https://maisberlim.com/ Notícias e serviços para brasileiros em Berlim e na Alemanha Tue, 25 Aug 2026 13:31:38 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://maisberlim.com/wp-content/uploads/2026/06/cropped-logo-3-32x32.png https://maisberlim.com/ 32 32 Praia de plástico em Berlim une saber ancestral e IA para provocar debate sobre crise climática https://maisberlim.com/praia-plastico-berlim-seudo-antropobsceno-ia-crise-climatica/ Tue, 25 Aug 2026 12:41:22 +0000 https://maisberlim.com/?p=1714 Artista argentino Seudo apresenta em Berlim “Antropobsceno”, exposição que une saberes ancestrais dos Andes, inteligência artificial e debate climático.

O post Praia de plástico em Berlim une saber ancestral e IA para provocar debate sobre crise climática apareceu primeiro em .

]]>
Plastic Beach: Instalação provocativa de Seudo

Em “Antropobsceno”, artista argentino Seudo recupera conhecimentos agrícolas dos Andes para pensar o futuro da alimentação; brasileiro parte da Prachtsaal alerta para concentração de riqueza com novas tecnologias

Uma praia tomada por plástico ocupa parte de uma galeria em Berlim. A imagem criada pelo artista argentino Seudo é irônica e incômoda, mas a intenção não é apenas denunciar os impactos da ação humana sobre o planeta. Em “Antropobsceno”, o artista procura também apresentar uma proposta: recuperar conhecimentos agrícolas ancestrais e colocá-los em diálogo com tecnologias contemporâneas, como a inteligência artificial.

A instalação está na Prachtsaal, espaço artístico em Neukölln, que tem o brasileiro Stephan Vankuyk, como um dos gestores da galeria e curador da exposição.

A finissage está marcada para está terça-feira, 25, das 17 as 22 horas.

Em entrevista ao Mais Berlim, Seudo explicou que a ideia surgiu justamente da vontade de ultrapassar a crítica.

Seudo, solução além da crítica. Foto: divulgação

“Em vez de gerar uma crítica de que o mundo está indo para um lugar que não beneficia nenhum de nós, me parece que a nenhum de nós, [quis] gerar uma proposta”, afirma.

Essa proposta passa por olhar para o passado para discutir um dos maiores desafios do presente: como produzir alimentos para uma população crescente sem aumentar a degradação dos solos e dos recursos naturais.

O que significa “Antropobsceno”?

Exposição no Prachtsaal, em Berlim. Foto: Seudo

“Antropobsceno” é a quarta parte de um projeto dividido em cinco trabalhos e parte do conceito de Antropoceno.

Questionado pelo Mais Berlim sobre o nome, Seudo confirmou: “É um jogo de palavras ligado a esta era geológica que alguns cientistas chamam de Antropoceno.”

O termo ganhou espaço nas últimas décadas para discutir a dimensão das transformações provocadas pela humanidade sobre os sistemas terrestres. Apesar de seu amplo uso no debate científico e ambiental, o Antropoceno não foi formalmente reconhecido como uma nova época na escala geológica internacional.

Na obra de Seudo, essa interferência humana ganha uma representação bastante concreta: plástico.

Uma praia onde o plástico ocupa o lugar da natureza

Praia do futuro?

Uma das instalações transforma o espaço da galeria em uma espécie de praia coberta por resíduos plásticos.

Para Seudo, o exagero e o desconforto fazem parte da linguagem da obra.

“É um pouco também de ironia, de acidez. Gosto de jogar com essas coisas, me parece que impacta muito mais”, disse ao Mais Berlim.

A praia funciona como uma provocação sobre a enorme produção de plástico e sua presença cada vez maior no ambiente.

Mas é quando o visitante encontra o contraponto à praia que a proposta de “Antropobsceno” ganha outra dimensão.

Se de um lado está um dos materiais que simbolizam a sociedade industrial contemporânea, do outro aparecem conhecimentos desenvolvidos muito antes das tecnologias atuais.

Os terraços agrícolas dos Andes

Uma segunda instalação resgata cultura inca.
Foto: Seudo

Seudo direciona o olhar para as terrazas de cultivo, conhecidas no Peru como andenes: sistemas de terraços construídos nas encostas das montanhas para possibilitar a agricultura em terrenos inclinados e auxiliar no manejo da água e do solo.

Embora sejam frequentemente associados aos incas, esses conhecimentos agrícolas são mais antigos que o próprio Império Inca e foram desenvolvidos por diferentes sociedades andinas ao longo de milhares de anos.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) destaca que os sistemas agrícolas andinos são resultado de mais de 5 mil anos de adaptação ao ambiente. Terraços, sistemas de irrigação e o cultivo de diferentes espécies em diferentes altitudes permitiram às populações produzir alimentos em uma geografia particularmente desafiadora.

Essas técnicas não desapareceram com as civilizações que as desenvolveram.

Comunidades andinas ainda mantêm sistemas tradicionais de agricultura. No Peru, iniciativas governamentais procuram inclusive recuperar andenes por seu potencial para conservação do solo, aproveitamento da água e produção agrícola.

Estudos do Instituto Geofísico do Peru também apontam benefícios contra a erosão. Pesquisa realizada em áreas agrícolas encontrou redução de cerca de 33% na erosão do solo em terrenos com terraços em comparação com áreas sem essas estruturas.

É esse conhecimento que Seudo quer trazer para uma discussão contemporânea.

O encontro entre conhecimento ancestral e inteligência artificial

Seudo também traz obras a preços acessíveis para democratizar a arte. Foto: Seudo

“Resgatar conhecimentos ancestrais, como são as terrazas de cultivos incaicas, que têm dois mil anos de história e subsistem até hoje, e uni-las às novas tecnologias, como pode ser a IA”, explicou Seudo.

A intenção, segundo ele, seria “gerar alimentos sem danificar tanto o solo, as terras” e buscar caminhos para enfrentar o desafio de alimentar a população mundial.

A referência aos dois mil anos corresponde à explicação do próprio artista. Historicamente, porém, a tradição agrícola andina é ainda mais antiga e envolve diferentes povos anteriores aos incas.

Na exposição, portanto, a IA não é apresentada como uma solução científica pronta para as mudanças climáticas. Ela aparece dentro de uma proposição artística: imaginar o que poderia acontecer se ferramentas tecnológicas atuais fossem combinadas com conhecimentos acumulados e testados por populações durante gerações.

Mas dentro da própria mostra existe uma visão mais crítica sobre essa promessa tecnológica.

“Vão servir para acumular grandes fortunas no bolso de poucos”

Stephan Vankuyk: compromisso com novos artistas

O brasileiro Stephan Vankuyk, um dos responsáveis pela Prachtsaal e curador da exposição, acompanha o trabalho de Seudo há cerca de 20 anos.

Para Stephan, referências às culturas pré-colombianas não surgiram agora na produção do artista.

“A proposta nova dele trata muito sobre as realidades climáticas que a gente está vivendo, mas reinterpretando as inspirações incas, maias e astecas que ele sempre teve no trabalho dele. Foi algo que desde as primeiras exposições que a gente fez juntos já dava para ver”, conta.

O que mudou é a maneira como essas referências passaram a dialogar com questões contemporâneas.

“Agora ele está usando isso como uma ferramenta sarcástica para analisar novas tecnologias”, afirma Stephan.

E, enquanto Seudo imagina a possibilidade de aproximar conhecimentos ancestrais e ferramentas como a IA, Stephan introduz uma crítica à maneira como essas tecnologias vêm sendo apresentadas à sociedade.

“Essas novas tecnologias são apresentadas para a gente como a solução para todos os nossos problemas”, diz.

O galerista, entretanto, questiona quem efetivamente será beneficiado por elas.

“Eu acho que, muito mais que solução, a IA, essas novas tecnologias, só vão servir para acumular grandes fortunas no bolso de poucos. História que a gente já conhece e já viu antes.”

As duas perspectivas não precisam produzir uma resposta única. Pelo contrário: ajudam a transformar a exposição em uma discussão sobre qual tecnologia queremos, de onde vem o conhecimento utilizado por ela e quem se beneficia dos resultados.

Uma parceria que começou com dois quadros em Buenos Aires

Obras de Seudo na galeria Prachtsaal

A presença de Seudo na Prachtsaal também é resultado de uma relação que começou cerca de duas décadas atrás, muito antes da atual exposição em Berlim.

Stephan lembra que estava inaugurando sua primeira galeria em Buenos Aires quando Seudo apareceu.

“O Seudo apareceu no dia da abertura da minha primeira galeria. Apareceu com uma cara de cão sem dono, com dois quadros embaixo do braço, dizendo que leu no Facebook que eu estava abrindo uma galeria e queria saber se podia mostrar os quadros.”

Stephan decidiu abrir espaço para o então desconhecido artista.

“Para mim sempre foi muito importante dar espaço para artistas sub-representados no mundo artístico, artistas que são esquecidos pelo mainstream, pelo mundo das artes.”

Ele conta que gostou do trabalho e permitiu que Seudo ocupasse um espaço na galeria.

“Isso foi há vinte anos e, desde então, a gente vem trabalhando junto, às vezes mais, às vezes menos.”

Duas décadas depois daquele encontro em Buenos Aires, a parceria chegou novamente a Berlim.

“Foi muito satisfatório saber que eu tive um impacto tão grande na carreira desse grande artista”, afirma Stephan.

Para o galerista brasileiro, existe ainda outra dimensão nesse trabalho: ampliar a presença latino-americana no circuito europeu.

“É legal ter uma oportunidade de trazer os artistas latinos e encontrar um espaço para exibi-los na Europa.”

Outros artistas dividem o espaço

Obra do alemão MIMA é parte da mostra coletiva e fala sobre o abuso de substâncias

A mostra na Prachtsaal não se limita ao trabalho de Seudo.

Dentro do espaço expositivo, uma área reúne também trabalhos de outros artistas, ampliando a proposta da galeria de colocar diferentes produções e trajetórias em contato com o público berlinense.

É nesse ambiente que a praia de plástico de “Antropobsceno” encontra seu lugar.

A instalação começa com uma imagem de degradação, mas termina colocando uma questão que atravessa passado e futuro.

De um lado, uma sociedade que ainda procura uma saída para a quantidade de plástico que produz. Do outro, técnicas agrícolas desenvolvidas por sociedades que aprenderam durante milhares de anos a produzir alimentos em alguns dos terrenos mais difíceis do planeta.

No meio desses dois mundos está uma tecnologia que promete transformar o futuro — e sobre a qual artista e curador levantam perguntas diferentes.

O conhecimento necessário para enfrentar a crise ambiental virá das máquinas, do passado ou da combinação entre os dois? E, se a tecnologia fizer parte da resposta, quem terá acesso aos seus benefícios?

“Antropobsceno” deixa essas perguntas abertas.

Prachtsaal
Jonasstraße 22
12053 Berlin-Neukölln

Fontes

Entrevistas exclusivas de Seudo e Stephan Vankuyk ao Mais Berlim; material da exposição “Antropobsceno”; Prachtsaal; Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO); fontes oficiais do governo peruano e Instituto Geofísico do Peru.

Essa matéria é parte do projeto Mais Art, lançado pelo Mais Berlim para proporcionar oportunidades a artistas independentes.

O post Praia de plástico em Berlim une saber ancestral e IA para provocar debate sobre crise climática apareceu primeiro em .

]]>
Um cemitério com 7 mil soldados soviéticos em Berlim: curiosidades e a história do memorial que celebra a derrota da Alemanha nazista https://maisberlim.com/memorial-sovietico-berlim-sete-mil-soldados-cemiterio/ Fri, 21 Aug 2026 20:24:02 +0000 https://maisberlim.com/?p=1674 Um cemitério com 7 mil soldados soviéticos em Berlim. Conheça o memorial que conta parte da história da Segunda Guerra Mundial, possui uma estátua de 13 metros e celebra a derrota da Alemanha nazista, de Hitler.

O post Um cemitério com 7 mil soldados soviéticos em Berlim: curiosidades e a história do memorial que celebra a derrota da Alemanha nazista apareceu primeiro em .

]]>
Homenagem aos soldados soviéticos em Berlim

No meio do Treptower Park, em Berlim, existe um enorme memorial soviético que também é um cemitério de guerra. Mais de 7 mil integrantes do Exército Vermelho estão sepultados no complexo, construído depois da Segunda Guerra Mundial para homenagear os mortos e celebrar a vitória soviética sobre a Alemanha nazista.

A visita ao memorial abre caminho para entender não apenas o monumento, mas acontecimentos que transformaram Berlim, a Alemanha e o mundo.

Neste artigo, entenda:

  • Como mais de 7 mil soldados soviéticos foram parar no Treptower Park.
  • Onde estão os soldados enterrados dentro do memorial.
  • Por que existem cinco grandes campos de gramado.
  • Por que existem 16 sarcófagos monumentais.
  • O que dizem as frases de Josef Stalin gravadas no memorial.
  • Quem foi Stalin.
  • Quem é o soldado da gigantesca estátua e o que ela representa.
  • Qual é o tamanho do memorial em comparação com o Treptower Park.
  • O que foi a Alemanha nazista e quanto tempo ela existiu.
  • Por que aconteceu a Segunda Guerra Mundial e quanto tempo ela durou.
  • Quem lutou contra quem.
  • O que foi a Batalha de Berlim.
  • Quantos soldados soviéticos morreram na tomada de Berlim.
  • Quantos militares soviéticos e alemães morreram durante a guerra.
  • Quantas pessoas morreram na Segunda Guerra Mundial e quantas eram civis.
  • Se o Brasil participou da guerra e como.
  • Como a Alemanha foi dividida depois de 1945.
  • Como surgiu a Alemanha Oriental e por quanto tempo ela existiu.
  • Qual era a relação da Alemanha Oriental com a União Soviética.
  • Por que os estudantes da Alemanha Oriental aprendiam russo.
  • Por que Berlim Ocidental existia no meio da Alemanha Oriental.
  • Como essa divisão acabaria levando ao Muro de Berlim.
  • Por que a Alemanha preserva até hoje um monumento soviético que celebra a derrota da Alemanha nazista.

Como os 7 mil soldados foram parar no Treptower Park se o memorial só foi inaugurado em 1949?

Eles não ficaram quatro anos esperando para ser enterrados.

Depois dos combates de 1945, soldados soviéticos mortos foram sepultados inicialmente em diferentes pontos de Berlim. Durante a criação do grande memorial e cemitério militar de Treptow, restos mortais foram exumados e transferidos de outros locais da cidade.

Em 1947, antes mesmo da inauguração do monumento, milhares já haviam sido sepultados ali.

Hoje, fontes oficiais de Berlim falam em mais de 7 mil sepultamentos no complexo. Uma publicação oficial do distrito de Treptow-Köpenick de 2026 menciona aproximadamente 7.200 sepulturas.

