, segundo seu relato, aguardou aproximadamente seis horas para ser atendida.
“Foram umas seis horas esperando.”
Quando finalmente foi chamada, a atenção médica concentrou-se nos ferimentos provocados pela queda.
Uma tomografia descartou lesões graves na cabeça.
Mas confirmou a fratura no nariz.
O dente quebrado também exigiu atendimento urgente.
“O nervo ficou exposto.”
Segundo Gissauro, nenhum exame toxicológico foi solicitado.
Ela afirma que no relatório médico apareceu a palavra “intoxicação”, embora não tenha sido realizado exame de sangue.
Dias depois procurou a Polícia de Berlim.
Ela foi informada por uma policial que o exame deveria ter sido solicitado imediatamente.
A policial também teria alertado que muitas substâncias utilizadas nesses casos permanecem pouco tempo no organismo.
Casos crescem quase 1000% em Berlim

Os dados obtidos com exclusividade pelo Mais Berlim junto à Polícia de Berlim mostram que os registros de suspeitas envolvendo K.O.-Tropfen aumentaram drasticamente na última década.
Em 2016 foram registrados 52 casos.
Em 2025 o número chegou a 569.
Isso representa um aumento de aproximadamente 994%, ou quase onze vezes mais registros em menos de dez anos.
Somente entre 1º de janeiro e 20 de maio de 2026 já haviam sido contabilizados outros 214 casos.
| Ano | Casos |
| 2016 | 52 |
| 2017 | 61 |
| 2018 | 50 |
| 2019 | 119 |
| 2020 | 182 |
| 2021 | 155 |
| 2022 | 190 |
| 2023 | 358 |
| 2024 | 415 |
| 2025 | 569 |
| 2026* | 214 |
*Dados até 20 de maio de 2026.
Friedrichshain-Kreuzberg lidera os registros
Segundo a Polícia de Berlim, os distritos com maior número de ocorrências registradas em 2025 foram:
- Friedrichshain-Kreuzberg: 165 casos;
- Mitte: 130 casos;
- Neukölln: 59 casos.
Entre janeiro e maio de 2026, Friedrichshain-Kreuzberg permaneceu na liderança, com 76 registros.
A Polícia de Berlim ressalta que esses números não permitem concluir que determinados estabelecimentos sejam mais perigosos que outros e não atribui responsabilidade a locais específicos.
O que diz o MAAYA
O Mais Berlim procurou o Maaya para comentar o caso.
Em pronunciamento público divulgado nas redes sociais, João Victor Dantas Beyer, gerente de eventos, afirmou que o local tem equipes treinadas para lidar com situações de emergência e insegurança.
Ele explica que o treinamento envolve segurança, bar, limpeza, logística, awareness e demais funcionários da casa.
João afirmou que qualquer frequentador que se sinta inseguro deve procurar imediatamente um integrante da equipe.
“Se você vê uma ameaça ou sente que algo está errado, procure um funcionário”, reforça.
O responsável pelo espaço também destacou um ponto que conversa diretamente com a experiência vivida por Gissauro.
A ambulância.
Segundo ele, muitas vítimas recusam atendimento por acreditarem que precisarão arcar com os custos.
E pede, “se você é vítima, aceite ajuda.”
João afirmou que o seguro do local cobre situações dessa natureza e que o atendimento imediato é fundamental para proteger a vítima e preservar provas.
“Você não estará prejudicando a casa.”
“Você estará ajudando a identificar quem cometeu o crime.”
Além disso, destacou que o encaminhamento imediato ao hospital aumenta as chances de coleta de evidências e de abertura rápida de investigação policial.
Para ele, a prioridade deve ser sempre a segurança da vítima.
Outros relatos, apagões, roubos e situações de risco

Durante a apuração desta reportagem, o Mais Berlim ouviu brasileiros que viveram experiências semelhantes em diferentes contextos: festas brasileiras, bares, eventos de rua e encontros entre amigos.
Alguns relatos terminaram em roubos.
Outros envolvem situações que as vítimas descrevem como tentativas de aproveitamento da incapacidade de reação provocada pelas substâncias.
