
Texto original criado por Mais Berlim
O inverno na Alemanha traz dias mais curtos, o sol aparece menos e a rotina muda. Para muitos brasileiros que vivem em Berlim e em outras cidades do país, esse período vem não só com o frio, mas também com alterações no humor, na energia e na disposição.
Mas afinal: isso é apenas uma sensação ou existe, de fato, uma relação entre inverno e depressão?
O Mais Berlim ouviu especialistas para entender o que está por trás dessas mudanças — e como cuidar da saúde mental nessa época do ano.
Depressão vai muito além da tristeza

Segundo o médico pós-graduando em psiquiatria Guilherme Medeiros, é importante começar desmistificando o conceito de depressão.
“Quando falamos em depressão, não é só tristeza. É uma condição médica que afeta o humor, a energia, o sono, o apetite e, principalmente, a capacidade de sentir prazer.”
Ele explica que nem sempre a depressão se manifesta com choro ou emoções intensas.
“Às vezes, o que mais chama atenção é o oposto: a pessoa vai ficando mais apática, sem vontade, cansada emocionalmente.”
Apesar da complexidade, há um ponto essencial:
“Depressão tem tratamento e tem recuperação.”
Existe mesmo ‘depressão de inverno’?

A resposta é: sim, mas com nuances.
De acordo com Guilherme, existe uma condição chamada transtorno afetivo sazonal, que ocorre em algumas pessoas durante períodos com menos luz solar.
“A luz influencia diretamente o nosso relógio biológico e substâncias cerebrais ligadas ao humor. Com dias mais curtos, algumas pessoas apresentam mais cansaço, sonolência, aumento do apetite e queda do humor.”
O psicoterapeuta Gabriel Vila Nova reforça que o inverno alemão pode sim impactar o bem-estar emocional, mas faz um alerta importante:
“Nem todo sintoma depressivo caracteriza um transtorno depressivo maior. A depressão é multifatorial — nunca é uma coisa só.”
Ou seja: o inverno pode contribuir, mas não é o único fator.
Por que o inverno pesa mais para quem mora na Alemanha?

Além da redução da luz solar, há mudanças no estilo de vida que também influenciam:
- Menos tempo ao ar livre
- Redução do convívio social
- Maior isolamento
- Rotina mais sedentária
Para brasileiros vivendo fora, existe ainda um fator importante destacado por Gabriel:
“Muitas pessoas têm pouca rede de apoio na Alemanha. E essa rede é fundamental — tanto para o convívio quanto para ajudar a perceber quando é hora de buscar ajuda.”
Segundo ele, amigos e pessoas próximas podem ser essenciais para identificar sinais que, sozinho, nem sempre são percebidos.
Vitamina D: qual o papel dela nisso tudo?
A vitamina D costuma ser um dos temas mais comentados no inverno — e com razão.
Guilherme explica:
“Níveis baixos de vitamina D estão associados a maior risco de sintomas depressivos, embora não seja a causa única.”
Mas ele faz um alerta importante:
“Nem todo mundo precisa suplementar. O ideal é avaliar com exame de sangue e fazer reposição com orientação médica.”
Serotonina, exercício e bem-estar

A educadora física Sônia de Oliveira destaca que a atividade física tem um papel fundamental, especialmente no inverno.
“Quando a gente se exercita, libera serotonina, conhecida como o hormônio do bem-estar. E uma das principais fontes naturais dela também é o sol — que fica escasso nessa época.”
Ela explica que a serotonina está ligada a diversos aspectos do corpo:
- Humor
- Sono
- Apetite
- Sensibilidade à dor
Com menos luz solar, o corpo tende a buscar compensações — muitas vezes na alimentação.
“O exercício ajuda a equilibrar isso, melhora o humor, o sono e até o controle do peso.”
E não precisa exagerar:
“Trinta minutos por dia já são suficientes.”
Sono, rotina e saúde mental
Outro ponto essencial destacado pelos especialistas é o sono.
“Dormir mal altera diretamente os circuitos cerebrais do humor”, explica Guilherme.
A recomendação inclui práticas simples de higiene do sono:
- Manter horários regulares
- Reduzir o uso de telas à noite
- Dormir em ambiente escuro
Além disso, manter uma rotina equilibrada com alimentação adequada e atividade física faz parte do cuidado integral.
O papel das relações e do propósito

Gabriel reforça que saúde mental não se constrói apenas com hábitos físicos.
“A qualidade das relações, sentir que você pode ser quem é, ter objetivos e hobbies — tudo isso dá cor à vida e protege contra sintomas depressivos.”
Ele destaca que, quando esses pilares não são suficientes, buscar ajuda profissional é fundamental.
Tratamento: um caminho integrado
Os especialistas concordam: não existe uma única solução.
A abordagem mais eficaz envolve:
- Mudanças no estilo de vida
- Psicoterapia
- E, quando necessário, tratamento medicamentoso
“A depressão envolve fatores biológicos, psicológicos e sociais. Por isso, o tratamento precisa ser integrado”, resume Guilherme.
Quando procurar ajuda?

Se os sintomas persistem por semanas, afetam a rotina ou tiram o prazer das atividades, é importante buscar apoio.
A rede de apoio pode ser o primeiro passo — mas profissionais são essenciais no cuidado.
Conclusão
O inverno pode, sim, impactar a saúde mental — especialmente em um país como a Alemanha, onde a luz natural diminui drasticamente. Mas ele não é o único fator.
A depressão é uma condição complexa, que envolve corpo, mente e contexto de vida.
A boa notícia é que existem caminhos — e quanto antes o cuidado começa, melhores são as chances de recuperação.
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Augusto Medeiros é jornalista brasileiro radicado em Berlim, editor-chefe e fundador do Portal Mais Berlim. Atua na cobertura de cultura, sociedade, diversidade, empreendedorismo e cotidiano na Alemanha, com foco na experiência de brasileiros e comunidades internacionais no país. Produz reportagens autorais, entrevistas e conteúdos multilíngues que conectam Brasil e Alemanha com informação, contexto e sensibilidade.