Onde exatamente estão enterrados?

Os mortos estão distribuídos em áreas funerárias dentro do próprio complexo.

Os cinco enormes retângulos de gramado no eixo central são sepulturas coletivas simbólicas. Portanto, não significa que todos os milhares de corpos estejam simplesmente debaixo desses cinco gramados.

Documentos oficiais de Berlim registram sepultamentos coletivos e individuais distribuídos pela área.

O espaço foi projetado para funcionar simultaneamente como cemitério real e representação monumental de um cemitério.

Por que existem cinco grandes campos de gramado?

Os cinco campos retangulares fazem parte da composição arquitetônica do memorial e foram concebidos como sepulturas coletivas simbólicas.

Eles ocupam o grande eixo central e conduzem visualmente o visitante até a estátua monumental do soldado soviético.

Toda a simetria do complexo foi planejada para construir uma narrativa de sofrimento, combate, morte, vitória e memória.

Por que existem 16 sarcófagos?

São 16 grandes sarcófagos monumentais, oito de cada lado, representando as 16 repúblicas que formavam a União Soviética quando o memorial foi concebido.

Eles não são simplesmente 16 grandes túmulos.

Seus relevos apresentam episódios da guerra segundo a narrativa soviética: a invasão alemã, o sofrimento da população, a resistência, o esforço de guerra, os combates e o luto pelos mortos.

O que dizem as frases de Stalin nos sarcófagos?

Texto atribuído à fala de Stalin:
“O Exército Vermelho possui suas próprias tradições gloriosas. Elas inspiram nossos combatentes e os elevam a feitos heroicos. Elas lhes dão a compreensão de que a guerra patriótica gera entre nós milhares de heróis e heroínas dispostos a enfrentar a morte pela liberdade de sua pátria.”
— Josef Stalin

Os sarcófagos possuem inscrições atribuídas a Josef Stalin, reproduzidas em russo e alemão.

Em uma das inscrições fotografadas pelo Mais Berlim, Stalin exalta a tradição militar do Exército Vermelho e afirma que ela inspira grandes feitos, mencionando milhares de homens e mulheres dispostos a enfrentar a morte pela liberdade de sua pátria.

As frases fazem parte da concepção original do memorial e precisam ser entendidas dentro da linguagem política e propagandística da União Soviética sob Stalin.


“Os invasores de Hitler pretendem transformar em escravos os povos da Ucrânia, Belarus, dos países bálticos, da Moldávia, Crimeia e Cáucaso. Nosso objetivo é claro e nobre: queremos libertar nossa terra soviética.” — Josef Stalin

Quem foi Stalin?

Josef Stalin foi o líder que consolidou o controle da União Soviética no final dos anos 1920 e permaneceu no poder até sua morte, em 1953.

Foi o líder soviético durante a maior parte da Segunda Guerra Mundial e comandava o país quando o Exército Vermelho chegou a Berlim.

Ao mesmo tempo, governou como ditador. Seu regime foi marcado por repressão política, execuções, deportações, expurgos e pelo sistema de campos de trabalhos forçados conhecido como Gulag. Milhões de pessoas morreram durante seu governo.

O memorial foi inaugurado em 1949, quando Stalin ainda estava no poder, o que ajuda a explicar a presença de suas frases.

Quem é o soldado da enorme estátua?

A escultura é conhecida como “O Guerreiro Libertador” e foi criada pelo escultor soviético Yevgeny Vuchetich.

Ela não representa oficialmente uma pessoa específica, mas uma figura simbólica do soldado do Exército Vermelho.

O homem segura uma criança alemã em um braço e uma enorme espada no outro. Sob seus pés aparece uma suástica destruída.

A composição representa a vitória soviética sobre a Alemanha nazista e, dentro da narrativa original do monumento, a libertação do nazismo.

A figura também é associada à história do soldado soviético Nikolai Masalov, que teria resgatado uma criança alemã durante a Batalha de Berlim. Isso não significa, porém, que a estátua seja um retrato dele.

A figura de bronze possui aproximadamente 11,6 metros de altura e pesa cerca de 70 toneladas. Dentro de seu pedestal existe ainda uma sala memorial decorada com mosaicos.

Qual é o tamanho do memorial?

O Memorial Soviético ocupa aproximadamente 93 mil metros quadrados, ou 9,3 hectares.

O Treptower Park possui cerca de 88 hectares.

Isso significa que o complexo soviético ocupa aproximadamente 10% de toda a área do parque.

E existe uma diferença importante de idade: o Treptower Park surgiu no século XIX e já existia décadas antes das guerras mundiais. O memorial soviético só foi construído depois da Segunda Guerra.

O que foi a Alemanha nazista?

Aos pés da estátua a suástica nazista aparece destruída pela espada do soldado soviético. Foto: Mais Berlim

Alemanha nazista” é o nome usado para a Alemanha durante a ditadura de Adolf Hitler e do Partido Nazista.

Hitler tornou-se chanceler em 30 de janeiro de 1933 e rapidamente destruiu as instituições democráticas da República de Weimar, perseguiu adversários e estabeleceu uma ditadura.

O regime defendia uma ideologia ultranacionalista, racista e antissemita. Judeus foram progressivamente excluídos da sociedade, perseguidos e posteriormente submetidos a um programa sistemático de extermínio.

O regime também perseguiu, aprisionou e assassinou outros grupos e adversários considerados inimigos.

Quanto tempo durou a Alemanha nazista?

A ditadura nazista existiu por aproximadamente 12 anos, de 1933 a 1945.

Hitler chegou ao poder em janeiro de 1933.

O regime terminou com a derrota militar da Alemanha na Segunda Guerra Mundial. Hitler suicidou-se em seu bunker em Berlim em 30 de abril de 1945, poucos dias antes da capitulação alemã.

Por que aconteceu a Segunda Guerra Mundial?

Não existe uma única causa, mas existe um ponto de partida claro para a guerra na Europa.

Em 1º de setembro de 1939, a Alemanha nazista invadiu a Polônia. Dois dias depois, Reino Unido e França declararam guerra à Alemanha.

A invasão fazia parte da política expansionista de Hitler, que pretendia conquistar territórios e obter o chamado Lebensraum, ou “espaço vital”, principalmente no leste europeu.

As consequências da Primeira Guerra Mundial, a instabilidade econômica e política, o crescimento de regimes autoritários e o fracasso das potências europeias em conter a expansão de Hitler também contribuíram para criar as condições que levaram ao conflito.

Quanto tempo durou a Segunda Guerra Mundial?

A Segunda Guerra Mundial durou seis anos, de 1º de setembro de 1939 a 2 de setembro de 1945.

Há uma distinção importante para entender o memorial de Berlim.

Na Europa, a guerra terminou em maio de 1945, com a derrota da Alemanha nazista.

Mas o conflito continuou na Ásia e no Pacífico. O Japão anunciou sua rendição em agosto e assinou formalmente o documento em 2 de setembro de 1945, encerrando a Segunda Guerra Mundial.

Portanto, o memorial de Treptow celebra a vitória soviética sobre a Alemanha nazista e o fim da guerra na Europa.

Quem lutou contra quem?

De maneira simplificada, a guerra reuniu dois grandes grupos.

De um lado estavam as Potências do Eixo, lideradas por:

Alemanha nazista, Itália fascista e Japão.

Do outro estavam os Aliados, entre os quais:

Reino Unido, União Soviética, Estados Unidos, China e França, além de muitos outros países.

A composição mudou ao longo da guerra.

A União Soviética entrou diretamente na guerra contra a Alemanha depois que Hitler rompeu o pacto de não agressão germano-soviético e invadiu o território soviético em 22 de junho de 1941.

Os Estados Unidos entraram no conflito depois do ataque japonês a Pearl Harbor, em dezembro daquele ano.

O que foi a Batalha de Berlim?

Foi a batalha final pela capital da Alemanha nazista.

Em abril de 1945, o Exército Vermelho avançou sobre Berlim enquanto os Aliados ocidentais avançavam pela Alemanha pelo oeste.

As forças soviéticas cercaram a capital e travaram violentos combates pelas ruas da cidade.

Hitler suicidou-se em 30 de abril de 1945. Berlim capitulou em 2 de maio e, poucos dias depois, veio a rendição incondicional das forças armadas alemãs.

A guerra terminava na Europa.

Os 7 mil enterrados em Treptow foram todos os soviéticos mortos na Batalha de Berlim?

Não.

O número foi muito maior.

Estimativas frequentemente citadas apontam para aproximadamente 80 mil militares soviéticos mortos durante a operação de Berlim, que compreendeu uma área maior do que apenas os combates dentro da cidade.

Os sepultados no Treptower Park representam somente uma parcela dessas perdas.

Berlim possui outros grandes cemitérios soviéticos, entre eles os de Tiergarten e Schönholzer Heide.

Quantos militares soviéticos morreram durante a Segunda Guerra Mundial?

As estimativas variam conforme os critérios utilizados.

Uma das cifras mais utilizadas é de aproximadamente 8,7 milhões de militares soviéticos mortos durante a guerra.

Quando civis são incluídos, estimativas amplamente utilizadas colocam as perdas da União Soviética em aproximadamente 26 a 27 milhões de pessoas.

A União Soviética foi um dos países mais atingidos pela Segunda Guerra Mundial.

Quantos militares alemães morreram?

Também existem diferenças entre as estimativas.

Uma cifra frequentemente utilizada é de aproximadamente 5,3 milhões de militares alemães mortos durante a Segunda Guerra Mundial.

Uma parcela muito significativa dessas mortes ocorreu na Frente Oriental, durante os combates contra a União Soviética.

Quantas pessoas morreram na Segunda Guerra Mundial?

Não existe uma contagem mundial definitiva.

As estimativas variam conforme a metodologia e principalmente conforme são contabilizadas as mortes indiretas provocadas por fome, doenças, ocupação e deslocamentos.

O consenso é que dezenas de milhões de pessoas morreram, tornando a Segunda Guerra Mundial o conflito mais mortal da história.

Diferentes instituições trabalham com totais que vão de aproximadamente 55 milhões a mais de 70 milhões de mortos.

Quantos eram civis?

Os civis representaram uma parcela enorme das vítimas.

Não existe um total mundial exato, mas dezenas de milhões de civis morreram em bombardeios, massacres, genocídios, ocupações, fome e doenças provocadas ou agravadas pela guerra.

Entre as vítimas estavam aproximadamente 6 milhões de judeus assassinados no Holocausto pela Alemanha nazista e seus colaboradores.

A dimensão das perdas civis mostra por que a Segunda Guerra Mundial não pode ser compreendida apenas como uma guerra entre exércitos.

O Brasil participou da Segunda Guerra Mundial?

Sim.

Inicialmente, o Brasil permaneceu neutro. A situação mudou principalmente depois de ataques de submarinos do Eixo contra navios brasileiros.

Em 1942, o Brasil declarou guerra à Alemanha e à Itália.

Posteriormente, a Força Expedicionária Brasileira (FEB) foi enviada para lutar na Itália ao lado dos Aliados.

Mais de 25 mil brasileiros foram enviados ao teatro de operações italiano e participaram de combates importantes, entre eles Monte Castello e Montese.

A participação brasileira significa que a guerra lembrada no Memorial Soviético de Berlim também possui uma conexão direta com a história do Brasil.

O que aconteceu com a Alemanha depois da guerra?

Depois da derrota nazista, a Alemanha foi ocupada pelas quatro principais potências vencedoras:

Estados Unidos, Reino Unido, França e União Soviética.

O território foi dividido em quatro zonas de ocupação.

A União Soviética passou a controlar uma grande área no leste da Alemanha, enquanto as outras três potências administravam regiões no oeste.

Essa divisão, inicialmente concebida no contexto da ocupação do pós-guerra, acabaria se transformando em uma divisão política muito mais duradoura com o início da Guerra Fria.

Como surgiu a Alemanha Oriental?

Em 1949, a divisão alemã se consolidou.

As zonas ocidentais deram origem à República Federal da Alemanha (RFA), conhecida como Alemanha Ocidental.

Na zona de ocupação soviética foi criada, em 7 de outubro de 1949, a República Democrática Alemã (RDA), conhecida como Alemanha Oriental ou DDR, em alemão.

A Alemanha Oriental tornou-se um Estado socialista fortemente ligado política, econômica e militarmente à União Soviética.

Por quanto tempo existiu a Alemanha Oriental?

A Alemanha Oriental existiu por quase 41 anos, de 1949 a 1990.

Mas a presença soviética no leste alemão havia começado antes, imediatamente depois da guerra, em 1945.

Se considerarmos o período entre o início da ocupação soviética e a reunificação, o leste da Alemanha passou aproximadamente 45 anos sob ocupação e, posteriormente, forte influência soviética.

A RDA deixou de existir em 3 de outubro de 1990, quando ocorreu a reunificação alemã.

Os alemães orientais aprendiam inglês ou russo?

Na Alemanha Oriental, a principal língua estrangeira ensinada nas escolas era o russo.

A partir dos anos 1950, o ensino de russo tornou-se obrigatório para a maioria dos estudantes, refletindo a forte ligação política e cultural da RDA com a União Soviética.

Isso não significa que ninguém aprendesse inglês. Inglês e outras línguas também podiam ser ensinados, principalmente em determinados níveis e escolas, mas o russo ocupava uma posição privilegiada no sistema educacional.

Enquanto na Alemanha Ocidental o inglês se consolidava como principal língua estrangeira, gerações de estudantes da Alemanha Oriental tiveram o russo como primeira língua estrangeira obrigatória.

Depois da reunificação, o inglês rapidamente assumiu essa posição também no leste.

A divisão alemã, portanto, não existia apenas no mapa: ela chegava às escolas, ao idioma aprendido pelas crianças e à vida cotidiana.

E como Berlim ficou nessa divisão?

Aqui existe uma particularidade fundamental.

Berlim estava geograficamente dentro da zona de ocupação soviética, mas, por ser a antiga capital alemã, a própria cidade também foi dividida entre as quatro potências vencedoras.

O setor soviético tornou-se posteriormente Berlim Oriental, que passou a funcionar como capital da RDA.

Os setores americano, britânico e francês formaram Berlim Ocidental.

Isso criou uma situação extraordinária: uma parte da cidade politicamente ligada ao Ocidente estava cercada pelo território da Alemanha Oriental.

O Muro de Berlim dividia apenas a cidade ao meio?

Não.

Uma parte do Muro realmente separava Berlim Oriental de Berlim Ocidental dentro da cidade.

Mas, como Berlim Ocidental estava cercada pela Alemanha Oriental, o sistema de fronteira precisava também contornar toda Berlim Ocidental.

É por isso que, quando observamos um mapa, o Muro parece formar um enorme perímetro ao redor de uma parte da cidade.