Em comum, de acordo com as informações da Polícia e de especialistas, os depoimentos apresentam elementos semelhantes aos associados aos chamados K.O.-Tropfen: perda repentina de consciência, apagões de memória, desorientação, dificuldade de locomoção, incapacidade de reagir e dificuldade posterior para reunir provas.
Mais um apagão após festa brasileira
Um dos casos mais recentes ocorreu após uma festa brasileira realizada no YAAM (Young African Art Market), um projeto sociocultural independente de Berlim, que reúne música, arte urbana, cultura africana e caribenha, esportes e iniciativas de integração social.
Foi na noite de 8 para 9 de maio.
O Mais Berlim teve acesso ao caso e ouviu diretamente a vítima, um homem que pediu para não ser identificado.
Segundo o relato, a noite começou de forma completamente normal.
A vítima afirma que chegou bem ao evento e que havia consumido apenas uma cerveja comprada em um Späti Kaufe (uma loja de bebidas que permanece aberta até mais tarde) durante o trajeto.
Nada além disso.
A última lembrança clara da noite foi por volta das 2h30 da madrugada.
Depois disso, a memória desaparece completamente.
Não existem flashes.
Não existem recordações fragmentadas.
Não existe qualquer lembrança do que aconteceu durante as horas seguintes.
A próxima memória foi dentro de um trem da rede S-Bahn.
Eram quase seis horas da manhã.
Não sabia como havia chegado ali.
Não sabia por onde havia passado.
Nem conseguia reconstruir o trajeto realizado durante aquele período.
Ao recuperar a consciência percebeu que alguns pertences haviam desaparecido.
O celular não estava mais com ele.
Cerca de 100 euros em dinheiro também desapareceram.
Os cartões bancários, porém, permaneceram na carteira.
No dia seguinte registrou uma ocorrência online junto à Polícia de Berlim.
Poucas horas depois recebeu uma ligação dos investigadores.
No domingo, policiais compareceram à sua casa para recolher uma amostra de urina.
O material foi encaminhado para análise toxicológica.
Até o momento da entrevista ao Mais Berlim, a vítima ainda aguardava os resultados.
Além do possível uso de substâncias, o caso também envolve suspeita de roubo.
O Mais Berlim também procurou o YAAM para comentar o caso relatado nesta reportagem.
Até o fechamento desta edição, não havia recebido resposta.
A Polícia de Berlim também foi questionada sobre o episódio e informou que responderá posteriormente dentro dos trâmites normais da investigação.
“Você vai comigo para o quarto”

O enfermeiro brasileiro Bruno Torati, morador de Berlim há mais de 14 anos, também relatou uma experiência que nunca esqueceu.
Foi durante o verão em um bar bastante conhecido da cidade.
Naquela noite aguardava a chegada de um amigo.
Os demais companheiros já haviam ido embora.
Foi então que um homem mais velho se aproximou.
Segundo Bruno, o desconhecido afirmou estar hospedado em um hotel localizado acima do estabelecimento.
Pouco depois fez um convite direto.
“Você não quer subir comigo?”
Bruno recusou.
Explicou que estava esperando um amigo.
O homem insistiu de outra forma.
Ofereceu uma cerveja.
Bruno aceitou.

Naquele momento não viu motivo para desconfiar.
Mas seu amigo já estava chegando ao local.
Ao passar de carro em frente ao bar, percebeu algo estranho.
Segundo Bruno, o amigo afirma ter visto o momento em que o homem teria colocado alguma substância no copo.
Ele correu até a mesa.
Mas nesse instante Bruno já havia tomado dois goles da bebida.
O efeito teria sido quase imediato.
“Eu comecei a passar mal muito rápido.”
Bruno conta que costuma consumir bebidas alcoólicas e que aquela era apenas sua terceira cerveja da noite.
Mesmo assim começou a perder completamente a coordenação motora.
Foi então que ouviu uma frase que nunca esqueceu.
“Você vai comigo para o quarto.”
Ele explicou que naquele momento já estava confuso.
Desorientado.
Sem conseguir reagir adequadamente.
O amigo precisou praticamente carregá-lo até o carro.
Durante o trajeto de volta para casa, vomitou diversas vezes.
Também sofreu apagões de memória.
“Eu não lembro de muita coisa.”
Segundo ele, só não aconteceu algo mais grave porque o amigo chegou antes do horário combinado.