Ele não era simplesmente uma linha reta dividindo Berlim em duas metades.

A construção começou em 13 de agosto de 1961, principalmente para impedir a saída de cidadãos da Alemanha Oriental através de Berlim Ocidental.

O Muro caiu em 9 de novembro de 1989.

Menos de um ano depois, em 3 de outubro de 1990, a Alemanha foi reunificada.

Por que a Alemanha preserva um memorial que celebra sua própria derrota?

Pintura localizada na base da estátua no memorial soviético do Treptower Park

Porque é mais preciso dizer que o monumento celebra a derrota da Alemanha nazista.

O local também é um cemitério militar, com milhares de mortos efetivamente sepultados no complexo.

Além disso, depois da reunificação, a Alemanha assumiu compromissos relacionados à preservação dos memoriais e túmulos soviéticos.

Preservar o conjunto não significa que a Alemanha contemporânea endosse Stalin ou toda a narrativa política soviética presente no monumento.

O Memorial de Treptow reúne várias camadas da história em um mesmo espaço: é cemitério de guerra, monumento à derrota do nazismo, celebração da vitória soviética e uma obra monumental produzida durante a ditadura de Stalin.

Mais de oito décadas depois do fim da guerra, todas essas camadas permanecem preservadas no meio de Berlim — em um parque que já existia muito antes delas.

O post Um cemitério com 7 mil soldados soviéticos em Berlim: curiosidades e a história do memorial que celebra a derrota da Alemanha nazista apareceu primeiro em .

]]>
Em qual Berlim você vive? https://maisberlim.com/em-qual-berlim-voce-vive/ https://maisberlim.com/em-qual-berlim-voce-vive/#respond Mon, 17 Aug 2026 16:46:42 +0000 https://maisberlim.com/?p=1664 SÉRIE ESPECIAL maisberlim Mais Berlim Berlim: várias cidades em uma Sete faces de uma metrópole que não cabe em um rótulo — drogas, clubes, natureza, história, arte, startups e diversidade. […]

O post Em qual Berlim você vive? apareceu primeiro em .

]]>
SÉRIE ESPECIAL
Mais Berlim

Berlim: várias cidades em uma

Sete faces de uma metrópole que não cabe em um rótulo — drogas, clubes, natureza, história, arte, startups e diversidade. Dados de fontes oficiais, com links pra quem quiser se aprofundar.

Saúde pública

Berlim das Drogas

Berlim está entre as cidades europeias com maior consumo de cocaína, segundo análises de esgoto feitas pela agência europeia de drogas (EUDA). Diferente da maioria das substâncias, cujo consumo dispara nos fins de semana, a cocaína é detectada de forma praticamente constante ao longo de toda a semana em Berlim — um padrão associado a turismo de festa, disponibilidade e hype pop-cultural, segundo reportagem do jornal taz. A cidade registrou recorde de mortes relacionadas a drogas em 2024, e desde então mantém um programa de “drug-checking” (testagem de substâncias) como estratégia de redução de danos, com balanço positivo após um ano de funcionamento.

No cinema: o retrato mais conhecido do submundo das drogas em Berlim é Eu, Christiane F. — 13 Anos, Drogada e Prostituída (1981), com trilha de David Bowie, baseado em fatos reais dos anos 1970 na estação Bahnhof Zoo. A história ganhou uma minissérie mais recente, Nós, os Filhos da Estação Zoo (2021, Prime Video).

Techno & vida noturna

Berlim dos Clubes

Em 2024, a cultura techno de Berlim foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial da Alemanha — o mesmo tipo de proteção dado ao canto coral e a ofícios tradicionais. A cena nasceu logo após a queda do Muro, quando prédios industriais abandonados viraram pistas de dança. Hoje, o setor vive um momento de transição: clubes históricos como Watergate e Renate fecharam recentemente, enquanto uma nova geração (RSO, OXI, Lokschuppen) reorganiza o mapa.

Clássicos: Berghain (a porta mais difícil do mundo, sem celular), Tresor (nasceu no cofre de uma loja de departamentos), ://about blank, Sisyphos, KitKat (dress code fetiche obrigatório).

Dress code geral: roupas escuras e confortáveis, tênis surrados, nada de grife, salto ou grupos com looks combinando. Câmeras de celular são lacradas com adesivo na entrada — fotografar dentro é proibido na maioria das casas.

A cena muda rápido — clubes fecham e abrem o tempo todo. Confira sempre o site oficial da casa antes de ir.
Parques & florestas

Berlim Verde

Cerca de 18% da área de Berlim é coberta por florestas — cerca de 29 mil hectares, segundo a administração florestal da cidade (Berliner Forsten). Isso faz de Berlim a cidade alemã com mais de 1 milhão de habitantes com maior proporção de floresta, à frente de Hamburgo, Colônia e Munique. Somando florestas, parques, rios e lagos, cerca de 1/3 do território da cidade é área verde ou azul.

Florestas: o Grunewald (3.000 hectares) é a maior e mais famosa, cercada pelo rio Havel e por lagos como Schlachtensee e Krumme Lanke — dentro dela fica o Teufelsberg, colina artificial feita de escombros da guerra e um dos pontos mais altos da cidade. Outras grandes áreas florestais: Tegeler Forst, Spandauer Forst e a mata ao redor do Müggelsee, em Treptow-Köpenick — o distrito mais arborizado de Berlim.

Parques urbanos: o Tempelhofer Feld — um antigo aeroporto — hoje é um dos maiores espaços verdes urbanos do mundo. O Tiergarten, no coração da cidade, tem 210 hectares (maior que o Hyde Park de Londres). O Mauerpark, erguido sobre o antigo “corredor da morte” do Muro, vira feira de pulgas e karaokê livre todo domingo.

  • Grunewald — floresta de 3.000 ha a oeste da cidade, às margens do Havel
  • Tiergarten — Str. des 17. Juni, 10785 Berlin
  • Tempelhofer Feld — Tempelhofer Damm, 12101 Berlin
  • Mauerpark — Bernauer Str. 63-64, 13355 Berlin (feira e karaokê aos domingos)
  • Treptower Park — às margens do Spree, com o memorial soviético
  • Britzer Garten — o maior relógio de flores da Europa
  • Gärten der Welt (Marzahn) — jardins temáticos de várias culturas
Memória & museus

Berlim da História

Poucas cidades carregam tanto peso histórico quanto Berlim: capital do Terceiro Reich, dividida pela Guerra Fria, palco da queda do Muro em 1989. A Museumsinsel (Ilha dos Museus) é Patrimônio Mundial da Unesco desde 1999, reunindo cinco museus e 6 mil anos de história da arte num só lugar.

  • Museu Pérgamo — parte da Ilha dos Museus (atualmente com áreas em reforma)
  • DDR Museum — cotidiano da Alemanha Oriental, bem interativo
  • Checkpoint Charlie — um dos postos de fronteira mais famosos do mundo
  • Topographie des Terrors — sobre o aparato nazista, entrada gratuita
  • Memorial do Holocausto — perto do Portão de Brandemburgo
Cena artística

Berlim da Arte

Depois da queda do Muro, aluguéis baratíssimos e prédios vazios transformaram Berlim num ímã para artistas do mundo inteiro — um perfil de cidade que a metrópole mantém até hoje. A edição de 2026 do Gallery Weekend Berlin reuniu 50 galerias participantes em 63 endereços pela cidade, segundo o site oficial do evento. A região da Auguststraße, em Mitte, concentra várias delas.

  • KW Institute for Contemporary Art — Auguststraße 69, sede da Bienal de Berlim
  • Hamburger Bahnhof — arte contemporânea numa antiga estação de trem
  • C/O Berlin — referência em fotografia
  • Neue Nationalgalerie — arte do século 20, prédio de Mies van der Rohe
  • Boros Collection — coleção contemporânea dentro de um bunker da Segunda Guerra
Inovação

Berlim das Startups

Um novo startup nasce em Berlim a cada 14 horas, segundo o Berlin Startup Ecosystem Report 2025 — pesquisa oficial encomendada pela Secretaria de Economia do governo de Berlim e apresentada pela própria administração municipal. O ecossistema já vale €169 bilhões, reúne cerca de 1.600 startups financiadas por capital de risco e conta com 57 unicórnios (avaliados em mais de US$ 1 bilhão) ou “thoroughbreds” (empresas com receita anual acima de €100 milhões). Isso representa 43% de todo o valor do ecossistema de startups alemão concentrado numa única cidade.

Nomes conhecidos: N26, Trade Republic, GetYourGuide, Delivery Hero, Contentful, Flink — várias já negociadas na bolsa ou avaliadas em bilhões.

Povos & liberdade

Berlim da Diversidade

Berlim tinha 3.913.644 habitantes no fim de 2025, segundo o Departamento de Estatística de Berlim-Brandemburgo — dos quais 976.419 são estrangeiros (quase 25% da população), vindos de mais de 190 países diferentes. A maior comunidade estrangeira é a turca. Essa mistura de origens, somada à liberdade de expressão e de se vestir que marca a cidade — da cena LGBTQ+ de Schöneberg aos looks sem regra dos clubes — é o que faz Berlim parecer várias cidades ao mesmo tempo, dependendo de que rua você está.

Música clássica

Berlim Erudita

A Filarmônica de Berlim (Berliner Philharmoniker), fundada em 1882, é considerada uma das orquestras mais aclamadas do mundo. Toca na Philharmonie, sala com o palco no centro do auditório — projeto inaugurado em 1963 e copiado por salas de concerto no mundo todo. Desde a temporada 2019/20, o maestro titular é Kirill Petrenko. A orquestra também mantém a Digital Concert Hall, um serviço próprio de streaming com transmissões ao vivo dos concertos.

A Staatskapelle Berlin, fundada em 1570, é a orquestra mais antiga da cidade e se apresenta na Staatsoper Unter den Linden — casa de ópera erguida em 1742 a pedido de Frederico, o Grande. Outros templos da música clássica: o Konzerthaus Berlin, na bela Gendarmenmarkt, e a Deutsche Oper, no oeste da cidade.

Bares & restaurantes

Berlim Gastronômica: Friedrichshain

Friedrichshain, principalmente ao redor da Simon-Dach-Straße e da Boxhagener Platz (“Boxi”), é um dos bairros com maior densidade de bares, restaurantes e cafés de Berlim — pubs e restaurantes literalmente lado a lado, com happy hour o dia inteiro, segundo o guia oficial de turismo da cidade (visitBerlin). O bairro nasceu como reduto alternativo e de ocupações após a queda do Muro, e hoje é um dos points mais gentrificados — e mais visitados por turistas — da cidade.

Vale notar: não encontramos nenhuma fonte confiável que confirme a fama de “uma das maiores concentrações do mundo” — parece ser reputação de boca a boca entre viajantes. O que é bem documentado é a altíssima densidade de bares dentro de Berlim mesmo, especialmente nessa região.

  • Simon-Dach-Straße — entre Warschauer Str. e Frankfurter Allee
  • Boxhagener Platz — feira orgânica aos sábados, feira de pulgas aos domingos
  • RAW-Gelände — antigo pátio ferroviário virado point de bares, clubes e street art
Economia & negócios

Berlim das Feiras

Por sua localização central na Europa e sua importância política, Berlim é sede de uma das maiores organizadoras de feiras comerciais do planeta: a Messe Berlin, que está entre as maiores empresas de feiras do mundo em faturamento, segundo levantamento da AUMA (associação alemã do setor de feiras) com base em receitas publicadas. São cerca de 190 mil m² de área de exposição e um portfólio de aproximadamente 80 eventos internacionais por ano, comercializados em mais de 170 países.

  • ITB Berlin — considerada a maior feira de turismo do mundo, desde 1966
  • IFA — feira líder mundial de eletrônicos de consumo e eletrodomésticos
  • InnoTrans — referência mundial em transporte, mobilidade e logística
  • FRUIT LOGISTICA — feira líder do comércio internacional de frutas e vegetais
  • Internationale Grüne Woche — uma das maiores feiras de agricultura e alimentação do mundo

A economia de Berlim como um todo já soma cerca de €218 bilhões em PIB (2025) — e as feiras são uma peça importante desse motor, movimentando hotelaria, gastronomia e turismo de negócios.

Meio ambiente

Berlim Sustentável

Berlim é a 4ª metrópole mais sustentável do mundo (entre cidades com mais de 1,5 milhão de habitantes), segundo o Global Destination Sustainability Index de 2025 — seu melhor resultado desde que entrou no ranking em 2020, com nota de 80,5%. A cidade fica atrás de Melbourne, Singapura e Barcelona. A cidade tem meta de neutralidade climática até 2045. Cerca de 46% dos domicílios berlinenses não têm carro, e a proporção é de 1,7 bicicleta por domicílio, segundo a pesquisa nacional de mobilidade “Mobilität in Städten”. Mais de 100 km de novas ciclovias estão planejados até 2030 pelo Berlin Mobility Act.

Prédios & design

Berlim Arquitetônica

Berlim é um museu vivo de arquitetura do século 20. Seis conjuntos residenciais do modernismo berlinense — como o Hufeisensiedlung (Conjunto em Ferradura) e a Siemensstadt — foram declarados Patrimônio Mundial da Unesco em 2008, projetados por nomes como Bruno Taut e Walter Gropius, cofundador da Bauhaus. A Fernsehturm (Torre de TV), com 368 metros, foi erguida pelo governo da Alemanha Oriental entre 1965 e 1969 como símbolo de poder — hoje é só o símbolo mais famoso da cidade reunificada. Do outro lado da história arquitetônica, o Plattenbau (os grandes conjuntos habitacionais pré-fabricados do Leste) ainda define a paisagem de bairros inteiros.

Livros & exílio

Berlim Literária

Berlim é palco literário há mais de um século. Bertolt Brecht viveu e escreveu boa parte de sua obra teatral na cidade. Alfred Döblin publicou em 1929 o clássico Berlin Alexanderplatz. Já o inglês Christopher Isherwood morou na Nollendorfstraße, em Schöneberg, entre o fim dos anos 1920 e início dos 1930 — período que virou os contos de Adeus a Berlim, base do musical e do filme Cabaret.

Hoje, o ilb — international literature festival berlin, realizado todo mês de setembro desde 2001, reúne mais de 200 autores de 40 países ao longo de 11 dias de programação, segundo o site oficial do festival.

Curadoria Mais Berlim · maisberlim.com
Dados de fontes públicas e oficiais, citadas em cada seção. Números mudam com o tempo — sempre vale conferir a fonte original pra dados atualizados.

O post Em qual Berlim você vive? apareceu primeiro em .

]]>
https://maisberlim.com/em-qual-berlim-voce-vive/feed/ 0
Cinema alemão para dia de chuva https://maisberlim.com/cinema-alemao-para-dia-de-chuva/ https://maisberlim.com/cinema-alemao-para-dia-de-chuva/#respond Sun, 16 Aug 2026 08:31:12 +0000 https://maisberlim.com/?p=1662 CINEMA ALEMÃO PRA DIA DE CHUVA maisberlim Caderno de cinema 10 filmes alemães pra assistir num dia de chuva Do cinema mudo expressionista aos vencedores de festival mais recentes — […]

O post Cinema alemão para dia de chuva apareceu primeiro em .

]]>
CINEMA ALEMÃO PRA DIA DE CHUVA
Caderno de cinema

10 filmes alemães pra assistir num dia de chuva

Do cinema mudo expressionista aos vencedores de festival mais recentes — uma seleção pra maratonar em casa. Toque em cada filme pra ver onde assistir agora.

Toque em “onde assistir” pra buscar no JustWatch
01 Ficção científica muda

Metrópolis

“Metropolis” · 1927 · Fritz Lang

Obra-prima muda do expressionismo alemão — o visual que influenciou o cinema até hoje.

Onde assistir
02 Horror clássico

Nosferatu

“Nosferatu, eine Symphonie des Grauens” · 1922 · F. W. Murnau

O vampiro mais assustador (e mais imitado) do cinema mudo.

Onde assistir
03 Thriller frenético

Corra, Lola, Corra

“Lola rennt” · 1998 · Tom Tykwer

Berlim em ritmo acelerado — 20 minutos, três finais possíveis.

Onde assistir
04 Drama poético

Asas do Desejo

“Der Himmel über Berlin” · 1987 · Wim Wenders

Anjos observam Berlim em preto e branco — poesia pura.

Onde assistir
05 Drama · Oscar

A Vida dos Outros

“Das Leben der Anderen” · 2006 · F. Henckel von Donnersmarck

Vigilância da Stasi na Berlim Oriental — tensão do início ao fim.

Onde assistir
06 Comédia dramática

Good Bye, Lenin!

“Good Bye, Lenin!” · 2003 · Wolfgang Becker

A queda do Muro contada com humor e muito coração.

Onde assistir
07 Comédia

Sonnenallee

“Sonnenallee” · 1999 · Leander Haußmann

Adolescência e rock no lado errado do Muro — leve e nostálgico.

Onde assistir
08 Comédia familiar

Almanya

“Almanya – Willkommen in Deutschland” · 2011 · Yasemin Şamdereli

Três gerações de uma família turco-alemã — emocionante e engraçado.

Onde assistir
09 Comédia · aclamado

Toni Erdmann

“Toni Erdmann” · 2016 · Maren Ade

Pai excêntrico, filha workaholic — um dos filmes alemães mais premiados da década.

Onde assistir
10 Thriller em plano único

Victoria

“Victoria” · 2015 · Sebastian Schipper

Uma noite em Berlim, filmada em um único take de 140 minutos.

Onde assistir
Curadoria Mais Berlim · maisberlim.com
Disponibilidade de streaming muda com frequência — os links levam à busca atualizada no JustWatch.

O post Cinema alemão para dia de chuva apareceu primeiro em .

]]>
https://maisberlim.com/cinema-alemao-para-dia-de-chuva/feed/ 0
Alemanha registra 41ºC e bate novo recorde de temperatura https://maisberlim.com/alemanha-recorde-calor-41-graus-berlim-onda-de-calor/ https://maisberlim.com/alemanha-recorde-calor-41-graus-berlim-onda-de-calor/#respond Sun, 28 Jun 2026 12:42:01 +0000 https://maisberlim.com/?p=1479 Alemanha registra novo recorde de temperatura com 41°C. Entenda por que está tão quente, a previsão para Berlim e Alemanha, quando o calor deve diminuir e os principais cuidados.

O post Alemanha registra 41ºC e bate novo recorde de temperatura apareceu primeiro em .

]]>
Imagem: Unplash

Serviço nacional de meteorologia aponta para formação de tempestades severas ao longo do fim de semana.

A Alemanha voltou a registrar um novo recorde de temperatura neste sábado (27), em meio à intensa onda de calor que atinge grande parte do país. Segundo dados preliminares do Serviço Meteorológico Alemão (DWD), os termômetros alcançaram 41,5°C em Möckern-Drewitz, no estado da Saxônia-Anhalt, estabelecendo um novo recorde nacional pelo segundo dia consecutivo.

O DWD mantém alerta oficial para calor extremo em diversas regiões do país. O órgão informa que a população enfrenta uma situação de forte a extrema sobrecarga térmica, especialmente em áreas urbanas, onde as temperaturas permanecem elevadas durante a noite, reduzindo o resfriamento natural do organismo.

Além do calor intenso, o serviço meteorológico alerta para a formação de tempestades severas, principalmente no oeste e no norte da Alemanha. As condições atmosféricas favorecem a ocorrência de chuvas intensas, rajadas de vento e queda de granizo, aumentando o risco de transtornos após dias consecutivos de temperaturas excepcionais.

As autoridades recomendam que a população evite exposição ao sol nas horas mais quentes do dia, mantenha-se hidratada e redobre os cuidados com idosos, crianças e pessoas com doenças crônicas, considerados os grupos mais vulneráveis aos efeitos do calor extremo.

Berlim vive um dos momentos mais críticos desta onda de calor. A capital alemã está sob alerta para calor extremo, com temperaturas próximas dos 40°C, número incomum para a cidade. As autoridades cancelaram atividades escolares, eventos esportivos e culturais ao ar livre, enquanto hospitais registram aumento nos atendimentos relacionados ao calor.

A atual onda de calor é considerada uma das mais intensas já registradas no país e reforça a preocupação dos meteorologistas com a frequência crescente de eventos climáticos extremos na Europa.

O calor extremo já afeta a rotina em Berlim

Imagem: Unplash

Os impactos da onda de calor já são sentidos em diversos setores da cidade. Neste fim de semana, pelo menos dois eventos ligados à comunidade brasileira foram cancelados por questões de segurança.

O concerto do projeto Komponistin!, que aconteceria no Schloss Britz sob regência da maestra brasileira Andréa Huguenin Botelho, foi cancelado devido à previsão de calor extremo. Em comunicado oficial, a organização informou que a decisão foi tomada para garantir a segurança do público, dos músicos e de toda a equipe envolvida.

Outro evento adiado foi a tradicional Festa Junina da Bossa FM Europa, que seria realizada neste sábado. Os organizadores remarcaram a festa para o dia 1º de agosto e orientaram o público a evitar exposição ao calor, reforçando os cuidados com hidratação.

A rotina da capital também precisou ser adaptada. Neste domingo (28), a Polícia de Berlim utilizou caminhões com canhões de água para refrescar moradores e turistas na região da Potsdamer Platz. Em vez de operações de segurança, os veículos lançaram uma fina névoa de água sobre as pessoas para aliviar a sensação térmica durante a onda de calor. A iniciativa ganhou destaque na imprensa alemã e nas redes sociais.

Por que está fazendo tanto calor?

Imagem: Unplash

Segundo o Serviço Meteorológico Alemão (DWD), o Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF) e a Organização Meteorológica Mundial (OMM), a atual onda de calor é resultado da combinação de diferentes fatores atmosféricos.

O principal deles é um bloqueio de alta pressão, conhecido como domo de calor (heat dome). Esse sistema funciona como uma tampa sobre a atmosfera, impedindo a chegada de frentes frias e mantendo o ar quente preso próximo à superfície.

Ao mesmo tempo, ventos vindos do norte da África transportaram uma massa de ar extremamente quente para a Europa Central. O céu praticamente sem nuvens permitiu que a radiação solar aquecesse ainda mais o solo, elevando rapidamente as temperaturas.

Os especialistas destacam que, embora nenhum evento isolado possa ser atribuído exclusivamente às mudanças climáticas, o aquecimento global provocado pelas atividades humanas aumenta significativamente a frequência, a intensidade e a duração das ondas de calor observadas na Europa.

Quando o calor deve diminuir?

A previsão oficial do Serviço Meteorológico Alemão indica que a mudança no tempo deve começar ao longo do início da próxima semana.

A chegada de uma frente fria deverá romper o bloqueio atmosférico responsável pelo calor extremo, favorecendo a formação de tempestades, chuvas e uma redução gradual das temperaturas em boa parte da Alemanha.

Em Berlim, a expectativa é que as máximas voltem gradualmente para valores próximos da média do verão ao longo da semana. Apesar da melhora, alguns dias ainda poderão registrar temperaturas acima dos 30°C.

Como deve ser o restante do verão?

As previsões sazonais do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas (ECMWF) indicam que o verão de 2026 deve continuar mais quente que a média em grande parte da Europa.

Isso não significa que haverá calor extremo todos os dias, mas aumenta a probabilidade de novas ondas de calor ao longo de julho e agosto, alternadas com tempestades intensas e episódios de chuva forte, um padrão cada vez mais frequente no continente.

Meteorologistas alertam que episódios como o registrado neste fim de semana tendem a se tornar mais comuns nas próximas décadas caso o aquecimento global continue avançando.

Por que Berlim sofre tanto com o calor?

Embora a Alemanha tenha um clima considerado temperado, grandes cidades como Berlim sofrem com o chamado efeito de ilha de calor urbana.

O concreto, o asfalto e os edifícios absorvem calor durante o dia e o liberam lentamente durante a noite. Como consequência, as temperaturas permanecem elevadas mesmo após o pôr do sol, dificultando o resfriamento do organismo e aumentando os riscos à saúde.

Esse fenômeno também explica por que as noites em Berlim têm sido excepcionalmente quentes durante esta onda de calor.

Quais são os riscos do calor extremo?

As autoridades de saúde alertam que temperaturas muito elevadas podem provocar:

  • Desidratação;
  • Insolação;
  • Exaustão pelo calor;
  • Queda de pressão arterial;
  • Agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias;
  • Aumento do risco de infarto e AVC;
  • Piora da qualidade do sono devido às noites quentes.

Os grupos mais vulneráveis são idosos, crianças pequenas, gestantes, pessoas com doenças crônicas e trabalhadores expostos ao sol durante longos períodos.

Como se proteger

Imagem: Unplash

O Serviço Meteorológico Alemão (DWD) e as autoridades de saúde recomendam:

  • Beber água regularmente, mesmo sem sentir sede;
  • Evitar atividades físicas entre 11h e 18h;
  • Permanecer em locais frescos sempre que possível;
  • Utilizar roupas leves e claras;
  • Usar chapéu, boné e protetor solar;
  • Manter janelas fechadas durante o período mais quente do dia e ventilar os ambientes durante a noite e a madrugada;
  • Acompanhar idosos, crianças e pessoas em situação de vulnerabilidade;
  • Nunca deixar crianças ou animais dentro de veículos estacionados, mesmo por poucos minutos.

Um alerta para o futuro

Para os cientistas, a onda de calor que atinge a Alemanha é mais um exemplo de como os eventos climáticos extremos estão se tornando mais frequentes na Europa. Embora fenômenos naturais sempre tenham existido, o consenso científico aponta que as mudanças climáticas provocadas pela ação humana aumentam a probabilidade de episódios como este ocorrerem com maior intensidade e duração.

A expectativa é que governos, cidades e a própria população precisem se adaptar a uma nova realidade climática, em que temperaturas próximas ou superiores a 40°C deixem de ser eventos excepcionais e passem a ocorrer com maior frequência durante os verões europeus.


Fontes: Serviço Meteorológico Alemão (DWD), Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF), Organização Meteorológica Mundial (OMM/WMO), Instituto Robert Koch (RKI) e Ministério Federal da Saúde da Alemanha (BMG).

O post Alemanha registra 41ºC e bate novo recorde de temperatura apareceu primeiro em .

]]>
https://maisberlim.com/alemanha-recorde-calor-41-graus-berlim-onda-de-calor/feed/ 0
Casos de “Boa Noite Cinderela” disparam em Berllim https://maisberlim.com/boa-noite-cinderela-berlim-ko-tropfen-alemanha/ https://maisberlim.com/boa-noite-cinderela-berlim-ko-tropfen-alemanha/#respond Sat, 06 Jun 2026 09:11:24 +0000 https://maisberlim.com/?p=1408 Dados obtidos pelo Mais Berlim junto à Polícia de Berlim revelam aumento de quase 1.000% nos registros de K.O.-Tropfen nos últimos dez anos. O "Boa Noite Cinderela".

O post Casos de “Boa Noite Cinderela” disparam em Berllim apareceu primeiro em .

]]>

Após relato da artista brasileira Gissauro Araújo, Mais Berlim reúne depoimentos de vítimas, dados inéditos da Polícia e alertas de especialistas sobre o uso de K.O.-Tropfen na Alemanha

Por Mais Berlim

Reportagem: Augusto Medeiros, Igor Abreu; Edição: Emilene Silva

Uma queda repentina.

Um apagão sem explicação.

Um nariz quebrado.

Um dente destruído.

E uma pergunta que permanece sem resposta.

Foi assim que começou a investigação do Mais Berlim sobre casos suspeitos de “Boa Noite Cinderela”, conhecidos na Alemanha como K.O.-Tropfen.

Nas últimas semanas, a reportagem ouviu vítimas, testemunhas, especialistas, organizadores de eventos, instituições  de apoio e a própria Polícia de Berlim. Os relatos vieram de Berlim, Colônia e outras cidades alemãs. Alguns terminaram em roubos, outros levantam suspeitas de crimes mais graves. Em comum, as vítimas  descrevem perda repentina de controle, falhas de memória, dificuldade para reunir provas e a sensação de vulnerabilidade diante de algo que muitas vezes desaparece do organismo antes mesmo de ser identificado.

O caso que motivou esta reportagem aconteceu na madrugada de 11 de maio de 2026, em Berlim.


“A noite começou a ficar estranha”

A artista e dançarina brasileira Gissauro Araújo havia passado o sábado inteiro participando de uma batalha de dança.

Depois do evento, seguiu para a casa do amigo Jonathan “Jhow” da Silva, onde ambos se prepararam para sair.

Gissauro conta que eles estavam cansados e quase desistiram.

“Estava aquela preguiça. A gente ficou enrolando para sair. Quando vimos já era uma hora, uma e meia da manhã.”

Mesmo assim decidiram ir para uma festa no Maaya, um clube que pode ser alugado para eventos, numa das regiões mais badaladas da cidade.

Ao chegar ao local encontraram amigos, deixaram seus pertences na recepção e seguiram para a pista.

“Era uma noite muito tranquila. A gente estava ali para dançar”, lembra a artista.

Segundo Gissauro, não havia intenção de beber muito.

“Não era uma noite de encher a cara. Era uma noite de dançar.”

Em determinado momento ela e Jhow dividiram uma caipirinha.

Mais tarde, Gissauro consumiu uma segunda bebida.

Ela contou ao Mais Berlim que bebeu aproximadamente uma caipirinha e meia ao longo de toda a noite.