“Se ele não tivesse chegado naquele momento, eu não sei o que teria acontecido.”
Hoje Bruno não aceita bebidas abertas oferecidas por desconhecidos.
“Só se abrir na minha frente.”
Em 14 anos vivendo em Berlim, afirma que foi a única situação desse tipo que enfrentou pessoalmente.
Mas diz conhecer outras pessoas que relatam experiências semelhantes.
Uma corrente de prata, um banheiro e o medo de não conseguir reagir.

Outro relato recebido pelo Mais Berlim ocorreu em um estabelecimento da região de Neukölln.
A vítima pediu anonimato.
E conta que tudo começou após conhecer um homem durante a noite.
Mais tarde os dois seguiram para outro local.
Enquanto um conhecido jogava bilhar, ela permaneceu sentada próxima ao balcão.
Foi então que um segundo homem iniciou conversa.
Segundo o relato, ele perguntou várias vezes se ela estava sozinha.
“Ele perguntou duas ou três vezes.”
Em determinado momento colocou uma corrente de prata em sua mão.
A vítima acredita que foi exatamente naquele instante que sua bebida foi adulterada.
“Eu fiquei olhando para a corrente sem entender por que ele estava me dando aquilo.”
Depois começaram os sintomas.
Outros homens apareceram.
Um deles a conduziu até um banheiro.
Ali a situação ficou ainda mais estranha.
A vítima lembra que o homem mostrou drogas e dinheiro.
E afirma ter percebido que estava em perigo.
“Eu comecei a entrar em estado de alerta.”
Mesmo confusa, a vítima conseguiu sair do banheiro.
Do lado de fora encontrou novamente o conhecido que a acompanhava naquela noite.
Mas percebeu que não encontrava suas chaves.
Enquanto ele retornava ao interior do estabelecimento para procurá-las, dois homens se aproximaram.
Eles começaram a tocar seu corpo e tentar retirar suas roupas.
Ela afirma que naquele momento já tinha dificuldade de reagir e de compreender totalmente o que estava acontecendo.
O conhecido retornou e interrompeu a situação.
Pouco depois ela perdeu completamente as forças.
Uma ambulância foi chamada.
A vítima registrou ocorrência junto à polícia.
Meses depois foi informada de que não haviam sido encontradas imagens que permitissem avançar na investigação.
A vítima acredita que se tratava de uma ação coordenada envolvendo mais de uma pessoa.
“Para mim estava claro que era uma gangue.”
Ela afirma que o homem que acredita ter colocado algo em sua bebida não foi o mesmo que posteriormente a abordou do lado de fora do estabelecimento.
“Ela simplesmente decidiu me drogar”
Outro relato recebido pelo Mais Berlim aconteceu durante uma festa de aniversário em Berlim.
A vítima também pediu anonimato.
Naquela noite estava com forte dor de cabeça e pretendia ir embora.
Amigos insistiram para que permanecesse mais algum tempo.
Uma das convidadas ofereceu um suposto remédio.
Depois disso, as lembranças tornam-se fragmentadas.
A pessoa recorda apenas flashes.
Conversas.
Momentos de dança.
Trechos desconexos da noite.
No dia seguinte veio a descoberta.
Segundo o relato, a substância oferecida como remédio era, na verdade, ópio.
“Ela simplesmente decidiu que podia me drogar.”
A vítima afirma que nunca recebeu explicações convincentes sobre o episódio.
O caso nunca foi investigado formalmente.
Mas permanece como uma das experiências mais perturbadoras relatadas durante esta apuração.
“Até hoje tenho pânico do Carnaval de Colônia”
A brasileira Joanna Silva conta que sua vida mudou durante o Carnaval de Colônia.
O episódio ocorreu antes da pandemia.
Naquele dia ela viajou até a cidade acompanhada de uma amiga.
Como muitos foliões, carregava uma bebida preparada previamente.
Joanna diz que não havia consumido grande quantidade de álcool.
A última lembrança que possui é de quando entrou em um banheiro.
Depois disso, nada.
Horas mais tarde despertou em um hospital.
Estava deitada no chão de um corredor.
Molhada.
Suja.
Sem entender onde estava.
Sem saber como havia chegado ali.
Sem conseguir reconstruir o que tinha acontecido.
Sua primeira reação foi ir embora.
Saiu do hospital.
Foi até a estação de trem.
Telefonou para um amigo.
E voltou para casa chorando.
“Eu não sabia o que tinha acontecido comigo.”
Meses depois recebeu uma cobrança relacionada ao atendimento de emergência prestado naquele dia.
Posteriormente procurou um médico.
Segundo Joanna, ele afirmou que existia grande possibilidade de sua bebida ter sido adulterada.
Mas diante da quantidade de pessoas presentes no Carnaval de Colônia seria extremamente difícil descobrir o que aconteceu.
Até hoje ela evita participar da festa.
“Tenho pânico do Carnaval de Colônia.”
O relato mais antigo: Essen
Entre os relatos recebidos pelo Mais Berlim existe um que permanece doloroso mais de uma década depois.
Uma mãe contou à reportagem a história da filha.
O episódio foi em Essen, há cerca de onze anos.
Na época, a jovem tinha apenas 15 anos.
Alguém colocou uma substância em sua bebida durante uma festa.
Ela passou mal.
Foi levada para um quarto para descansar.
Mas a situação não terminou ali.
Segundo a mãe, a adolescente permaneceu consciente durante todo o episódio.
Ela sabia o que estava acontecendo ao seu redor.
Mas não conseguia se mover.
Não conseguia reagir.
Não conseguia pedir ajuda.
A mãe afirma que a situação “chegou ao extremo”, mas prefere não divulgar mais detalhes para preservar a privacidade da filha.
O trauma foi tão profundo que a jovem levou anos para falar sobre o assunto.
Nem a própria mãe sabia o que havia acontecido.
A revelação só veio cerca de seis anos depois do episódio.
Mãe e filha assistiam juntas a um programa de televisão alemão sobre K.O.-Tropfen quando a jovem começou a chorar.
Foi naquele momento que decidiu contar sua história.
Segundo a mãe, a filha carregou sozinha o peso daquela experiência durante anos.
Sem registrar ocorrência.
Sem procurar ajuda especializada.
Sem compartilhar o que havia vivido nem mesmo com familiares próximos.
A mãe contou ao Mais Berlim que até hoje a jovem prefere não falar publicamente sobre o assunto.
“A estratégia dela é esquecer e silenciar”, relatou.
A mãe decidiu compartilhar a história de forma anônima porque acredita que outras pessoas precisam ser alertadas.
“Quando a gente é jovem, acha que uma coisa dessas nunca vai acontecer numa festa de amigos.”
“Mas pode acontecer.”
Ela também faz um alerta que considera importante.
“Muitas vezes as pessoas pensam que o perigo vem de desconhecidos. Mas também é preciso ter cuidado com o círculo de conhecidos e com pessoas que frequentam os mesmos ambientes.”
Segundo a mãe, o homem envolvido no episódio era um convidado da festa que sua filha não conhecia.
Mais de uma década depois, ela afirma que ainda sofre ao lembrar que não pôde proteger a filha do que aconteceu naquela noite.
“Essas pessoas destroem almas.”
Um padrão que se repete
Embora os casos tenham ocorrido em cidades diferentes, em contextos específicos e períodos distintos, vários elementos se repetem nos relatos ouvidos pelo Mais Berlim.
As vítimas descrevem:
- sensação repentina de desorientação;
- perda de memória;
- dificuldade para permanecer em pé;
- apagões;
- náuseas;
- vômitos;
- incapacidade de reagir;
- desaparecimento de pertences;
- dificuldade para reunir provas posteriormente.
Em muitos casos, as pessoas só perceberam a gravidade da situação horas depois, quando a oportunidade de realizar exames toxicológicos já havia passado.
Os relatos também mostram que o fenômeno não está restrito a um único tipo de ambiente.
As ocorrências mencionadas nesta reportagem ocorreram em festas brasileiras, bares, eventos de rua, ambientes privados e grandes celebrações públicas.
O que são os K.O.-Tropfen

Embora a expressão “Boa Noite Cinderela” seja amplamente utilizada no Brasil, na Alemanha o termo mais comum é K.O.-Tropfen, algo que poderia ser traduzido livremente como “gotas que apagam”.