Pouco depois começaram os sintomas.

Primeiro veio uma forte tontura.

“Eu senti uma tontura muito forte.”

A princípio ela não associou aquilo ao consumo de álcool.

“Eu praticamente não tinha bebido.”

Em seguida surgiu uma forte dor de barriga.

Ela foi ao banheiro.

“Eu fiquei sentada na privada pensando: nossa, que estranho.”

Depois retornou à pista.

Foi então que apareceu outro sintoma.

Frio.

Muito frio.

Ela decidiu sentar em um sofá próximo dos amigos.

Foi nesse momento que algo começou a lhe parecer errado.

“A noite começou a ficar estranha para mim.”

“Eu não sei explicar.”

“Parecia que alguma coisa estava errada.”

A dançarina conta que chegou a pensar que fosse apenas cansaço.

Mas os sintomas continuaram.

Então veio uma forte ânsia de vômito.

Ela se levantou para ir ao banheiro.

Não conseguiu chegar.

“Eu lembro de pensar: não vai dar tempo.”

Essa é a última lembrança clara que tem daquela madrugada.


“Eu acordei cheia de sangue”

A memória seguinte já é depois da queda.

“Eu acordei cheia de sangue.”

Ela estava caída no chão.

Desorientada.

Sem entender o que havia acontecido.

Ao redor estavam amigos e outras pessoas tentando ajudá-la.

“Eu lembro do Jhow falando comigo.”

“Foi isso que me despertou.”

A queda foi violenta.

Ela bateu o rosto diretamente no chão.

O impacto provocou uma fratura no nariz e a quebra de um dente.

“Foi um apagão muito estranho.”

Segundo Gissauro, nunca havia vivido algo semelhante.

“Nunca tive um apagão assim.”

“Nunca tive um desmaio assim.”

“Nem quando eu bebia mais no Brasil.”

O choque emocional foi imediato.

“Eu comecei a tremer.”

A primeira hipótese que lhe veio à cabeça foi justamente aquilo que mais temia.

“Minha mãe sempre falava para tomar cuidado com copo, com bebida, com alguém colocar alguma coisa.”

“E aconteceu justamente aquilo que eu tinha medo.”

Até hoje ela não consegue afirmar o que aconteceu.

Mas diz que jamais conseguiu explicar a perda repentina de consciência.


As testemunhas

Jonathan “Jhow” da Silva estava ao lado de Gissauro naquela noite.

Ele contou que os dois têm um hábito que adotaram justamente por receio desse tipo de situação: dividir bebidas.

“A gente sempre divide bebida.”

Segundo Jhow, essa prática faz parte dos cuidados que costumam ter quando saem.

“A gente tenta dividir justamente porque existe esse medo.”

Ele relata que, depois de algum tempo, começou a perceber mudanças no comportamento da amiga.

“Ela voltou da outra pista e sentou.”

Isso chamou sua atenção.

“Normalmente a gente dança muito.”

“Ela ficou mais quieta.”

Ainda assim acreditou que pudesse ser apenas cansaço.

Jhow conversava com o amigo Cléber Amaral quando ouviu um alerta.

“Cléber falou: ‘Jhow, ela caiu.’”

Quando chegou perto encontrou a amiga desacordada e sangrando.

“Eu coloquei minha mão embaixo da cabeça dela.”

“Fiquei falando o tempo todo: meu bem, estamos aqui.”

Pouco depois ela recuperou a consciência.

Durante a entrevista ao Mais Berlim, Jhow revelou que também passou por uma situação semelhante anos atrás.

Ele havia tomado apenas parte da segunda cerveja da noite quando começou a sentir uma forte náusea e intensa dor de cabeça.

Conseguiu chegar em casa.

Mas sofreu apagões.

“Eu lembro de tentar abrir a porta.”

“Depois lembro de acordar no chão da cozinha.”

Para ele, só não aconteceu algo pior porque conseguiu voltar para casa.

“Se fosse uma amiga sozinha, poderia ter sido muito pior.”

Cléber Amaral também presenciou a queda.

Ele viu quando Gissauro caminhou em direção ao bar e então caiu.

“Ela simplesmente apagou.”

“Havia muito sangue.”

Cléber ajudou nos primeiros socorros, controlou o sangramento, acionou a equipe de segurança e permaneceu ao lado da vítima.

“O correto teria sido chamar a ambulância.”

A equipe do Maaya informou à vítima que iria chamar a ambulância, mas Gissauro conta de recusou o atendimento de emergência.


Seis horas de espera e o exame que não aconteceu

Imagem: Mais Berlim

Assim como muitos imigrantes, Gissauro acreditava que uma ambulância poderia resultar em custos elevados.

Por isso decidiu voltar para casa.

Dormiu algumas horas.

E apenas depois procurou atendimento médico.

Hoje acredita que essa decisão pode ter prejudicado a coleta de provas.

Ao chegar ao hospital, informou que suspeitava que sua bebida pudesse ter sido adulterada.

Mesmo assim, segundo seu relato, aguardou aproximadamente seis horas para ser atendida.

“Foram umas seis horas esperando.”

Quando finalmente foi chamada, a atenção médica concentrou-se nos ferimentos provocados pela queda.

Uma tomografia descartou lesões graves na cabeça.

Mas confirmou a fratura no nariz.

O dente quebrado também exigiu atendimento urgente.

“O nervo ficou exposto.”

Segundo Gissauro, nenhum exame toxicológico foi solicitado.

Ela afirma que no relatório médico apareceu a palavra “intoxicação”, embora não tenha sido realizado exame de sangue.

Dias depois procurou a Polícia de Berlim.

Ela foi informada por uma policial que o exame deveria ter sido solicitado imediatamente.

A policial também teria alertado que muitas substâncias utilizadas nesses casos permanecem pouco tempo no organismo.


Casos crescem quase 1000% em Berlim

Foto de Myko Makh na Unsplash

Os dados obtidos com exclusividade pelo Mais Berlim junto à Polícia de Berlim mostram que os registros de suspeitas envolvendo K.O.-Tropfen aumentaram drasticamente na última década.

Em 2016 foram registrados 52 casos.

Em 2025 o número chegou a 569.

Isso representa um aumento de aproximadamente 994%, ou quase onze vezes mais registros em menos de dez anos.

Somente entre 1º de janeiro e 20 de maio de 2026 já haviam sido contabilizados outros 214 casos.

AnoCasos
201652
201761
201850
2019119
2020182
2021155
2022190
2023358
2024415
2025569
2026*214

*Dados até 20 de maio de 2026.


Friedrichshain-Kreuzberg lidera os registros

Segundo a Polícia de Berlim, os distritos com maior número de ocorrências registradas em 2025 foram:

  • Friedrichshain-Kreuzberg: 165 casos;
  • Mitte: 130 casos;
  • Neukölln: 59 casos.

Entre janeiro e maio de 2026, Friedrichshain-Kreuzberg permaneceu na liderança, com 76 registros.

A Polícia de Berlim ressalta que esses números não permitem concluir que determinados estabelecimentos sejam mais perigosos que outros e não atribui responsabilidade a locais específicos.


O que diz o MAAYA

O Mais Berlim procurou o Maaya para comentar o caso.

Em pronunciamento público divulgado nas redes sociais, João Victor Dantas Beyer, gerente de eventos, afirmou que o local tem equipes treinadas para lidar com situações de emergência e insegurança.

Ele explica que o treinamento envolve segurança, bar, limpeza, logística, awareness e demais funcionários da casa.

João afirmou que qualquer frequentador que se sinta inseguro deve procurar imediatamente um integrante da equipe.

“Se você vê uma ameaça ou sente que algo está errado, procure um funcionário”, reforça.

O responsável pelo espaço também destacou um ponto que conversa diretamente com a experiência vivida por Gissauro.

A ambulância.

Segundo ele, muitas vítimas recusam atendimento por acreditarem que precisarão arcar com os custos.

E pede, “se você é vítima, aceite ajuda.”

João afirmou que o seguro do local cobre situações dessa natureza e que o atendimento imediato é fundamental para proteger a vítima e preservar provas.

“Você não estará prejudicando a casa.”

“Você estará ajudando a identificar quem cometeu o crime.”

Além disso, destacou que o encaminhamento imediato ao hospital aumenta as chances de coleta de evidências e de abertura rápida de investigação policial.

Para ele, a prioridade deve ser sempre a segurança da vítima.


Outros relatos, apagões, roubos e situações de risco

Foto de Axville na Unsplash

Durante a apuração desta reportagem, o Mais Berlim ouviu brasileiros que viveram experiências semelhantes em diferentes contextos: festas brasileiras, bares, eventos de rua e encontros entre amigos.

Alguns relatos terminaram em roubos.

Outros envolvem situações que as vítimas descrevem como tentativas de aproveitamento da incapacidade de reação provocada pelas substâncias.

Em comum, de acordo com as informações da Polícia e de especialistas, os depoimentos apresentam elementos semelhantes aos associados aos chamados K.O.-Tropfen: perda repentina de consciência, apagões de memória, desorientação, dificuldade de locomoção, incapacidade de reagir e dificuldade posterior para reunir provas.


Mais um apagão após festa brasileira

Um dos casos mais recentes ocorreu após uma festa brasileira realizada no YAAM (Young African Art Market), um projeto sociocultural independente de Berlim, que reúne música, arte urbana, cultura africana e caribenha, esportes e iniciativas de integração social. 

Foi na noite de 8 para 9 de maio.

O Mais Berlim teve acesso ao caso e ouviu diretamente a vítima, um homem que pediu para não ser identificado.

Segundo o relato, a noite começou de forma completamente normal.

A vítima afirma que chegou bem ao evento e que havia consumido apenas uma cerveja comprada em um Späti Kaufe (uma loja de bebidas que permanece aberta até mais tarde) durante o trajeto.

Nada além disso.

A última lembrança clara da noite foi por volta das 2h30 da madrugada.

Depois disso, a memória desaparece completamente.

Não existem flashes.

Não existem recordações fragmentadas.

Não existe qualquer lembrança do que aconteceu durante as horas seguintes.

A próxima memória foi dentro de um trem da rede S-Bahn.

Eram quase seis horas da manhã.

Não sabia como havia chegado ali.

Não sabia por onde havia passado.

Nem conseguia reconstruir o trajeto realizado durante aquele período.

Ao recuperar a consciência percebeu que alguns pertences haviam desaparecido.

O celular não estava mais com ele.

Cerca de 100 euros em dinheiro também desapareceram.

Os cartões bancários, porém, permaneceram na carteira.

No dia seguinte registrou uma ocorrência online junto à Polícia de Berlim.

Poucas horas depois recebeu uma ligação dos investigadores.

No domingo, policiais compareceram à sua casa para recolher uma amostra de urina.

O material foi encaminhado para análise toxicológica.

Até o momento da entrevista ao Mais Berlim, a vítima ainda aguardava os resultados.

Além do possível uso de substâncias, o caso também envolve suspeita de roubo.

O Mais Berlim também procurou o YAAM para comentar o caso relatado nesta reportagem.

Até o fechamento desta edição, não havia recebido resposta.

A Polícia de Berlim também foi questionada sobre o episódio e informou que responderá posteriormente dentro dos trâmites normais da investigação.


“Você vai comigo para o quarto”

Acervo particular: Bruno Torati

O enfermeiro brasileiro Bruno Torati, morador de Berlim há mais de 14 anos, também relatou uma experiência que nunca esqueceu.

Foi durante o verão em um bar bastante conhecido da cidade.

Naquela noite aguardava a chegada de um amigo.

Os demais companheiros já haviam ido embora.

Foi então que um homem mais velho se aproximou.

Segundo Bruno, o desconhecido afirmou estar hospedado em um hotel localizado acima do estabelecimento.

Pouco depois fez um convite direto.

“Você não quer subir comigo?”

Bruno recusou.

Explicou que estava esperando um amigo.

O homem insistiu de outra forma.

Ofereceu uma cerveja.

Bruno aceitou.

Acervo Particular: Bruno Torati

Naquele momento não viu motivo para desconfiar.

Mas seu amigo já estava chegando ao local.

Ao passar de carro em frente ao bar, percebeu algo estranho.

Segundo Bruno, o amigo afirma ter visto o momento em que o homem teria colocado alguma substância no copo.

Ele correu até a mesa.

Mas nesse instante Bruno já havia tomado dois goles da bebida.

O efeito teria sido quase imediato.

“Eu comecei a passar mal muito rápido.”

Bruno conta que costuma consumir bebidas alcoólicas e que aquela era apenas sua terceira cerveja da noite.

Mesmo assim começou a perder completamente a coordenação motora.

Foi então que ouviu uma frase que nunca esqueceu.

“Você vai comigo para o quarto.”

Ele explicou que naquele momento já estava confuso.

Desorientado.

Sem conseguir reagir adequadamente.

O amigo precisou praticamente carregá-lo até o carro.

Durante o trajeto de volta para casa, vomitou diversas vezes.

Também sofreu apagões de memória.

“Eu não lembro de muita coisa.”

Segundo ele, só não aconteceu algo mais grave porque o amigo chegou antes do horário combinado.

“Se ele não tivesse chegado naquele momento, eu não sei o que teria acontecido.”

Hoje Bruno não aceita bebidas abertas oferecidas por desconhecidos.

“Só se abrir na minha frente.”

Em 14 anos vivendo em Berlim, afirma que foi a única situação desse tipo que enfrentou pessoalmente.

Mas diz conhecer outras pessoas que relatam experiências semelhantes.


Uma corrente de prata, um banheiro e o medo de não conseguir reagir.

Foto de Aleksandar Andreev na Unsplash

Outro relato recebido pelo Mais Berlim ocorreu em um estabelecimento da região de Neukölln.

A vítima pediu anonimato.

E conta que tudo começou após conhecer um homem durante a noite.

Mais tarde os dois seguiram para outro local.

Enquanto um conhecido jogava bilhar, ela permaneceu sentada próxima ao balcão.

Foi então que um segundo homem iniciou conversa.

Segundo o relato, ele perguntou várias vezes se ela estava sozinha.

“Ele perguntou duas ou três vezes.”

Em determinado momento colocou uma corrente de prata em sua mão.

A vítima acredita que foi exatamente naquele instante que sua bebida foi adulterada.

“Eu fiquei olhando para a corrente sem entender por que ele estava me dando aquilo.”

Depois começaram os sintomas.

Outros homens apareceram.

Um deles a conduziu até um banheiro.

Ali a situação ficou ainda mais estranha.

A vítima lembra que o homem mostrou drogas e dinheiro.

E afirma ter percebido que estava em perigo.

“Eu comecei a entrar em estado de alerta.”

Mesmo confusa, a vítima conseguiu sair do banheiro.

Do lado de fora encontrou novamente o conhecido que a acompanhava naquela noite.