A farmacêutica Mikaella Miranda Siqueira, pós-graduada em Farmácia Clínica e Prescrição Médica pelo Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ), explica que não se trata de uma substância única.
Na verdade, o termo engloba diferentes drogas capazes de provocar sedação, perda de memória, confusão mental e incapacidade de reação.
“Muitas dessas substâncias são incolores e praticamente não possuem sabor, o que facilita sua administração sem que a vítima perceba”, explica.
Segundo a especialista, os principais grupos utilizados nesses casos são:
- Benzodiazepínicos;
- Ácido gama-hidroxibutírico (GHB);
- Ketamina.
Os benzodiazepínicos são medicamentos prescritos para ansiedade severa e distúrbios do sono.
Já o GHB foi originalmente estudado como anestésico e pode provocar depressão profunda do nível de consciência.
A ketamina, por sua vez, é um anestésico dissociativo utilizado em procedimentos médicos.
“Embora diferentes substâncias possam ser usadas indevidamente, elas podem ser agrupadas em três pilares principais, de acordo com o mecanismo de ação sobre o sistema nervoso central”, alerta.
Por que elas são tão perigosas
Segundo Mikaella Siqueira, um dos principais riscos é a combinação dessas substâncias com álcool.
“O efeito pode ser potencializado de forma exponencial.”
Além da sedação profunda, os efeitos podem incluir:
- perda de memória;
- relaxamento muscular;
- dificuldade de reação;
- alterações de consciência;
- confusão mental;
- incapacidade de locomoção;
- depressão respiratória.
Em casos extremos, podem levar à morte.
Os benzodiazepínicos costumam provocar bloqueio na formação de novas memórias.
O GHB produz rápida sedação e perda de consciência.
Já a ketamina pode criar um estado dissociativo no qual a pessoa permanece parcialmente consciente, mas incapaz de reagir adequadamente ao ambiente.
“A vítima pode aparentar estar acordada, mas encontra-se desconectada da realidade e sem condições de tomar decisões”, explica.
O tempo é o maior inimigo das investigações

Um dos maiores desafios para as autoridades é a rápida eliminação dessas substâncias pelo organismo.
Segundo Mikaella Siqueira:
- Benzodiazepínicos podem permanecer ativos por até 12 horas;
- GHB costuma desaparecer em cerca de 3 horas;
- Ketamina pode deixar de ser detectável após aproximadamente 2 horas.
A resposta enviada pela Polícia de Berlim ao Mais Berlim confirma essa dificuldade.
Segundo a corporação, o GHB pode ser detectado no sangue por apenas cinco a seis horas.
Na urina, o prazo costuma chegar a aproximadamente onze horas.
Após esse período, as chances de comprovação diminuem drasticamente.
“A oportunidade para coleta de provas é extremamente curta”, destacou a polícia.
Esse detalhe ajuda a explicar por que muitos casos acabam sem confirmação laboratorial.
As vítimas frequentemente despertam horas depois dos acontecimentos, ainda desorientadas e sem compreender exatamente o que ocorreu.
Polícia de Berlim: número de casos quase 11 vezes maior que em 2016

Os dados enviados pela Polícia ao Mais Berlim mostram uma evolução que preocupa as autoridades.
Os registros envolvendo os termos “KO-Wirkstoff”, Ketamina, GHB e Rohypnol passaram de 52 casos em 2016 para 569 casos em 2025.
Trata-se de um crescimento de aproximadamente 994%.
Segundo a polícia, a maior parte dos registros não está relacionada exclusivamente a crimes sexuais.
Os casos incluem também:
- roubos;
- lesões corporais;
- furtos;
- situações em que a vítima perde completamente a capacidade de reação.
A corporação informou que não tem dados sobre a subnotificação, mas reconhece que ela provavelmente é elevada.
O que aparece nos exames toxicológicos

A Polícia de Berlim também forneceu ao Mais Berlim uma lista das substâncias mais frequentemente identificadas em análises laboratoriais realizadas pelo setor de criminalística da corporação ao longo de 2025.
Os resultados incluem substâncias que podem ser utilizadas como K.O.-Mittel.