Mas percebeu que não encontrava suas chaves.

Enquanto ele retornava ao interior do estabelecimento para procurá-las, dois homens se aproximaram.

Eles começaram a tocar seu corpo e tentar retirar suas roupas.

Ela afirma que naquele momento já tinha dificuldade de reagir e de compreender totalmente o que estava acontecendo.

O conhecido retornou e interrompeu a situação.

Pouco depois ela perdeu completamente as forças.

Uma ambulância foi chamada.

A vítima registrou ocorrência junto à polícia.

Meses depois foi informada de que não haviam sido encontradas imagens que permitissem avançar na investigação.

A vítima acredita que se tratava de uma ação coordenada envolvendo mais de uma pessoa.

“Para mim estava claro que era uma gangue.”

Ela afirma que o homem que acredita ter colocado algo em sua bebida não foi o mesmo que posteriormente a abordou do lado de fora do estabelecimento.


“Ela simplesmente decidiu me drogar”

Outro relato recebido pelo Mais Berlim aconteceu durante uma festa de aniversário em Berlim.

A vítima também pediu anonimato.

Naquela noite estava com forte dor de cabeça e pretendia ir embora.

Amigos insistiram para que permanecesse mais algum tempo.

Uma das convidadas ofereceu um suposto remédio.

Depois disso, as lembranças tornam-se fragmentadas.

A pessoa recorda apenas flashes.

Conversas.

Momentos de dança.

Trechos desconexos da noite.

No dia seguinte veio a descoberta.

Segundo o relato, a substância oferecida como remédio era, na verdade, ópio.

“Ela simplesmente decidiu que podia me drogar.”

A vítima afirma que nunca recebeu explicações convincentes sobre o episódio.

O caso nunca foi investigado formalmente.

Mas permanece como uma das experiências mais perturbadoras relatadas durante esta apuração.


“Até hoje tenho pânico do Carnaval de Colônia”

A brasileira Joanna Silva conta que sua vida mudou durante o Carnaval de Colônia.

O episódio ocorreu antes da pandemia.

Naquele dia ela viajou até a cidade acompanhada de uma amiga.

Como muitos foliões, carregava uma bebida preparada previamente.

Joanna diz que não havia consumido grande quantidade de álcool.

A última lembrança que possui é de quando entrou em um banheiro.

Depois disso, nada.

Horas mais tarde despertou em um hospital.

Estava deitada no chão de um corredor.

Molhada.

Suja.

Sem entender onde estava.

Sem saber como havia chegado ali.

Sem conseguir reconstruir o que tinha acontecido.

Sua primeira reação foi ir embora.

Saiu do hospital.

Foi até a estação de trem.

Telefonou para um amigo.

E voltou para casa chorando.

“Eu não sabia o que tinha acontecido comigo.”

Meses depois recebeu uma cobrança relacionada ao atendimento de emergência prestado naquele dia.

Posteriormente procurou um médico.

Segundo Joanna, ele afirmou que existia grande possibilidade de sua bebida ter sido adulterada.

Mas diante da quantidade de pessoas presentes no Carnaval de Colônia seria extremamente difícil descobrir o que aconteceu.

Até hoje ela evita participar da festa.

“Tenho pânico do Carnaval de Colônia.”


O relato mais antigo: Essen

Entre os relatos recebidos pelo Mais Berlim existe um que permanece doloroso mais de uma década depois.

Uma mãe contou à reportagem a história da filha.

O episódio foi em Essen, há cerca de onze anos.

Na época, a jovem tinha apenas 15 anos.

Alguém colocou uma substância em sua bebida durante uma festa.

Ela passou mal.

Foi levada para um quarto para descansar.

Mas a situação não terminou ali.

Segundo a mãe, a adolescente permaneceu consciente durante todo o episódio.

Ela sabia o que estava acontecendo ao seu redor.

Mas não conseguia se mover.

Não conseguia reagir.

Não conseguia pedir ajuda.

A mãe afirma que a situação “chegou ao extremo”, mas prefere não divulgar mais detalhes para preservar a privacidade da filha.

O trauma foi tão profundo que a jovem levou anos para falar sobre o assunto.

Nem a própria mãe sabia o que havia acontecido.

A revelação só veio cerca de seis anos depois do episódio.

Mãe e filha assistiam juntas a um programa de televisão alemão sobre K.O.-Tropfen quando a jovem começou a chorar.

Foi naquele momento que decidiu contar sua história.

Segundo a mãe, a filha carregou sozinha o peso daquela experiência durante anos.

Sem registrar ocorrência.

Sem procurar ajuda especializada.

Sem compartilhar o que havia vivido nem mesmo com familiares próximos.

A mãe contou ao Mais Berlim que até hoje a jovem prefere não falar publicamente sobre o assunto.

“A estratégia dela é esquecer e silenciar”, relatou.

A mãe decidiu compartilhar a história de forma anônima porque acredita que outras pessoas precisam ser alertadas.

“Quando a gente é jovem, acha que uma coisa dessas nunca vai acontecer numa festa de amigos.”

“Mas pode acontecer.”

Ela também faz um alerta que considera importante.

“Muitas vezes as pessoas pensam que o perigo vem de desconhecidos. Mas também é preciso ter cuidado com o círculo de conhecidos e com pessoas que frequentam os mesmos ambientes.”

Segundo a mãe, o homem envolvido no episódio era um convidado da festa que sua filha não conhecia.

Mais de uma década depois, ela afirma que ainda sofre ao lembrar que não pôde proteger a filha do que aconteceu naquela noite.

“Essas pessoas destroem almas.”


Um padrão que se repete

Embora os casos tenham ocorrido em cidades diferentes, em contextos específicos e períodos distintos, vários elementos se repetem nos relatos ouvidos pelo Mais Berlim.

As vítimas descrevem:

  • sensação repentina de desorientação;
  • perda de memória;
  • dificuldade para permanecer em pé;
  • apagões;
  • náuseas;
  • vômitos;
  • incapacidade de reagir;
  • desaparecimento de pertences;
  • dificuldade para reunir provas posteriormente.

Em muitos casos, as pessoas só perceberam a gravidade da situação horas depois, quando a oportunidade de realizar exames toxicológicos já havia passado.

Os relatos também mostram que o fenômeno não está restrito a um único tipo de ambiente.

As ocorrências mencionadas nesta reportagem ocorreram em festas brasileiras, bares, eventos de rua, ambientes privados e grandes celebrações públicas.

O que são os K.O.-Tropfen

Imagem: Charles Chen

Embora a expressão “Boa Noite Cinderela” seja amplamente utilizada no Brasil, na Alemanha o termo mais comum é K.O.-Tropfen, algo que poderia ser traduzido livremente como “gotas que apagam”.

A farmacêutica Mikaella Miranda Siqueira, pós-graduada em Farmácia Clínica e Prescrição Médica pelo Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ), explica que não se trata de uma substância única.

Na verdade, o termo engloba diferentes drogas capazes de provocar sedação, perda de memória, confusão mental e incapacidade de reação.

“Muitas dessas substâncias são incolores e praticamente não possuem sabor, o que facilita sua administração sem que a vítima perceba”, explica.

Segundo a especialista, os principais grupos utilizados nesses casos são:

  • Benzodiazepínicos;
  • Ácido gama-hidroxibutírico (GHB);
  • Ketamina.

Os benzodiazepínicos são medicamentos prescritos para ansiedade severa e distúrbios do sono.

Já o GHB foi originalmente estudado como anestésico e pode provocar depressão profunda do nível de consciência.

A ketamina, por sua vez, é um anestésico dissociativo utilizado em procedimentos médicos.

“Embora diferentes substâncias possam ser usadas indevidamente, elas podem ser agrupadas em três pilares principais, de acordo com o mecanismo de ação sobre o sistema nervoso central”, alerta.


Por que elas são tão perigosas

Segundo Mikaella Siqueira, um dos principais riscos é a combinação dessas substâncias com álcool.

“O efeito pode ser potencializado de forma exponencial.”

Além da sedação profunda, os efeitos podem incluir:

  • perda de memória;
  • relaxamento muscular;
  • dificuldade de reação;
  • alterações de consciência;
  • confusão mental;
  • incapacidade de locomoção;
  • depressão respiratória.

Em casos extremos, podem levar à morte.

Os benzodiazepínicos costumam provocar bloqueio na formação de novas memórias.

O GHB produz rápida sedação e perda de consciência.

Já a ketamina pode criar um estado dissociativo no qual a pessoa permanece parcialmente consciente, mas incapaz de reagir adequadamente ao ambiente.

“A vítima pode aparentar estar acordada, mas encontra-se desconectada da realidade e sem condições de tomar decisões”, explica.


O tempo é o maior inimigo das investigações

Imagem: Adrian Susec

Um dos maiores desafios para as autoridades é a rápida eliminação dessas substâncias pelo organismo.

Segundo Mikaella Siqueira:

  • Benzodiazepínicos podem permanecer ativos por até 12 horas;
  • GHB costuma desaparecer em cerca de 3 horas;
  • Ketamina pode deixar de ser detectável após aproximadamente 2 horas.

A resposta enviada pela Polícia de Berlim ao Mais Berlim confirma essa dificuldade.

Segundo a corporação, o GHB pode ser detectado no sangue por apenas cinco a seis horas.

Na urina, o prazo costuma chegar a aproximadamente onze horas.

Após esse período, as chances de comprovação diminuem drasticamente.

“A oportunidade para coleta de provas é extremamente curta”, destacou a polícia.

Esse detalhe ajuda a explicar por que muitos casos acabam sem confirmação laboratorial.

As vítimas frequentemente despertam horas depois dos acontecimentos, ainda desorientadas e sem compreender exatamente o que ocorreu.


Polícia de Berlim: número de casos quase 11 vezes maior que em 2016

Foto de Ivan Lopatin na Unsplash

Os dados enviados pela Polícia ao Mais Berlim mostram uma evolução que preocupa as autoridades.

Os registros envolvendo os termos “KO-Wirkstoff”, Ketamina, GHB e Rohypnol passaram de 52 casos em 2016 para 569 casos em 2025.

Trata-se de um crescimento de aproximadamente 994%.

Segundo a polícia, a maior parte dos registros não está relacionada exclusivamente a crimes sexuais.

Os casos incluem também:

  • roubos;
  • lesões corporais;
  • furtos;
  • situações em que a vítima perde completamente a capacidade de reação.

A corporação informou que não tem dados sobre a subnotificação, mas reconhece que ela provavelmente é elevada.


O que aparece nos exames toxicológicos

Foto de CDC na Unsplash

A Polícia de Berlim também forneceu ao Mais Berlim uma lista das substâncias mais frequentemente identificadas em análises laboratoriais realizadas pelo setor de criminalística da corporação ao longo de 2025.

Os resultados incluem substâncias que podem ser utilizadas como K.O.-Mittel.

As mais detectadas foram:

SubstânciaCasos
Álcool (etanol)62
Cocaína32
Anfetamina19
THC17
MDMA11
Ketamina11
Difenidramina10
Metanfetamina8
GHB7
Pregabalina7
Diazepam6

A polícia ressalta, porém, que esses resultados não permitem concluir automaticamente que houve crime.

Segundo a corporação, não é possível determinar apenas pelo exame se a substância foi consumida voluntariamente ou administrada por terceiros.


ZIF defende penas mais duras

O crescimento dos casos levou o tema ao debate político nacional.

Em dezembro de 2025, o Centro de Informação Central dos Abrigos Autônomos para Mulheres (ZIF) apresentou um parecer ao governo alemão defendendo o endurecimento das penas relacionadas ao uso de K.O.-Tropfen.

O Centro apoia mudanças legislativas que equiparem o uso dessas substâncias ao emprego de meios particularmente perigosos em crimes sexuais e roubos.

Em maio deste ano, o governo federal avançou com uma proposta para aumentar a pena mínima aplicável nesses casos de dois para cinco anos de prisão.

No documento enviado ao Ministério Federal da Justiça, o ZIF afirma:

“A classificação dos K.O.-Tropfen como meio perigoso pode ter um efeito simbólico importante para a sociedade.”

Mas ressalta que a punição, sozinha, não resolverá o problema.

“O fator decisivo para uma sociedade livre de violência é a prevenção consistente.”


“Berlim diz não”

O ZIF também participa da campanha “Berlin sagt Nein zu K.O.-Tropfen” (“Berlim diz não às drogas de violação”).

A iniciativa reúne instituições de apoio às vítimas, profissionais da saúde, organizações de prevenção e grupos da sociedade civil.

A campanha destaca que homens, mulheres e pessoas LGBTQIA+ podem ser vítimas.

Além disso, enfatiza a necessidade de:

  • campanhas educativas permanentes;
  • atendimento especializado;
  • acolhimento das vítimas;
  • coleta rápida de provas;
  • combate à culpabilização das pessoas afetadas.

A subnotificação preocupa

Segundo o ZIF, um dos maiores desafios continua sendo a quantidade de casos que nunca chegam ao conhecimento das autoridades.

“A subnotificação desses crimes é extremamente alta.”

A organização afirma que muitas vítimas:

  • sentem vergonha;
  • não conseguem reconstruir os acontecimentos;
  • têm medo de não serem acreditadas;
  • evitam reviver o trauma.

Por isso,  o ZIF defende treinamento especializado para profissionais da saúde, policiais e integrantes do sistema de Justiça.

O objetivo é evitar situações de revitimização.

“Perguntas que culpabilizam as vítimas devem pertencer ao passado.”


O que dizem os organizadores de eventos

O Mais Berlim também procurou organizadores de festas brasileiras em Berlim para entender como o tema está sendo tratado dentro da comunidade.


Bossa FM

A organização da Bossa FM informou que a segurança do público é prioridade.

Segundo a produtora, já houve relatos de situações suspeitas em eventos anteriores, motivo pelo qual protocolos preventivos vêm sendo reforçados.

A Bossa FM afirmou que realiza alinhamentos constantes com equipes de segurança e busca agir rapidamente diante de qualquer ocorrência.

A organização também declarou que procura impedir a entrada de pessoas envolvidas em incidentes anteriores sempre que isso é possível.


Bruta Flor

O produtor Aurélio Santos, da Bruta Flor, afirmou que nunca registrou casos graves em seus eventos ao longo dos últimos oito anos.

Segundo ele, o foco agora é ampliar as medidas preventivas e incentivar denúncias imediatas.


Forró di Kenga reforça awareness

A produtora Bruna Veiga, do Forró di Kenga, informou ao Mais Berlim que nunca registrou casos desse tipo em seus eventos.

Segundo ela, a festa conta com uma equipe de Awareness e adota medidas preventivas em todas as edições.

A anfitriã da festa, Gabi, costuma apresentar ao público as regras de convivência, acolhimento e segurança no início dos eventos.

Além disso, a produção orienta a equipe do bar a observar pessoas que aparentem estar excessivamente alteradas e continuem solicitando bebidas.

Segundo Bruna, a prevenção e a atenção aos sinais de vulnerabilidade fazem parte da política permanente da festa.


Maloca Berlin

O produtor Ricci Ferreira, da Maloca Berlin, afirmou que acompanha o tema com preocupação.

Segundo ele, existe atualmente uma suspeita envolvendo um frequentador, que relatou perda de memória e desaparecimento de pertences.

Até o momento da entrevista, os resultados laboratoriais ainda não haviam sido divulgados.

Ricci afirma que pretende ampliar ações de awareness e comunicação direta com o público.

Entre as medidas estudadas estão:

  • avisos constantes durante festas;
  • reforço da equipe de awareness;
  • campanhas educativas;
  • criação de uma rede de troca de informações entre organizadores.

“A gente precisa continuar fazendo das nossas festas espaços seguros.”

Ricci também defende a criação de mecanismos de cooperação entre produtores para impedir a circulação de pessoas identificadas em episódios de violência ou comportamento predatório.


O que fazer se você suspeitar de K.O.-Tropfen

A Polícia de Berlim orienta que qualquer suspeita seja tratada imediatamente.

As recomendações incluem:

Durante a festa

  • Nunca deixar bebidas desacompanhadas;
  • Aceitar apenas bebidas fechadas ou abertas diante de você;
  • Evitar consumir bebidas com sabor ou cheiro incomum;
  • Observar mudanças repentinas em amigos.

Se algo parecer errado

  • Procurar imediatamente funcionários, seguranças ou amigos;
  • Não sair sozinho com desconhecidos;
  • Acionar socorro médico em casos de desorientação grave ou perda de consciência.

Se houver suspeita de adulteração

  • Procurar imediatamente um hospital;
  • Solicitar coleta de sangue e urina;
  • Guardar copos, garrafas e outros possíveis vestígios;
  • Evitar tomar banho caso exista possibilidade de crime sexual;
  • Registrar ocorrência policial o mais rápido possível.

A Polícia de Berlim destaca que a rapidez é decisiva.

Em alguns casos, substâncias como o GHB podem desaparecer do sangue em apenas cinco ou seis horas.


Uma discussão que está longe de terminar

Os dados oficiais mostram que os registros de suspeitas envolvendo K.O.-Tropfen cresceram fortemente em Berlim na última década.

Os relatos reunidos pelo Mais Berlim indicam que o problema não está restrito a um único tipo de evento, bairro ou público.

As histórias ouvidas pela reportagem aconteceram em festas brasileiras, bares, eventos de rua, ambientes privados e grandes celebrações públicas.

Nem todos os casos foram confirmados por exames laboratoriais.

Mas todos deixaram marcas.

Em alguns casos, físicas.

Em outros, emocionais.

A Polícia de Berlim afirma que o principal desafio continua sendo a rápida eliminação dessas substâncias do organismo e a dificuldade de reunir provas.

Enquanto autoridades discutem mudanças na legislação e especialistas defendem mais prevenção, vítimas seguem enfrentando não apenas os efeitos físicos dos episódios, mas também as consequências emocionais de experiências que muitas vezes permanecem sem respostas.

O Mais Berlim também aguarda respostas adicionais da Polícia de Berlim sobre os casos relatados nesta reportagem, incluindo o episódio envolvendo Gissauro Araújo.

O post Casos de “Boa Noite Cinderela” disparam em Berllim apareceu primeiro em .

]]>
https://maisberlim.com/boa-noite-cinderela-berlim-ko-tropfen-alemanha/feed/ 0
Brasileiro assume comando do principal time de vôlei de Berlim e já leva equipe à semifinal https://maisberlim.com/brasileiro-tecnico-berlin-recycling-volleys-semifinal/ https://maisberlim.com/brasileiro-tecnico-berlin-recycling-volleys-semifinal/#respond Sun, 05 Apr 2026 14:11:36 +0000 https://maisberlim.com/?p=1357 Alexandre Leal, brasileiro, assume o Berlin Recycling Volleys e já leva o time à semifinal dos playoffs. Conheça sua trajetória internacional.

O post Brasileiro assume comando do principal time de vôlei de Berlim e já leva equipe à semifinal apareceu primeiro em .

]]>
Foto: Pressefoto Gora

Alexandre Leal, técnico do Berlin Recycling Volleys, aposta em intensidade, gestão de grupo e experiência internacional para buscar mais um título


De quase 10 anos no Taubaté ao comando em Berlim

A trajetória de Alexandre Leal até o comando do Berlin Recycling Volleys é marcada por consistência e formação sólida dentro do voleibol de alto nível.

O brasileiro construiu a base da sua carreira no Vôlei Taubaté, onde atuou entre as temporadas 2013/2014 e o início de 2021/2022. Durante esse período, trabalhou como analista de desempenho até 2020/2021 e depois como auxiliar técnico.

No clube paulista, acumulou conquistas importantes:

  • bicampeão da Superliga (2018/19 e 2020/21)
  • campeão do Sul-Americano de Clubes (2015/16)
  • bicampeão da Copa do Brasil (2014/15 e 2016/17)
  • campeão da Supercopa do Brasil (2020/21)
  • múltiplos títulos do Campeonato Paulista

Além disso, integrou a comissão técnica da seleção brasileira nos Jogos Pan-Americanos de Lima 2019, onde conquistou a medalha de bronze como analista de desempenho.


Experiência internacional antes da Alemanha

Após deixar o Brasil, Leal iniciou sua trajetória internacional. Trabalhou no Kuwait, pelo Kazma, e na Arábia Saudita, pelo Al Hilal, ambos como auxiliar técnico.

No Kazma, foi vice-campeão da liga e da copa nacional do Kuwait.

Também acumulou experiências como auxiliar técnico na Holanda e na Turquia antes de chegar à Alemanha.


A chegada a Berlim e a promoção

18.01.26, Berlin, Volleyball, 17. Spieltag, Berlin Recycling Volleys – Helios Grizzlys Giesen.

Leal chegou ao Berlin Recycling Volleys como auxiliar técnico e permaneceu na função por duas temporadas e meia até janeiro deste ano, quando assumiu o comando da equipe principal.

A mudança aconteceu após a saída do treinador anterior — um momento delicado, como ele próprio define:

“É uma situação que nunca é legal. Um colega de trabalho foi desligado, mas o clube precisava de alguém para assumir. A gente tem que fazer o que for necessário para ajudar o clube que te acolheu.”


“Não mudou nada — só a responsabilidade”

Mesmo com o novo cargo, o treinador reforça que sua forma de trabalhar permanece a mesma.

“Tô fazendo o que eu sempre fiz. Não mudou nada. Continuo fazendo o que eu sempre faço, mas com mais responsabilidades, com mais decisões a serem tomadas. Agora é literalmente a responsabilidade de decidir, não apenas de dar suporte.”

Para ele, manter a identidade foi essencial para chegar até aqui — e continua sendo no novo desafio.


Ajustes pontuais e continuidade

Ao assumir o time, Leal encontrou uma estrutura já consolidada e optou por ajustes pontuais.

“A equipe já tinha uma situação bem sólida. Fiz alguns ajustes no dia a dia de treinamento, mas não grandes mudanças.”

A base de trabalho foi mantida, com foco na evolução progressiva.


Um estilo mais brasileiro

18.01.26, Berlin, Volleyball, 17. Spieltag, Berlin Recycling Volleys – Helios Grizzlys Giesen.

A principal diferença aparece na forma de conduzir o grupo.

“Talvez um pouco mais latino, um pouco mais brasileiro. Um pouco mais intenso, mais enérgico, mas também com calma. Tem que ter um balanço entre as duas coisas.”

Segundo ele, esse equilíbrio entre intensidade e controle é essencial no alto nível.


Mudar a atmosfera foi o primeiro objetivo

Nos primeiros meses como técnico principal, o foco esteve no ambiente interno da equipe.

“É difícil fazer uma autoavaliação, mas a atmosfera com certeza mudou. Esse era o meu principal foco.”


Time já está na semifinal dos playoffs

O impacto do trabalho já aparece em resultados. O Berlin Recycling Volleys venceu as quartas de final da Bundesliga e garantiu vaga na semifinal.

Agora, a equipe aguarda a definição do adversário na próxima fase.

“Agora começa uma outra competição. Playoffs são uma outra competição.”

“Berlim é uma das melhores equipes da Europa e o objetivo é sempre ser campeão.”


O que realmente conta no voleibol internacional

Mesmo vindo de uma das maiores escolas de vôlei do mundo, Leal relativiza o peso da origem.

“O mais importante é o que você constrói dentro da equipe. Não é de onde você veio, mas o que você faz no clube.”


Um gigante do vôlei europeu

O Berlin Recycling Volleys é um dos clubes mais dominantes da Alemanha nas últimas décadas. A equipe soma mais de 10 títulos da Bundesliga, além de conquistas da Copa da Alemanha e da Supercopa.

O clube também é presença frequente na CEV Champions League, consolidando-se como uma das principais forças do voleibol europeu.

A aposta da diretoria em Alexandre Leal foi justamente para dar um novo impulso ao elenco.

“Alexandre Leal vem realizando um trabalho valioso há três anos no clube. Mesmo quando era estatístico, já assumia mais responsabilidades do que o habitual e atuava quase como um segundo auxiliar técnico. Demos a ele a oportunidade de assumir como treinador principal porque a equipe precisava de um novo impulso. Ele encara esse desafio com muito empenho e ambição. Valorizamos não apenas seu conhecimento de vôlei, mas também sua paixão pelo esporte e sua forma humana de lidar com as pessoas.”


O momento mais importante da carreira

Agora como técnico principal de uma das maiores equipes da Europa, Alexandre Leal vive o auge da carreira.

Sem prometer revoluções, mas apostando em intensidade, consistência e gestão de grupo, o brasileiro já começa sua trajetória no comando levando o time à semifinal — e com o objetivo claro de manter Berlim no topo.

Você pode enviar essa matéria para um amigo, na versão alemão ou inglês:

Quer saber mais? Mais Berlim News.

O post Brasileiro assume comando do principal time de vôlei de Berlim e já leva equipe à semifinal apareceu primeiro em .

]]>
https://maisberlim.com/brasileiro-tecnico-berlin-recycling-volleys-semifinal/feed/ 0
Berlim reforça liderança global e cria estratégia pioneira na Alemanha contra queerfobia https://maisberlim.com/berlim-reforca-lideranca-global-e-cria-estrategia-pioneira-na-alemanha-contra-queerfobia/ Tue, 31 Mar 2026 18:38:21 +0000 https://maisberlim.com/?p=1343 Berlim aprova plano pioneiro na Alemanha contra queerfobia, com medidas de segurança, apoio e combate à violência após aumento de ataques LGBTQIA+.

O post Berlim reforça liderança global e cria estratégia pioneira na Alemanha contra queerfobia apareceu primeiro em .

]]>
Foto: Gustavo Fring

O Senado de Berlim aprovou, no último dia 24 de março, uma estratégia oficial para a segurança de pessoas LGBTQIA+, tornando a cidade o primeiro estado da Alemanha a adotar uma política estruturada desse tipo.

O plano foi desenvolvido com a participação de mais de 400 pessoas, entre sociedade civil, especialistas e instituições.

A iniciativa reforça o histórico de Berlim como uma das cidades mais avançadas do mundo em direitos LGBTQIA+.

O que diz o governo

Foto: SLAYTINA

A senadora Cansel Kızıltepe afirmou:

“Estamos enviando um sinal claro: a proteção e a segurança de pessoas queer passam a ser permanentes em Berlim.”

Já o comissário Alfonso Pantisano declarou:

“Berlim deixa claro: vidas queer importam. Proteger essas pessoas é também proteger a democracia.”

Por que isso foi criado

Segundo os dados mais recentes disponíveis (2023):

588 crimes contra pessoas LGBTQIA+ registrados em Berlim 127 desses casos envolveram violência física

As autoridades reconhecem que há subnotificação.

Medidas oficiais do plano

Foto: Polina Tankilevitch

Com base no documento do governo de Berlim, a estratégia prevê:

Segurança e combate à violência

Melhoria no registro e monitoramento de crimes de ódio Treinamento específico para polícia e autoridades Ações de prevenção em áreas consideradas de risco

Combate à queerfobia online

Estruturas para enfrentamento de discurso de ódio digital Monitoramento e resposta institucional

Apoio e proteção social

Expansão de serviços de apoio psicológico Fortalecimento de redes de acolhimento Atendimento específico para pessoas LGBTQIA+ refugiadas

Educação e instituições públicas

Promoção da diversidade nas escolas Capacitação de profissionais Incentivo a ambientes mais inclusivos

Espaço urbano

Medidas para aumentar a segurança em espaços públicos Avaliação de pontos de ajuda e emergência

Contexto: por que Berlim é referência

Foto: Abdulmomen Bsruki

Berlim tem um histórico consolidado de políticas LGBTQIA+:

Reconhecimento de diversidade de gênero em políticas públicas Forte rede de apoio institucional e comunitária Histórico de proteção legal e visibilidade desde o pós-reunificação Uma das maiores cenas LGBTQIA+ do mundo

A nova estratégia se soma a esse histórico, agora com foco estruturado em segurança e combate à violência.

O que isso significa

A cidade aprofunda sua atuação ao tratar a queerfobia como uma questão estrutural de segurança pública e direitos humanos, com impacto direto no cotidiano da população LGBTQIA+.

O post Berlim reforça liderança global e cria estratégia pioneira na Alemanha contra queerfobia apareceu primeiro em .

]]>
A história de uma imigrante brasileira que morreu em Berlim — e das vidas que ela transformou https://maisberlim.com/a-historia-de-uma-imigrante-brasileira-que-morreu-em-berlim-e-das-vidas-que-ela-transformou/ Tue, 17 Mar 2026 18:02:15 +0000 https://maisberlim.com/?p=1245 A história de uma imigrante que morreu em Berlim e carregava sonhos e ajudava a comunidade.

O post A história de uma imigrante brasileira que morreu em Berlim — e das vidas que ela transformou apareceu primeiro em .

]]>
Graziele ao lado da mãe, Margarida

Por trás das vidas imigrantes estão sempre histórias que surpreendem, e que fazem cada um se tornar essencial para a comunidade, no desafio de morar fora do seu país.

(Texto original Mais Berlim)

Mesmo sem se conhecerem, amigos e familiares descrevem Graziele da mesma forma e revelam o impacto de uma brasileira que construiu laços, liderou comunidades e deixou marcas profundas na Europa

A morte da brasileira Graziele Costa Moreira, encontrada sem vida em seu apartamento em Berlim na quinta-feira feira, 19 de fevereiro, mobilizou familiares, amigos e a comunidade brasileira na Alemanha e em outros países da Europa.