As mais detectadas foram:
| Substância | Casos |
| Álcool (etanol) | 62 |
| Cocaína | 32 |
| Anfetamina | 19 |
| THC | 17 |
| MDMA | 11 |
| Ketamina | 11 |
| Difenidramina | 10 |
| Metanfetamina | 8 |
| GHB | 7 |
| Pregabalina | 7 |
| Diazepam | 6 |
A polícia ressalta, porém, que esses resultados não permitem concluir automaticamente que houve crime.
Segundo a corporação, não é possível determinar apenas pelo exame se a substância foi consumida voluntariamente ou administrada por terceiros.
ZIF defende penas mais duras
O crescimento dos casos levou o tema ao debate político nacional.
Em dezembro de 2025, o Centro de Informação Central dos Abrigos Autônomos para Mulheres (ZIF) apresentou um parecer ao governo alemão defendendo o endurecimento das penas relacionadas ao uso de K.O.-Tropfen.
O Centro apoia mudanças legislativas que equiparem o uso dessas substâncias ao emprego de meios particularmente perigosos em crimes sexuais e roubos.
Em maio deste ano, o governo federal avançou com uma proposta para aumentar a pena mínima aplicável nesses casos de dois para cinco anos de prisão.
No documento enviado ao Ministério Federal da Justiça, o ZIF afirma:
“A classificação dos K.O.-Tropfen como meio perigoso pode ter um efeito simbólico importante para a sociedade.”
Mas ressalta que a punição, sozinha, não resolverá o problema.
“O fator decisivo para uma sociedade livre de violência é a prevenção consistente.”
“Berlim diz não”
O ZIF também participa da campanha “Berlin sagt Nein zu K.O.-Tropfen” (“Berlim diz não às drogas de violação”).
A iniciativa reúne instituições de apoio às vítimas, profissionais da saúde, organizações de prevenção e grupos da sociedade civil.
A campanha destaca que homens, mulheres e pessoas LGBTQIA+ podem ser vítimas.
Além disso, enfatiza a necessidade de:
- campanhas educativas permanentes;
- atendimento especializado;
- acolhimento das vítimas;
- coleta rápida de provas;
- combate à culpabilização das pessoas afetadas.
A subnotificação preocupa
Segundo o ZIF, um dos maiores desafios continua sendo a quantidade de casos que nunca chegam ao conhecimento das autoridades.
“A subnotificação desses crimes é extremamente alta.”
A organização afirma que muitas vítimas:
- sentem vergonha;
- não conseguem reconstruir os acontecimentos;
- têm medo de não serem acreditadas;
- evitam reviver o trauma.
Por isso, o ZIF defende treinamento especializado para profissionais da saúde, policiais e integrantes do sistema de Justiça.
O objetivo é evitar situações de revitimização.
“Perguntas que culpabilizam as vítimas devem pertencer ao passado.”
O que dizem os organizadores de eventos
O Mais Berlim também procurou organizadores de festas brasileiras em Berlim para entender como o tema está sendo tratado dentro da comunidade.
Bossa FM
A organização da Bossa FM informou que a segurança do público é prioridade.
Segundo a produtora, já houve relatos de situações suspeitas em eventos anteriores, motivo pelo qual protocolos preventivos vêm sendo reforçados.
A Bossa FM afirmou que realiza alinhamentos constantes com equipes de segurança e busca agir rapidamente diante de qualquer ocorrência.
A organização também declarou que procura impedir a entrada de pessoas envolvidas em incidentes anteriores sempre que isso é possível.
Bruta Flor
O produtor Aurélio Santos, da Bruta Flor, afirmou que nunca registrou casos graves em seus eventos ao longo dos últimos oito anos.
Segundo ele, o foco agora é ampliar as medidas preventivas e incentivar denúncias imediatas.
Forró di Kenga reforça awareness
A produtora Bruna Veiga, do Forró di Kenga, informou ao Mais Berlim que nunca registrou casos desse tipo em seus eventos.
Segundo ela, a festa conta com uma equipe de Awareness e adota medidas preventivas em todas as edições.
A anfitriã da festa, Gabi, costuma apresentar ao público as regras de convivência, acolhimento e segurança no início dos eventos.
Além disso, a produção orienta a equipe do bar a observar pessoas que aparentem estar excessivamente alteradas e continuem solicitando bebidas.