À medida que novos relatos surgem, uma outra história começa a se desenhar — não apenas sobre o caso, mas sobre quem ela foi em vida.

O Mais Berlim reuniu depoimentos de pessoas que conviveram com Graziele em diferentes momentos — em Berlim, na Irlanda e no Brasil.

Muitos desses relatos vieram de pessoas que nunca se conheceram entre si, mas que, ao falar dela, repetem praticamente as mesmas palavras:

uma mulher inteligente, generosa, independente, agregadora e que fazia diferença real na vida das pessoas ao seu redor.

Leia ao final a matéria completa e atualizada sobre o caso, com informações sobre liberação do corpo, custos e orientações para brasileiros no exterior.

O vôlei em Berlim: onde ela criou uma comunidade

Vôlei: uma paixão que formava comunidade

Se há um lugar onde o impacto de Graziele se torna visível de forma concreta, é no grupo de vôlei que ela ajudou a construir em Berlim.

Não era apenas um esporte — era um ponto de encontro.

E, segundo os amigos, isso só existia por causa dela.

Isaías, que convivia com ela semanalmente, relembra os últimos dias:

“Eu estive com ela na quinta-feira, no nosso último jogo. A gente conversou normalmente, como sempre.”

O encontro aconteceu poucos dias antes de sua morte, indicando que ela seguia ativa e inserida na rotina social.

“Até agora a gente não acredita. Ela vai fazer muita falta. Na verdade, já está fazendo.”

Sobre quem ela era:

“Ela era uma pessoa maravilhosa, sorridente, sonhadora… uma pessoa de alto astral.”

E sobre o papel que exercia no grupo:

“Esse vôlei acontece por causa dela. Foi ela que convidou várias pessoas, que organizou tudo.”

A convivência ia além da quadra:

“Depois do jogo, a gente voltava junto até o ponto do M10…

Hoje eu fico lá lembrando dela.”

Luiz Nunes reforça essa liderança natural:

“Ela ajudava todo mundo, dava dicas, organizava os times…

Era quase uma líder.”

Ele explica como o grupo se formou e se manteve:

“Ela chamava gente, primeiro italianos, depois brasileiros…

Sempre tentando manter o grupo vivo.”

E relembra o último encontro:

“A gente se despediu com um ‘até semana que vem’.

A gente nunca imagina que isso pode acontecer.”

Ele também lembra que, naquele período, Graziele já demonstrava vontade de voltar ao Brasil para rever a família após anos fora.

O vôlei era uma de suas motivações

Carolina Clemens destaca o impacto imediato:

“No meu primeiro dia, ela foi muito receptiva, muito gentil.

Me fez sentir parte do grupo.”

E resume:

“Ela tinha uma energia de muita alegria, muita luz.”

Vinícius Pignataro, que também conheceu Graziele pelo grupo, relembra:

“Ela era muito ativa, sempre chamando a galera pra jogar.

Dava pra ver a alegria dela de estar em Berlim.”

Inteligência, personalidade e uma fase de transição

Além do esporte, Graziele também vivia um momento importante de mudança.

Ela frequentava um curso de alemão nível B2, onde se destacou rapidamente.

Lívia Rangel, colega de turma, descreve:

“Ela chamava atenção por ser muito divertida, com tiradas rápidas e inteligentes, sempre com um olhar crítico sobre a vida e sobre as questões sociais.”

E destaca o lado colaborativo:

“Ela sempre me ajudava, compartilhando materiais de estudo pra eu treinar em casa.”

Mas também traz um retrato mais profundo do momento que ela vivia:

“Dava pra perceber que ela carregava algumas angústias e incertezas da vida em Berlim.”

Graziele estava em uma fase de transição:

“Ela estava resolvendo questões e pensando nos próximos passos, em se mudar, recomeçar.”

O curso fazia parte desse processo:

“Era um fechamento de ciclo.”

E um dado concreto:

“Ela era uma das alunas que melhor falava alemão na turma.”

A ausência repentina inicialmente foi interpretada como algo comum:

“No começo, a gente achou que ela só tinha parado de ir às aulas.”

Depois veio a confirmação da morte — e a turma prestou uma homenagem em sala.

Uma vida em movimento: entre países, escolhas e experiências

Graziele construiu uma trajetória internacional ao longo de mais de uma década.

Saiu de Sete Lagoas (MG), viveu em Dublin, na Irlanda, e depois em Berlim. Trabalhou, mudou de área, construiu amizades e visitou diversos países.

Um amigo próximo, que conviveu com ela na Irlanda e hoje vive em Portugal, descreve:

“De Sete Lagoas para Dublin e depois Berlim… sua vida foi feita de coragem, descobertas e sonhos que não cabiam em um só lugar.”

Ele também destaca um traço constante:

“Ajudar os outros não era um gesto ocasional — era parte de quem ela era.”

E conecta isso à forma como ela vivia:

“Entre viagens, histórias e partidas de vôlei, ela construía conexões reais.”

Família: saudade e uma descoberta sobre quem ela era

Para a família, além da dor, há também um processo de descoberta.

Rafael Padrão, cunhado de Graziele, explica:

“Ela era uma pessoa reservada, mas a gente não sabia que ela tinha tantos amigos.”

E completa:

“A gente está descobrindo o quanto ela era querida.”

Ele relembra a trajetória dela:

“Ela sempre teve o sonho de conhecer o mundo, buscar oportunidades.”

E descreve a realidade da vida fora do país:

“Teve momentos difíceis, perrengues, mas também crescimento, evolução.”

Rafael também destaca um lado pessoal da convivência com Graziele:

“Eu e ela compartilhávamos alguns gostos parecidos, como cultura geek e ufologia.”

Graziele visitou diversos países, gostava de fotografar paisagens e arquitetura e construiu uma vida fora do Brasil.

“Ela viveu do jeito que queria.”

A mãe, Margarida Ribeiro, traz o lado mais íntimo:

“Ela era dedicada, esforçada, honesta e atenciosa.

Todos os dias queria saber como eu estava.”

E resume o sentimento:

“Agora eu só tenho que agradecer pelas boas lembranças e pelas amizades que ela conquistou.”

Quando diferentes histórias contam a mesma pessoa

O que mais chama atenção ao reunir todos esses relatos é um padrão claro:

Mesmo pessoas que nunca se encontraram descrevem Graziele da mesma forma.

ativa

acolhedora

inteligente

agregadora

presente

Ela liderava sem formalidade.

Ajudava sem precisar ser solicitada.

Criava espaços onde as pessoas se sentiam parte.

E talvez isso explique por que, mesmo sendo descrita como reservada,

deixou marcas profundas em tantas vidas.

Campanha para custos com a morte

Para ajudar com os custos de cremação do corpo, passagens, advogados e taxas burocráticas, a família criou uma conta bancária na Europa, no nome da mãe, Margarida Ribeiro:

E também há uma chave PIX para quem quer ajudar e está no Brasil:

Leia também

Atualização do caso Graziele: o que se sabe sobre a morte, liberação do corpo, decisão da família e próximos passos.

Saiba também o que acontece quando um brasileiro morre na Alemanha: burocracia, custos e orientações

Clique aqui

O post A história de uma imigrante brasileira que morreu em Berlim — e das vidas que ela transformou apareceu primeiro em .

]]>
De Cannes ao Oscar,a viagem mundial de “O Agente Secreto” https://maisberlim.com/o-agente-secreto-oscar-kleber-mendonca-filho/ Sun, 15 Mar 2026 20:46:01 +0000 https://maisberlim.com/?p=1232 O filme brasileiro O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, chega ao Academy Awards indicado em quatro categorias após trajetória internacional iniciada no Festival de Cannes.

O post De Cannes ao Oscar,a viagem mundial de “O Agente Secreto” apareceu primeiro em .

]]>

30 pessoas da equipe de “O Agente Secreto” foram a Los Angels para a cerimônia do Oscar

Filme de Kleber Mendonça Filho chega à premiação após quase cinco anos de produção e uma intensa trajetória internacional iniciada no Festival de Cannes. Durante cerca de dez meses, o diretor percorreu diversos países apresentando o longa — incluindo duas passagens pela Alemanha, para a pré-estreia em Berlim e durante a Berlinale.

No dia em que o cinema mundial volta os olhos para a cerimônia do Oscar, o portal Mais Berlim publica uma entrevista com o diretor brasileiro Kleber Mendonça Filho, responsável por O Agente Secreto, filme escolhido para representar o Brasil na disputa pela premiação.

Kléber em uma de suas passagens por Berlim para divulgação do filme

A conversa aconteceu durante a passagem do cineasta por Berlim para a pré-estreia do longa na cidade.

Conhecido por obras como Bacurau e Aquarius, o diretor pernambucano falou sobre o longo processo de criação do filme, ambientado em 1977, período em que o Brasil ainda vivia sob a ditadura militar.

Um filme que levou anos para ficar pronto

Segundo Kleber Mendonça Filho, a produção levou anos até chegar às telas.

“O Agente Secreto durou dois anos de roteiro, um ano de preparação, sete meses de montagem e mais alguns meses de pós-produção”, contou o diretor ao Mais Berlim.

“O sentimento é real, mas não é uma história real. É uma história totalmente fictícia.”

Apesar do forte realismo da narrativa, o cineasta explica que a história não é baseada em um caso específico.

Para ele, a força da narrativa está justamente na conexão com a história e a cultura do país.

“Eu acho que os melhores filmes, livros e músicas têm a lógica da cultura que produziu aquilo. E sendo um filme brasileiro, O Agente Secreto olha muito para a história do Brasil e para os brasileiros.”

O roteiro dialoga com o presente

Imagem Divulgação
© Port au Prince Pictures

Durante a entrevista, Kleber também comentou que o roteiro ganhou novas camadas ao dialogar com acontecimentos políticos recentes no país.

Segundo ele, o período de polarização e o crescimento de discursos autoritários no Brasil ajudaram a dar forma à narrativa.

“Esse momento político pelo qual nós passamos também fez com que o roteiro do filme tomasse corpo”, disse.

Embora ambientado na década de 1970, o diretor afirma que a história desperta reações contemporâneas em diferentes países.

“Eu tenho viajado com o filme e é muito interessante ver como plateias de outros países fazem associações com os momentos políticos que estão vivendo”, explicou.

A diversidade do Brasil no cinema

Imagem Divulgação
© Port au Prince Pictures

Kleber Mendonça Filho também destacou a importância de representar no cinema a diversidade real do Brasil. Para o diretor, mostrar diferentes regiões, sotaques e histórias do país sempre foi uma preocupação em seus filmes.

“Eu acho que meus filmes têm esse desejo de mostrar a variedade de caras que nós temos no Brasil”, disse ao Mais Berlim.

Na entrevista, o cineasta citou inclusive a diversidade do elenco de O Agente Secreto. “Você tem o Wagner Moura da Bahia, a Maria Fernanda Cândido do Paraná, o Buda Lira da Paraíba, a Tânia Maria do Rio Grande do Norte, a Fabiana Pirro do Recife. Isso é Brasil também”, afirmou.

Segundo ele, durante muitos anos o audiovisual brasileiro concentrou grande parte de suas produções no Sudeste, o que acabou criando representações pouco fiéis de outras regiões do país.

“Na televisão, quando aparece um personagem nordestino, muitas vezes é um personagem estilizado, com um sotaque muito estranho, que não é exatamente como as pessoas falam”, disse.

Para o diretor, filmes como O Agente Secreto ajudam a mostrar a pluralidade do país e a riqueza cultural que existe em diferentes partes do Brasil.

Um thriller político sobre o Brasil da ditadura

Imagem Divulgação
© Port au Prince Pictures

O Agente Secreto é um thriller político ambientado no Brasil de 1977, em pleno período da ditadura militar.

A história acompanha Marcelo, personagem interpretado por Wagner Moura, um especialista em tecnologia que retorna a Recife, sua cidade natal, tentando escapar de um passado perigoso e se reconectar com o filho.

O que parecia ser um refúgio, no entanto, rapidamente se transforma em um cenário de tensão e perseguições em meio ao clima de repressão política da época. Misturando elementos de suspense, drama político e investigação, o filme constrói um retrato da sociedade brasileira durante os anos mais duros do regime militar.

O longa reúne um elenco de destaque do cinema brasileiro, com nomes como Wagner Moura, Maria Fernanda Cândido, Tânia Maria, Gabriel Leone, Alice Carvalho e Thomás Aquino. O filme também conta com a participação do ator alemão Udo Kier, conhecido por sua longa carreira no cinema internacional.

A produção é uma coprodução internacional entre Brasil, França, Alemanha e Países Baixos, refletindo o caráter global do projeto e o crescente diálogo do cinema brasileiro com o mercado internacional. Parte da pós-produção do filme, incluindo trabalhos de imagem, foi realizada na Alemanha.

O longa teve estreia mundial no Festival de Cannes, onde competiu pela Palma de Ouro. No festival, Kleber Mendonça Filho recebeu o prêmio de Melhor Diretor, enquanto Wagner Moura foi premiado como Melhor Ator.

Depois da trajetória em festivais e exibições internacionais, o filme chegou aos cinemas em 6 de novembro, com lançamento simultâneo no Brasil, Alemanha e Portugal.

Na disputa por quatro estatuetas

O Agente Secreto concorre ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Elenco e Melhor Ator, para Wagner Moura.

A cerimônia do Oscar acontece neste domingo no Dolby Theatre, em Los Angeles, nos Estados Unidos. Na Alemanha, a premiação começa à 1h da madrugada de segunda-feira, no horário local.

A perda do ator alemão Udo Kier

Durante a trajetória internacional do filme, a equipe também enfrentou uma perda importante. O ator alemão Udo Kier, que participa de O Agente Secreto e já havia trabalhado com Kleber Mendonça Filho em Bacurau, faleceu recentemente. Conhecido por sua longa carreira no cinema europeu e em produções internacionais, Kier teve participação marcante nas duas produções do diretor brasileiro.

Ficha técnica – O Agente Secreto

Direção e roteiro: Kleber Mendonça Filho

Elenco: Wagner Moura, Maria Fernanda Cândido, Tânia Maria, Gabriel Leone, Alice Carvalho, Thomás Aquino, Udo Kier

Gênero: thriller político / drama

Ambientação: Brasil, 1977, durante a ditadura militar

Produção: CinemaScópio, MK Productions, One Two Films, Lemming Film

Coprodução: Brasil, França, Alemanha e Países Baixos

Duração: 158 minutos

Idioma: português

Estreia mundial: Festival de Cannes

Lançamento nos cinemas: 6 de novembro (Brasil, Alemanha e Portugal)

Veja também

O Agente Secreto” vence dois Globos de Ouro e avança na corrida pelo Oscar 2026

O post De Cannes ao Oscar,a viagem mundial de “O Agente Secreto” apareceu primeiro em .

]]>