Segundo Bruna, a prevenção e a atenção aos sinais de vulnerabilidade fazem parte da política permanente da festa.
Maloca Berlin
O produtor Ricci Ferreira, da Maloca Berlin, afirmou que acompanha o tema com preocupação.
Segundo ele, existe atualmente uma suspeita envolvendo um frequentador, que relatou perda de memória e desaparecimento de pertences.
Até o momento da entrevista, os resultados laboratoriais ainda não haviam sido divulgados.
Ricci afirma que pretende ampliar ações de awareness e comunicação direta com o público.
Entre as medidas estudadas estão:
- avisos constantes durante festas;
- reforço da equipe de awareness;
- campanhas educativas;
- criação de uma rede de troca de informações entre organizadores.
“A gente precisa continuar fazendo das nossas festas espaços seguros.”
Ricci também defende a criação de mecanismos de cooperação entre produtores para impedir a circulação de pessoas identificadas em episódios de violência ou comportamento predatório.
O que fazer se você suspeitar de K.O.-Tropfen
A Polícia de Berlim orienta que qualquer suspeita seja tratada imediatamente.
As recomendações incluem:
Durante a festa
- Nunca deixar bebidas desacompanhadas;
- Aceitar apenas bebidas fechadas ou abertas diante de você;
- Evitar consumir bebidas com sabor ou cheiro incomum;
- Observar mudanças repentinas em amigos.
Se algo parecer errado
- Procurar imediatamente funcionários, seguranças ou amigos;
- Não sair sozinho com desconhecidos;
- Acionar socorro médico em casos de desorientação grave ou perda de consciência.
Se houver suspeita de adulteração
- Procurar imediatamente um hospital;
- Solicitar coleta de sangue e urina;
- Guardar copos, garrafas e outros possíveis vestígios;
- Evitar tomar banho caso exista possibilidade de crime sexual;
- Registrar ocorrência policial o mais rápido possível.
A Polícia de Berlim destaca que a rapidez é decisiva.
Em alguns casos, substâncias como o GHB podem desaparecer do sangue em apenas cinco ou seis horas.
Uma discussão que está longe de terminar
Os dados oficiais mostram que os registros de suspeitas envolvendo K.O.-Tropfen cresceram fortemente em Berlim na última década.
Os relatos reunidos pelo Mais Berlim indicam que o problema não está restrito a um único tipo de evento, bairro ou público.
As histórias ouvidas pela reportagem aconteceram em festas brasileiras, bares, eventos de rua, ambientes privados e grandes celebrações públicas.
Nem todos os casos foram confirmados por exames laboratoriais.
Mas todos deixaram marcas.
Em alguns casos, físicas.
Em outros, emocionais.
A Polícia de Berlim afirma que o principal desafio continua sendo a rápida eliminação dessas substâncias do organismo e a dificuldade de reunir provas.
Enquanto autoridades discutem mudanças na legislação e especialistas defendem mais prevenção, vítimas seguem enfrentando não apenas os efeitos físicos dos episódios, mas também as consequências emocionais de experiências que muitas vezes permanecem sem respostas.
O Mais Berlim também aguarda respostas adicionais da Polícia de Berlim sobre os casos relatados nesta reportagem, incluindo o episódio envolvendo Gissauro Araújo.
Augusto Medeiros é jornalista há 25 anos, formado pela Universidade Federal da Paraíba, atuou no Brasil como repórter de rede, na TV Globo, por 15 anos, com reportagens para Jornal Nacional, Fantástico, Jornal Hoje, Bom Dia Brasil, Jornal da Globo e Globo News. Na Alemanha, passou a atuar como correspondente internacional para o Fantástico, em coberturas como a Guerra da Ucrânia e a Crise Energética. É fundador e editor-chefe do portal Mais Berlim.
Jornalista com mais de 20 anos de experiência em TV. É editora/apresentadora no InfoMoney. Foi editora no Jornal Hoje e Gerente de relacionamento com a Rede Globo, na TV Integração.
Jornalista formado pela Universidade de Ribeirão Preto. Acumula passagens por g1 e ge, além de colaborações em veículos como O Estado de Minas e UOL.



